Desconexas 08

Todo 26 de setembro marca o aniversário de lançamento de um dos mais importantes álbuns dos Beatles e da música de todos os tempos, o último álbum de estúdio dos gênios de Liverpool, Abbey Road.

Embora o álbum Let it be tenha sido lançado depois, foi gravado antes. Abbey Road não só imortalizou uma prosaica esquina de Londres: ofereceu ao mundo algumas das mais lindas obras-primas dos Beatles. Nele vê-se um George Harrison mais atuante e na plenitude de seu talento como compositor(Something, Here comes the sun); uma sonoridade múltipla, com forte timbre roqueiro, presente no imortal pout-pourri do Paul(Mean Mr Mustard, Polytheme Pan, a espetacular She Comes Trough the Bathroom Window, Golden Slumbers, Carry that Way e The End); um Lennon criativo e inovador(Come Together, I Want You). Enfim, um álbum deslumbrante,demolidor.

Quem viveu aqueles dias tem sempre muito o que comemorar. Em qualquer dia.

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Deveria ser um direito fundamental de qualquer ser humano ler e ouvir Leonard Cohen. E depois se recolher em silêncio contrito por pelo menos quinze dias como forma de aceitação humilde de suas limitações. Apenas então poderia sair pra vida, seja qual vida se escolha, embora duvide de que seja vida fútil, se leu e ouviu Leonard Cohen.

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Milícia não é só policial à paisana extorquindo cidadãos em comunidades desprotegidas. Milícia é um conceito de poder que consagra uma lei própria, negando a lei de todos, forjando um código odioso de opressão e morte. Negar a lei de todos pela imposição da lei de poucos. Quando se rasga a Constituição para a proteção do autocrata, exerce-se sem escrúpulos o conceito de poder da milícia.

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O Power Point e o Google produziram o maior dano ao estoque de neurônios do planeta desde os filmes do Dolph Lundgren. Se combinados, então, Google e Power Point são mais letais aos neurônios que a pior ameaça das metástases intelectuais, o coaching.

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Vírgulas são obstáculos à fluência do pensamento livre. Em excesso, tornam nossas ideias tão fragmentadas quanto palavras longas aos gagos.

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Em fase de negação de carboidrato, sento numa cafeteria para um expresso e na mesa ao lado uma senhorinha pede folheado de camarão. Não satisfeita, emenda com um capuccino ornado com alpes suíços de chantilly e uma mousse de Ovomaltine com Nutella.

Fui ao banheiro, onde discretamente chorei, e voltei humilhado ainda mais pela expressão de prazer impune da senhorinha.

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A mediocridade semelha grilhão de papel. Nos aprisiona simbolicamente, mas nos deixa confiantes em que é fácil nos libertarmos dela.

Justamente aí que se revela a eficácia da armadilha.

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Ativista que se respeite precisa ser chato. Muitas vezes, insuportável. Ativista simpático lembra policial bandido, juiz promotor, sindicalista pelego, assistente social homofóbico, presidente da Palmares racista. A qualidade do bom ativista é sua chatice, incomodar os contentes, defender quem, por opressão social ou medo, não pode se defender sozinho.

Com eles a História anda.

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O juiz de garantia serve para mitigar a absurda desproporcionalidade entre o aparato acusador do estado e a capacidade material de o cidadão se defender, quando atacado pelo estado. O estado acusador não tem a menor responsabilidade em ressarcir os prejuízos infligidos a quem acusa. Nem no campo material – graves; nem no campo da honra – irreversíveis. O estado poderoso, tentacular, dispõe de um aparato inesgotável de ferramentas e meios de coerção necessários para impor sua tese, ainda que errada.

O promotor que destroi a honra e o patrimônio material de acusados que depois provam sua inocência sai impune do excesso cometido como se nada tivesse a ver com o monumental estrago produzido. Vira a página e procura outro para acusar.

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Vento: o maior inimigo da mídia impressa.

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A opinião é o último refúgio da ignorância.

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Pra poder muito, um juiz não pode muita coisa. E quando, sendo juiz, ele faz muita coisa que não pode, ele põe em cheque todos aqueles que podem muito e se contêm, não fazendo o que não podem.

Quanto mais discricionário o poder, mais preso à liturgia deve permanecer quem o detém.

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Viajar pela CVC é feito comer em restaurante a quilo: você gasta menos, entra em fila, divide a mesa com quem não conhece, e no fim nem se lembra do que comeu.

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Nada explica a esperança do torcedor, ponte irracional para a ludicidade, um caminho de fuga da inevitável insanidade. O torcedor precisa menos ser feliz que crédulo. Desacreditar no que ameaça afligi-lo pela pior dor é sua religião. Ele simplesmente crê no melhor e caminha.

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Lembro até hoje do choque de que fui tomado ao receber a notícia da morte do Paulo César Nântua.

Conheci o Nântua no Sempreflu, o site ancestral que juntou tantas almas e bons corações tricolores. Lá fiz muitos amigos, Nântua foi um deles. Depois, há 15 anos, Nântua esteve comigo e mais mil tricolores na fundação da Fluturo, primeira instituição criada por uma torcida de clube após a promulgação do Estatuto do Torcedor. Há 15 anos a Fluturo já denunciava a falência do modelo associativo de gestão dos grandes clubes brasileiros, útero e berçário de grupos paroquiais que se eternizam no poder, padrão Flusócio. Cético, Nântua usava seu humor ácido e sua ironia mordaz para espetar o mandarinato tricolor, fossem quais fossem os mandarins.

Ao envelhecermos, temos diante da morte dois sentimentos falsamente paradoxais: medo e aceitação. Estou hoje mais aceitando que temendo. E a aceito, a exemplo dos mexicanos, ritualisticamente, como se sussurrasse à morte: venha quando quiser, amiga, estou à sua espera, e quando vier, me abrace com ternura e compreensão.

O Nântua era um sacerdote da simplicidade. No cantinho em que ele estiver por lá, pra lá que eu quero ir, para falarmos de Fluminense e da vida que teremos deixado. E beber cerveja e comer torresmo, predileções dele, se um e outro houver por lá.

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Até entendo – e aceito resignadamente – que depois de certa idade seja comum falar sozinho. Mas não é isso que me preocupa: o que me preocupa é que raramente concordo comigo.

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Na vida pública, o bom filho a casa entorna.

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Creia no inesperado. O esperado é a simples entronização da rotina, e a rotina, o alter ego preferencial do diabo.

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O melhor esconderijo da maldade é a bondade fácil.

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De nada lhe valerá o ressentimento se ele apenas lhe servir para um acerto de contas. Quem se desressente, se liberta, experimenta a melhor sensação de que o que vem pode ser saída, e não, ameaça.

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Só pode ser intencional.

Fazem os aeroportos tão insuportavelmente chatos só para que o voo seja um alívio.

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Fui pai jovem e pai velho. Vivi intensamente as duas experiências. Quando jovem, quis parecer maduro; quando maduro, entendi o jovem que pretendia o que não lhe estava ao alcance.

Os dois erram, mas se o jovem erra com espalhafato, o velho lhe é contra-alísio.

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O que todos nós queremos é alguém que perceba – por intuição ou cumplicidade, ou os dois – o que nos faz feliz e se empenhe por isso. Em contrapartida, reservamos o nosso melhor. E o nosso melhor vai puxando o melhor do outro feito um monjolo de águas claras e edificantes.

Entender o outro e aceitá-lo é o melhor que podemos fazer por alguém no nosso campo de afeto, ainda que esse alguém demore a entender o que é óbvio, e, por óbvio, distante e próximo, simultaneamente.

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Palestras motivacionais têm o efeito dos comprimidos efervescentes: só fazem gás enquanto dissolvem.

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A redução da natalidade no Brasil, tendência detectada pelo último Censo, trará em breve uma grande notícia para muitos pais: a diminuição do número de festas de aniversário de criança. Nem falo, no médio prazo, das vantagens da contenção da expansão do número de adolescentes.


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Comentários

Uma resposta para “Desconexas 08”.

  1. Amei as Desconexas! Como sempre sensacionais!!👏👏👏👏😍

    Curtido por 1 pessoa

Fiquem à vontade, afinal, ninguém tem razão

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