Bobo de Caído

Costeando o bambuzal do ocaso, Tião Climério, patriarca de prole comprida, dono de sabedoria rude, respeitado por toda gente da comarca de Sé da Aparecida, fez questão de antes de morrer deixar uma carta em feitio de manifesto. Segundo ele: “Pra quando largar do chão, fela da puta nenhum terçar mentira a respeito de eu”. Quando enfim do chão largou, Gerão, seu filho de penúltimo, entregou a carta para Tonhão da Bica, vereador de fala pomposa. Tonhão leu a carta no plenário da Casa do Povo de Sé da Aparecida, não sem antes florear hora e muito de palavrório.

– Dito o que tinha a dizer por conta de reconhecer os prendados de caráter de um orgulho desta municipalidade, fazendo cumprir vontade do finado, passo à leitura escorrida da carta-testamento de Tião Climério : 

“Pra nunca de ser bobo de caído, sou tomador de sonhos. Aprumo meu vaguear pela estrada beira, por onde num passa gente nem desgente. E tomo rumo pro ter medo de esperteza e escorreção de sabedoria, cum frase enguiçada, quié pra mode de nenhum pagão botá desconfiança pro dono do ensinar. Fico terçando olho com o nada que se esconde pra lá de onde minha visagem pega. E vou carroçando sem cavalo, motoristando sem gasolina, avionando sem asa, só pregando solado no chão e arrupiando poeira quando o caminho cansa.

Vez por vez adivinho o de ontem e me lembra o dia depois. E sobio ventania pro abrir traçado de pisá. Se me estradeia rastro de onça, ando por desviar pro que num tá medrado, piçarra nova, cílio de riacho. Água cristada é peixe por debaixo, e pedreio o bicho cum pedra qui tiver por lado e asso no chegadim da água, espetando e vorteando, pro cozer direito.

Pra alma penada que se achega, aio e cruz de Deus. E boa prosa cum demo, se o demo se der ao trato de conversar pro dissimular intenção. Pra coceira de ser o tal no mundo tudo, cum variação de idéia de cumprá por pagar de pouquim, me lembra que vida é coisa de instante, destino espreitando sonso o passar de cada pedacim de minuto.

Se o vento encana e apronta aquele soprim traiçoeiro feito cobra sonseando modorra, corro pro me guardar por trás de tronco ou parede e meia. De geladeira tomo prudência, a abrir a tranca de lentidão, pra mode de me precaver contra bafo gelado, cumpanhado, por razão de certeza, de febrança e calafrio. Vou envelhando por obra do passar de dia. Se dia cabá de passar, vou bater na porta de Deus cum a alma tranquilinha.

Por recomendação de juízo, só num refresco fela da puta que engoda por aprontar parecer o qui num é. Desbatizado que desrespeita dinheiro e compra por demais comprar. Safado ou safada qui mói coração tomado de paixão. Hômi frouxo que abusa de muié. Donança de verdade de quem remeda de idéia e crença. Imberbe magistrando. Mandança de prender na mão de cheirando a mijo. Descarado que fala por altear a voz pro fim de ganhar razão. Sem-vergonha garrado de florear muié dos outros. Safado que toma o lado de quem é dono das coisas.

Tem uma sansa de mais uns três, mas é pequeneza qui num vale lasca de canela.

Que Deus por bondade me mostre a porta. Se num quisé por raça do que por aqui aprontei, que o diabo num me abrace qui é tranca certa.”

Dico da Farmácia, edil recorrente, emocionado pelo testamento de sabedoria de Tião Climério, se levantou em brado: 

– Que esta Casa do Povo imediatamente outorgue a Tião Climério a comenda póstuma do Orgulho Aparecidense. Não garrei de dar conta de metade do que o Tião deixou no escrito, mas é de uma boniteza e justeza que carece de comenda.

A Casa aplaudiu de pé e a moção foi aprovada por unanimidade. Sé da Aparecida juntou aos livros das homenagens um novo comendador.

Com o desejo final atendido e o corpo assentado a sete palmos pro fundo do chão do campo santo, Tião partiu pro encontro de Deus ou da tranca com o diabo. E Sé de Aparecida voltou aos seus dias de remanso e conversório. 


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Comentários

Uma resposta para “Bobo de Caído”.

  1. Que texto maravilhoso, Beto!! Hahahaha!! Sensacional!!👏👏👏

    Curtido por 1 pessoa

Fiquem à vontade, afinal, ninguém tem razão

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