Desconexas 06 – Filmes e afins

Produzido pela Oprah Winfrey para o Netflix, “Olhos que Condenam” reverbera um grito angustiante contra o absurdo poder discricionário do estado quando decide condenar alguém, ainda que inocente

‪Cinco vidas adolescentes dizimadas pela manipulação sórdida dos fatos em nome de uma certeza vazia. Como pano de fundo, o racismo odioso. 

‪Um libelo. ‬

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Plea Bargain.

Sob esse anglicismo pernóstico, revela-se a intenção sub-reptícia dos togados e doutores em “resolver” pela oferta de penas menores o que o sistema judicial não consegue resolver pela inteligência e eficiência: o alto índice de irresolutibilidade dos processos criminais.

Não precisa ser especialista – não sou, sou curioso. Basta assistir a meia-dúzia de documentários premiados no Netflix para se ter ideia do estrago que a Plea Bargain fez ao sistema judicial americano. Sugiro “13ª Emenda”, “Making a Murderer”, “Olhos que Condenam”, “The Confession Tapes”.

Milhares de inocentes pressionados a admitir a culpa por total incapacidade de suas defesas responderem ao poder avassalador da máquina acusatória do estado e o rolo compressor da corrupção das penitenciárias privadas, sequiosas por novos detentos.

Com o Plea Bargain, o sistema maquia sadicamente suas estatísticas de solução de crimes e lota os presídios de minorias raciais.

Não é por outro motivo que os EUA têm hoje a maior população carcerária do mundo, sendo que 70% dos deles são pretos, num país em que a participação populacional dos pretos é de 15%.

E isso nem de longe diminuiu – aliás, contribuiu para elevar – os brutais índices de criminalidade na “terra dos livres e mar dos bravos”.

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A cena mais devastadoramente triste do cinema brasileiro foi a da solidão excruciante daquele senhor cantando “My Way” no “Edifício Master”, do Eduardo Coutinho.

Quem consegue flagrar a dor devastadora da solidão como o Eduardo Coutinho intentou naquela cena, sabe tudo da vida de todos nós, de nossos vãos e desvãos. Sabe como ninguém do quanto tudo se torna pequeno diante de nossa impotência em reverter o destino quando o destino nos desarruma em nossa capacidade de domá-lo. Quando a tragédia se cotidianiza pela falta de elos.

Vale mais que um zilhão de palestras motivacionais.

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“Dois Papas”.

Gostei do filme. Fez-me bem assistir-lhe num domingo à noite, quando sou consumido por angústia abrasiva.

O filme reúne magníficas atuações, linda fotografia e a complexidade de tornar ficcional diálogos entre duas personagens reais e entranhadas de peso simbólico.

Os diálogos se desenvolvem sem obedecer a uma dinâmica padrão. São muitas vezes ágeis; outras, cadenciados. Há ironia fina e um bem retratado choque de culturas. Afinal, latinos e germânicos têm tempos próprios de expressão, sensos de humor particulares e distinta compreensão emocional da verdade.

Foi bom também vê-lo tão próximo do Natal, quando somos instados a revisitar as lições essenciais do cristianismo. E aí, com a espetacular sequência da confissão mútua entre os papas, o filme ganha um sentido humanitário excepcional pelo diálogo-síntese de sua melhor intenção: a importância do perdão para o cristão, o poder arrebatador do perdão.

São os dois açoitados por suas memórias comprometedoras: a simpatia de Ratzinger pelo nazismo e seu acobertamento dos escândalos de pedofilia na Igreja, e o envolvimento de Bergoglio com a ditadura argentina. Ao manter a contrição de Bento XVI sob o véu do silêncio, o filme oferece ao Papa Francisco muito mais chances de revelar arrependimento, reiterado pelas intermináveis remissões às hesitações de Bergoglio com os jesuítas argentinos e suas relações perigosas com o assassino Almirante Massera.

Mais que um choque entre as visões conservadora e reformista da Igreja, entre as diferenças gritantes nas visões do papel do catolicismo num mundo com novos costumes e inconformado com as agressões ao planeta, com a intolerância e com a diferença social oceânica entre os homens, o filme esculpe um libelo à força vital do perdão.

Ao perdoarmos, nos impomos sobre quem perdoamos, reduzimos sua ofensa ao espectro mínimo e discricionário de nossa compreensão, tornamo-nos deuses de nossas crenças, donos do poder da libertação.

Atormentados por sua incapacidade de perdoar, os que não perdoam se tornam servos de seu ressentimento, espíritos ressecados pelo ódio, pessoas incapazes de reproduzir o mais lindo ensinamento da fé cristã. Tenho deles piedade, mas os perdoo.

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Além de um filme absurdamente tocante em sua estranheza, inquietante em seu esquadrinhamento do mundo ininvestigável dos adolescentes, “Ensina-me a viver” traz um Cat Stevens em sua intensidade plena. Seu violão rascante serve de cama incômoda e pertinente para letras que já não se fazem mais, com estupefações que hoje provocariam repulsa onde deveria caber reflexão. Poucos são os que se contentam com o avesso do que a muitos conforta.

Em “Ensina-me a viver” tudo se resume a uma perturbadora epifania. O carro do adolescente Harold é um rabecão e a velha Maude vive num trailer. A morte em alegoria e a morte em inaceitação libertária.

O adolescente a deseja e a velha a submete sarcasticamente. Ao desconsiderar a morte como uma imposição do tempo, a velha desperta no adolescente uma pulsão de emergir de seu precoce e deslocado desespero. O poente iluminando o nascente com a tepidez de cores furtivas, vestíbulos da noite que antecede o irromper de luzes cegantes.

O que não é a morte senão um paradoxo desafiador de clichês?

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O mais instigante de O Método Kominsky não é o texto primoroso e a incrível sintonia entre dois velhos atores. A série nos provoca por nos fazer lembrar, ao envelhecermos, de um paradoxo imperativo: idealizamos ser Sandy quando nos tornamos cada vez mais Norman.

Na velhice, o jovem que insiste em morar renitentemente em nós cede cada vez mais passagem ao velho que se instala pela imposição de normas sociais e pela inexorável ação degenerativa do tempo.

Envelhecer é navegar, lembrando Rosa, pela terceira margem do rio, aquela que se esconde entre Sandy e Norman, aprender a aceitar com humildade, mas sem autopiedade, a beleza dramática da solidão, tornarmo-nos amigos radicais de nós mesmos.

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Última temporada de Better Call Saul traz a experiência extasiante de ver uma obra-prima se desdobrar frame a frame. Cada objeto ou plano se revela em nova forma ou dimensão, capturando significados impensáveis.

A exaustão do código moral num plano hiperbolicamente rodriguiano. 

A beleza bruta e descarnada.

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A série Os Últimos Czares da Netflix tinha tudo para ser fodástica. Produção esmerada, tema estimulante.

Li, como muitos leram, sobre o os fatos que determinaram o fim dos 300 anos da dinastia Romanov, o mosto de insensatez que fez do czar do maior império do planeta sucumbir a fatos ridiculamente controláveis. A condução patética dos desdobramentos políticos da influência do bufão Rasputin nas decisões do império; a submissão ao farsante pela insegurança trazida pelo filho hemofílico em função do significado religioso sucessional dos czares; a soberba dos que pensavam manter sob controle a estridente indignação popular diante da miséria e opressão. Nada jamais justificaria o encadeamento dos erros banais cometido por Nicolau.

O modelo é interessante: mesclar a narrativa ficcional com depoimentos de cientistas políticos. Podia ser melhor, mas a ficção engoliu a História.

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After Life, no Netflix. Produzido pelo Rick Gervais, o cara do The Office inglês. Três temporadas com seis episódios de vinte e poucos minutos. O que poderia chocar no trato desabrido da busca de razões para não se suicidar em alguém que passou por uma perda devastadora se revela, pela diluição da tensão, palatável. Texto cortante, trilha no ponto, personagens meticulosamente construídos, uma viagem delicada e divertida pela depressão, sem jamais subestimá-la. Até o que parece clichê se encaixa confortável.


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