O vaticínio do dermatologista soou como anunciação de inferno de sub-literatura, as chagas irrompendo por todos os desvãos da alma, estigmas de uma crucificação pagã:
– Senhor Beto, é muito grave o que tenho a lhe dizer. Só o faço por força de minhas obrigações contraídas por juramento profissional, em reverência à memória e à lição de Hipócrates. Senhor Beto, sem meias palavras: o senhor tem falacrose.
Andava pelos vinte e poucos anos à época dessa profanação de minha juventude engatinhada, realidade a que me rendi indefeso dois minutos depois, tão logo substituí espanto por curiosidade.
Procurara o doutor Calisto por conta de indicação de um amigo que estava em primeirança de passo rumo ao patíbulo da calvície. Não ainda a ponto de insupor um milagre científico ou místico que lhe abortasse o sofrimento pela via de uma cura improvável. Papo curto:
– O cara é bom. Se alguém pode lhe fazer algo por essa tragédia de encomenda certa, esse alguém é o doutor Calisto.
O amigo solidário cuidou de me destristar, embora sua empolgação desencontrasse correspondência no avançado das terras despovoadas de sua fronte. Sou homem de fé, segui o caminho da redenção, que dava num acanhado consultório em um velho edifício no Centro do Rio. O acanhamento das instalações trouxe-me por instantes um incômodo ceticismo. Pensei cá comigo sobre como um cara que faria brotar cabelo em bola de sinuca ainda não estivesse instalado em uma clínica no Leblon. Na cobertura, apenas acessível aos mortais desde que antecedida pelo rito de pré-consultas com um batalhão de auxiliares artificialmente educados. O medo é a mãe da fé, ainda que a fé seja madrasta, e de imediato garrei fora a desesperança pela crença irrestrita nos dotes do doutor Calisto. Mas seu diagnóstico peremptório me trouxe num átimo ao chão cruento de minha realidade. Tinha mesmo falacrose, fosse isso a desgraça que fosse.
– Doutor Calisto, cumequié? Que diabo é isso, tuberculose na cabeça? – consegui enfim passar do espanto à palavra.
– É mais grave, senhor Beto, é mais grave. Tuberculose tem remédio, a medicina já não mais recebe os tísicos como inquilinos do purgatório. Falacrose não tem cura. Mente quem lhe afirmar o contrário.
Aos 26 anos, a ideia da morte soa tão rarefeita quanto paina de cerrado seco. Cogitar dela pela ameaça de um inimigo dissimulado soava-me ainda mais estranho. Corria risco de morte? Doutor Calisto arrematou:
– Falacrose, senhor Beto, nada mais é que alopecia.
Aí danou tudo, parecia mesmo grave, por ser grave de sempre o ininteligível.
– Alopecia? Continuo igualzinho, doutor Calisto, o senhor trançou doze por dúzia, o que dá no mesmo que dez por dezena. Falacrose, alopecia, que diabo é isso, por paixão de Cristo? – pesquei no dotô Calisto a contração facial que antecede notícia ingrata:
– Senhor Beto – e aí o que era grave remedou tragédia – Senhor Beto, não há mais o que fazer no plano dos homens: o senhor vai ficar, desculpe, careca. Consigo pelo meu método reverter alguns efeitos desmatadores da calvície, mas há casos em que nada há a fazer, em que todo esforço resulta inócuo. Aí é aceitar os desígnios de Deus ou a praga do cramulhão. Não lhe sobrará vida tranquila enquanto o senhor por aqui neste chão de dor e consumição se mantiver respirando.
Eu, que cerrei tropa de centena pra fugir de instigança de doença do capeta, corri pra falésia mais próxima de meu morrer mais íntimo. Pulei de morro de pra mais de grosa de metros e me estabaquei no chão de meu calvário. Puta quiu pariu! Careca é penitência de desinfeliz, ainda que o desinfeliz se apeteça com arremedo de vida, vida por coisa de meia. Recolhi das estrias da minha mais insentida resiliência forças para a rendição troiana:
– Doutor Calisto, faço qualquer condição de coisa, não importa a aprontação do sacrifício. Como bosta de jegue, encharco o aluvião da testa de mijo de tatu, espalho merda de passarim maldito, de urubu trevoso, mas, por comiseração cristã, me aponte luz de remediação.
Doutor Calisto, por conta de tempo passado em consulta de fila alentada, foi direto aos fins:
– Eu poderia ludibriar sua fé pela esperança fácil, mas não surrei jaleco pra fomentar crença inútil. O senhor está definitivamente condenado a ser uma espécie de meio homem, um reles objeto de piada, um alvo fácil para a frivolidade humana – e em veredicto de sarjeta:
– Fudeu, senhor Beto, fudeu.
De lá praqui, ralei com e sem garbo o chão de dejetos da humilhação inescondível. Carrego minha dor com o tratar de fingir que num pesa o que tem peso de uma ponte de documentário. Procurei consolo no mundo imoral dos bichos, mas num tratei de encontrar quietude. Galo polaco, macaco murcho, gambá despelado, passarim liso, não tem jeito: careca tem que bordejar o rio da sedução de oportunidade. Se bobear, tem que torcer por madrugada comprida, expediente de jogador famoso. Luta árdua, batalha ingrata. Jogo de jogar com três expulsos.
Fosse mais novo, depois de o Supremo faz um tempo desentalar a tal de célula-tronco, me quedaria alerta a toda forma de experiência e timidamente confiante. De contra-remédio, pra tempo e ansiedade não jogar no lixo, passei a focinhar os ricos alopécicos. Brotasse pé de cabelo em deputado que parece de ponta-cabeça pela barba aprumada por testa que não acaba; florescesse jardim de pelo em celebridade que largou boné; nascesse toiça de felpa no Atacama dos telhados dos proscritos vulgares; haveria esperança em conseguir dormir sonos que não se prestariam a antessalas da humilhação. Mas basta um Jeff Bezos, um príncipe Willams, para toda esperança ser sugada por ralo guloso.
Já que bilionário não me tornei, sigo resignado, vida vivida de muito, vou fazendo a caridade que me cabe para livrar minha próxima encarnação do carma dos que passam a existência servindo a repertório de piadinhas e a compor cardápio de exclusão de quem a gente pode gostar. Não tem sido fácil. Obra onerosa, o esforço intelectual dos alopécicos para compensar a desvantagem competitiva faz da saga de Homero um manual idiota de autoajuda.
Falar nisso, paro por aqui. Preciso cuidar de fazer uns PIXs para ongs que abraçam refugiados mundo afora e retomar a leitura dos clássicos, fazer preventivamente o bem e voltar a afiar o instinto.
Quem sabe na próxima?

Fiquem à vontade, afinal, ninguém tem razão