Nos anos 70, Amado Batista trabalhava numa livraria em Goiânia em que se reunia uma turma de militantes de esquerda. Foi preso e torturado por isso. Tornou-se um dos maiores artistas populares do Brasil, vendendo milhões de discos e reunindo multidões em seus shows. O fato de ser sido preso pela ditadura fez com a esquerda o romantizasse, imaginando-o como um arquétipo da tese do genuíno artista popular esclarecido politicamente. Ele jamais se manifestou a favor de qualquer discurso ou tese claramente de esquerda.
Em 2017, numa entrevista à Marília Gabriela, admitiu ter merecido a prisão, e, para espanto da entrevistadora, a tortura. Defendeu desabridamente a ditadura e ligou a esquerda dos tempos duros à tentativa de implantar por aqui uma ditadura de modelo cubano, o que repelia.
Sempre o respeitei como artista popular, tenho várias listas com muitas de suas músicas. Fui a alguns shows dele em espaços abertos e a multidão presente – majoritariamente classes C, D e E – o acompanhava em toda a apresentação sem errar uma sílaba das letras. Está longe de ser um fenômeno dos grotões, é muito forte nas periferias das grandes cidades.
Muito do apoio dos artistas populares ao bolsonarismo vem do preconceito arraigado da esquerda com os evangélicos, com a esteriotipização caricatural que fazem deles, desconsiderando sua força nas comunidades mais pobres e muito de seu trabalho social de recuperar jovens e adultos degradados pelas drogas ou por outros crimes. Muitos põem no mesmo bolo os pastores sérios e os picaretas, que são muitos. Artistas populares têm um faro especial para sentir a inclinação do povo. Sempre bom encostar o ouvido no chão e perscrutar para onde vão ou de onde vêm suas opções políticas pessoais.
Gosto muito de música caipira, não gosto do sertanejo universitário, nicho bolsonarista, mas respeito todos, sem exceção, os artistas populares. O fato de gostar de artistas que tenham engajamento social de esquerda não me autoriza a desconsiderar a escolha de imensas faixas populares que são receptivas a artistas não validados pela esquerda.
Pelo contrário, me obriga a ficar atento.
—–x—–
Num país de perdas, importante entender qual o significado da perda para os que foram centrifugados para a periferia pelas diferenças sociais obscenas de um modelo plutocrata calcado na cumplicidade da elite política e financeira, com o suporte desconstrangido da grande imprensa. E não falo de padrão de consumo, falo de acesso a serviços essenciais básicos, itens de humanidade.
O excluído brasileiro vive o sonho que lhe é entregue: visitar os seus que deixou empurrado pela fome ou pela impossibilidade; ter uma casa arrumadinha, com tv, geladeira e uns tantins de coisa nova; um transporte que não o humilhe; reunir amigos e famílias pra assar uma carne sob a estridência de histórias contadas pelo salto transcendente de cervejas geladas. Ainda que pisem em merda antes da soleira de suas casas. A perda é um sentimento familiar aos periféricos. Nascem perdendo, poucos viram o jogo. Raramente se chocam pelos incômodos da agenda fútil da elite.
O cancioneiro popular é um cancioneiro da perda. De amores que se foram pela fluidez da fidelidade ou pela imposição da realidade excruciante. Da perda pela ausência doméstica inevitável por expedientes de 16 horas entre batente e transporte; da perda pela degradação; da perda pelo desesperador espectro da fome. Daí tantas canções que indagam em súplica o desejo de ter de novo alguém que se foi no emaranhado de impotência e espanto. Daí tanto “Cadê você?”, apaixonadamente retidos pelo povo e tão bem expressados por Nelson Ned, Odair, Amado, Paulo Sérgio e tantos outros. Somos um país marcado pelo abandono. E nos prostramos estarrecidos por não encontrar o “outro” que possa nos livrar do estigma. Somos um país a gritar por “Cadê você?”. A procura pela resposta passa pela entronização de oportunistas, e aí o perigo ganha desastrosa gravidade.
—–x—–
No Brasil, com dezenas de milhões de pessoas desalentadas, muitas vezes restritas em seu lazer à televisão e à música, quando morre um artista popular, perde-se muito mais que sua presença. Perde-se um tanto de querer sincero, faz-se uma fenda de tristeza no imaginário popular.
Foi que se deu com a partida de Agnaldo Timóteo. Timóteo era um artista das ruas, das praças, das periferias e grotões, mas era antes artista. Cantou para os corações dos desalentados. Cantou também para a elite seduzida por sua autenticidade seminal. Sincero, brigão, lutou tenazmente por sua arte.
A última vez que o vi ao vivo foi num bar em Friburgo, às 2h da manhã. Tem tempo. No violão já não era mais o Major. Cantou e contou histórias. De lá saiu pra Cordeiro, onde cantaria às 3:30h. Era a sua vida. Um grande artista, que tocou como poucos o sentimento profundo do povo.
—–x—–
Não dá para deixar de ler a biografia do Nelson Ned escrita pelo André Barcinski: “Tudo Passará”.
Divindade na Venezuela, México e Colômbia, Nelson Ned esteve sempre entre os mais vendidos também no Brasil. Um amigo de infância, o Danilo, era primo do Nelson Ned. Eu voltava do colégio e corria para a banca de jornal do edifício Residência, na Avenida Rui Barbosa. Lá, aquele cara estranhamente pequeno soltava sua voz poderosa para quem quisesse ouvir. O Residência juntou numa quadra de tempo o Nelson Ned e o Geraldo Assobiador, aquele craque que eu sempre sonhei jogar ao lado do Pintinho e do Caju, compondo um irresistível meio campo, irreverente e talentoso. O Residência tinha mais: era o único acesso possível à piscina da casa que fora da viúva que deu nome ao Morro da Viúva. Vez por vez brincávamos lá.
Na banca, o Nelson Ned derramava simpatia e cantava com pulmões de triatleta. Inusitado e grandioso. Armava-se confiante da convicção de que tomaria o mundo. Chegou perto. Cantou para multidões nos vizinhos da América e estendeu sua influência aos latinos dos EUA. Depois fez a rota proverbial dos que se drogam, se agridem e se veem levados a encontrar refúgio para os exageros no discurso acolhedor da religião.
Manter-se por tanto tempo no topo da carreira, superando as dificuldades rochosas de uma sociedade impiedosa com os diferentes, não é pra qualquer um. Hoje, desconhecido ou subestimado por muitos, sua voz provavelmente ainda ressoa nas artérias das Américas.
Lembrei-me hoje daquelas tardes na banca de jornais da Rui Barbosa. E pensei: o cara foi foda, mas a vida é sórdida, quando não entendida em sua dramaticidade proverbial. Ele cantou e viveu a máxima de seu maior sucesso: “Mas tudo passa, tudo passará…”.

Fiquem à vontade, afinal, ninguém tem razão