Dúvida, vestíbulo seguro, a chave do cofre. Se aberto pela vivência e sentidos, encorajo-me, sigo em frente. Farejo a sala, espio os quartos, fuço os corredores e deito inquieto à espera da recompensa.
Se me bater simultaneamente confiança e angústia, acertei.
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No tempo do Brasil opressor da sensibilidade, o mais chocante da carta com que o Flavio Migliacio se despediu da vida é que não havia desespero. Havia cansaço, desesperança, um brutal sentimento de abandono e impotência, uma dor surda de perceber, com a morte da empatia, a velhice como estorvo. De se sentir despertencendo a um país diariamente atacado em sua sensibilidade pelo deboche de um tosco.
Que merda que fizeram com o Brasil.
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No definitivo “Elogio da loucura”, Erasmo de Roterdã sustentou genialmente a tese de que só a loucura nos salva das intempéries do caráter humano. Ao defender que “Só os loucos têm o privilégio de dizer a verdade que não ofende”, Erasmo delirou instigantemente sobre a loucura como o ambiente em que se revelam as verdades que a sensatez esconde. Com a palavra, Erasmo: “Segundo a definição dos estoicos, a sabedoria consiste em ter a razão por guia; a loucura, pelo contrário, consiste em obedecer às paixões; mas para que a vida dos homens não seja triste e aborrecida Júpiter deu-lhe mais paixão que razão.”
O pensador e humanista holandês começou a rascunhar o que outros gigantes definiram como atributos da cretinice: “Rir de tudo é próprio de parvos, mas não rir de nada é de estúpido.”
Aos que levam a vida muito a sério, lembrem-se: quando jovens e rijos a nossa visão de vida é tão obtusa quanto uma tese do Gilson Machado.
E lembrando o conselho do Nelson aos jovens: “Envelheçam”.
Minha parte estou fazendo. Não resume tarefa fácil.
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John Lennon – que faria 85 anos em 2025 – legou, com ou sem Paul McCartney, obra imortal. Vocalizou o sentimento de gerações. Hoje, tempo em que os sensíveis são os inimigos preferenciais dos boçais que ganharam voz nas redes, seria considerado “um sinalizador de virtudes”; seus apelos por paz, “mimimi”. Vital para a minha compreensão do mundo. Guardo com a angústia de meus desencontros seus urros ao fim de “Mother”.
A notícia da sua morte foi aterradora pra mim. Até hoje guardo o sentimento de ter me sentido pessoalmente lesado por ela.
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Há certas horas em que a vida nos conduz a uma encruzilhada, a um impasse diante do qual é preciso tomar decisão existencial grave e urgente. A pulsação se altera, mergulhamos em aflição e ansiedade. Não cabe fraquejar, há que se decidir corajosamente: Cabernet ou Malbec?
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Música tem que ser boa, esta a condição.
As tristes me alegram, me invadem de uma melancolia prazerosa, de uma sublimação produtiva do que me angustia, me conduzem por compassos lentos para o meu mundo, um mundo não solar. As alegres me incluem desconfortavelmente no sentimento do todo, me lembram promessas de ser feliz que não hipotequei, me cobram uma alegria deslocada de mim.
Prefiro a noite, a névoa, o silêncio da luz.
E vou por aí, assim, ficando feliz ouvindo as músicas que a tanta gente entrista por lhes retirar bertoluccianamente do céu que os protege.
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Em “Sandra”, sua especialidade, Gil implode a masculinidade frágil com versos confessionais:
“Azul, porque azul é cor, e cor é feminina(fé, menina)
Eu sou tão inseguro porque o muro é muito alto
E pra dar o salto
Me amarro na torre no alto da montanha”.
É lá, no alto da montanha, onde está a mulher do homem sensato, a torre invergável de nossas fragilidades.
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É indescritível a felicidade de ficar no Rio nos feriadões. Desonerar-se do desespero dos engarrafamentos, dos balneários lotados de histeria e desconforto, da volta torturante sob os auspícios dos babacas que trafegam pelo acostamento, das perguntas cretinas sobre onde batemos ponto em nossa histeria compulsória. Do meu apartamento me protejo das piores insanidades, que nada têm a ver com as melhores loucuras.
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Dias nublados me inspiram, me confortam músicas tristes. Minha alegria não esfuzia, mas tristeza minha não aplaca nem corroi. Anfitrião contrito do tédio, visitante fugaz do exagero, hóspede cerimonioso de promessas higienizadas. Mais Kiekergaard que Paulo Coelho, mais Shopenhauer que Pondé e Cortella, mais carnal que Karnal.
Farinha amarga, pimenta braba, são mais meu prato que o estrogonofe da parcimônia.
Se a felicidade passear vadia na minha porta, ligo na hora pro 190 da minha cautela.
E assim vou.
Indo.
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Quando moleque, me aperfeiçoei numa arte simultaneamente tosca e sofisticada: o arroto. Arrumei com isso encrenca em casa e admiração nas ruas.
Ao fim das peladas, com sede saárica, bebi centenas de refrigerantes de graça só para fazer a felicidade de quem me patrocinava para me ver e ouvir desfiar um repertório gutural impensável. E assim ia bebendo minha Coca média no Seu Vítor, minha Coca família no Ivo, de Boca do Mato, e muitos outros refris cercado de amigos em êxtase tribal. E por aí ia. Como bem lembrou o amigo Toninho Lima, uma de minhas especialidades era a primeira estrofe do Hino Nacional. Era craque também em escalar o Fluminense e, a nata da nata, a para os humanos normais indizível “inconstitucionalissimamente”.
Tá certo, eu sei, arroto não é socialmente aceitável – eu mesmo desautorizo meus filhos a seguir a tradição -, mas no dialeto das ruas do meu tempo era símbolo de poder. E eu o exercia com certo orgulho.
Minha mãe, se soubesse, me repreenderia com o vigor e a ternura de sempre. Talvez meu pai sorrisse sardonicamente.
Foi-se o tempo, mas ainda hoje volta e meia sou instado por gente que não me vê há tempo de conta a repetir feito um T-Rex aqueles urros da adolescência.
Parei com isso. Não insistam.
Mas em casa…
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Este ano, meu pai faria 108 anos.
Orgulho-me muito do velho, aprendi com o tempo corrido a me dar bem com ele, jeitão baiano, a respeitar minha independência e me dando corda para que quebrasse a cara sem saber que o tinha à espreita. Deixou-me lições de caráter e cuidado com a formação intelectual. Era de uma autenticidade industrial, cobria-se da timidez que escondia um coração rasgado de querenças. Fez muitos amigos e deixou uma obra importante para a literatura brasileira, traduzida em mais de vinte países.
Quando dei por mim, aquela figura austera de pai se transformou em amigo de tertúlias de não caber em tempo curto. Ainda vejo nos espasmos de memória o bom e velho Red Label sobre a mesa de plástico orbitando a piscina de São Pedro da Aldeia, o balde de gelo reabastecido metodicamente pelo Vaval.
Saudade.
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Revigorante – um reencontro agendado com a esperança – ser acalmado pelas redes sociais da Mônica Salmaso. Mãos cruzadas sobre o peito, ela canta delicadamente delícias de nossa música e nos conduz a um estado de espírito leve feito paina de seda.
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Um certo dia que já não se conta no tempo, dirigindo uma empresa, fui provocado pelo meu RH, que queria porque queria convidar uma dessas figuras fáceis do embuste cultural que é a temática motivacional. Acabei cedendo, e o pior, forçado a constrangidamente abrir os trabalhos e ouvir da mesa o desfile infindável de obviedades burras e burrices óbvias. O palestrante motivacional adotou como tema o livro “O maior vendedor do mundo”, de um tal de Og Mandino.
Os minutos tornaram-se insuportáveis horas em que meu constrangimento era continuamente seviciado por golpes e mais golpes de cretinice.
No fim, quase me desculpei com os funcionários. A merda é que todos eles me deram parabéns.
Fui pra casa conflitado com o sentimento do mundo, com ele longe das mãos, e só me recompus pelo uísque que me trouxe de volta o meu mundo silencioso e desmotivacional.
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Fiquem à vontade, afinal, ninguém tem razão