Vale Tudo

Vencida uma batalha de Stalingrado com o plano de saúde, com direito a noites insones e ansiedade efervescente, farei em dois dias delicada cirurgia cardíaca: implante de válvula aórtica. Uma técnica amplamente dominada, mas mexe com o coração, e se mexe com o bobo, cuidado há que se ter, e aos desígnios de Deus ou do cosmos, temer. Dias de choro fácil, de repensar o universo tempestuoso e lúdico na relação com os filhos e filhas, em que cada palmo de amor sufocante se faz acompanhar de culpa indomável. De amores anjos e inclementes, do que negligenciamos no se dar aos pais e compreendê-los como cavalos de erros que nos esperam para um dia serem nossos. De lembrar dos momentos únicos em que o Fluminense serviu de cama para vivências extáticas. De sofrer por ausências vivas e presenças mortas. De evocar quem me ama – filhos, companheira, irmã, amigos – e sublimar quem do meu amor não guardou proveito. 

Faz tempo que, num chequim involuntário, aceno lenços brancos de adeus para a idade viçosa, vendo-a cada vez mais como um barco espetando o horizonte. Encontro-me credenciado para reivindicar a liderança da fila no balcão da semifinal da vida, de onde, se a cirurgia não me aprontar, pretendo me despedir lá pelos noventa e tantos. Desde que sem fralda, mijando pra frente e poupado de cretinos. Se essa história de célula-tronco não for agá, vou ficando por aqui, neste agreste de Deus, ultrapassando o centenário serelepe feito um Manfrini na chuva. Parece paradoxal, se espero viver por tempo tanto, este tom de balanço, a contabilizar, pela via das partidas dobradas, ativos e passivos da minha viagem humana. Não é. Tem a ampulheta parruda embaixo e a cirurgia. Sabem como é. Não?

Quando jovens, insistimos em desconsiderar o passado pela certeza de que ele nada ensina, de que o passado não é primordial para o devir, de que o futuro a gente faz, a gente dá um couro nele. Agora não, com a idade no último estágio da escalada e a tal da cirurgia, agora se faz hora de encontros frequentes com a minha consciência, com o propósito de melhorar o que não foi melhorado em mais de meio século. Tarefa ingrata, velhices de velho.

Sobrevivendo ao hospital, como espero, pretendo no ocaso me dedicar cultualmente à superação das aversões menores e das birras rituais de classe que tanto me impuseram sacrifício e renúncia. Começarei pelo jiló. Seguirei pelo maxixe, sarapatel, frango ao molho pardo e chegarei triunfalmente ao bife de fígado, depois de passar em glória pela rabada. Até mesmo de música eletrônica enxertarei minhas velhas playlists, daqui em diante abertas a toda forma de baticum. Rípi-rópi já ouço há tempos, gosto muito. Me agradam os que cutucam nosso código cínico de valores ditados pelos poderosos que não costumam deixar brechas para que os sonhos deixem de sê-los pela via de se fazerem reais.

Inquilino da classe média, precisarei entender que me encontro mais próximo dos que menos têm do que dos que têm mais. Deixarei de lado as frivolidades que me custam caro e me enredam em formigueiro de juros escorchantes e noites indormidas. Respirar fundo e entrar de cabeça, sem pruridos, nesse mundão dos estratos de baixo. Vai me trazer menos aborrecimentos e frustrações. Beber cerveja da hora, me refestelar do churrasco da carne possível, abdicar da ambição de salas VIP lotadas de falsas pessoas importantes, não ter o melhor carro ou tênis, simplesmente tentar ser feliz. Prometo deixar a obsessão pela riqueza com os pastores numismáticos, com os coachs e com os barões do caixa 2 da informalidade e corrupção criminosas. No plano da vida que viverei os dias, lerei os bons escritores, brasileiros ou não. Reassistirei aos bons filmes que poliram minha alma com a melhor cera. Ouvirei música africana – mas nada de contrição pelo mergulho antropológico em teses que rejuntam continentes afastados pela ação de cataclismas. Ouvirei porque é boa de muita conta, sofisticada e intensa. Ao lado de música africana, vou continuar com meu brega seminal de sempre. Nada de brega-Armani. Gosto do brega das casas que incandescem desejos e luzes vermelhas, brega de esperanças melancólicas, de dentes cariados e vestidos de pano barato. Odair, Paulo Sérgio, Amado, Waldick, Danito, Ned, o brega tão bem retratado por Paulo César de Araújo no notável “Eu não sou cachorro, não”, a trilha de um país a gritar dramaticamente “Cadê Você?”. Continuarei ouvindo o bom e velho roquenrol, daqueles, claro, com guitarra enguiçada. Beatles, Dylan, Simon e Prince. Caetano, Chico, Itamar, Melodia, Tim, Milton. No contraponto, duas sessões de Rádio MEC por semana. O ônibus que amei na infância e dele me afastei pela cartilha de bons costumes da paraburguesia brasileira, aceitarei, se preciso, voltar a nele andar, a enfrentar roletas apertadas e motoristas rudes – ajeita os bonecos! Com garbo, ainda que inseguro. Optarei por van quando for preciso, sem dar a menor bola por não portar o melhor celular. Recusarei visceralmente colecionar carnês alentados pela sensação cretina de vitória que o carro zero a tantos traz. Se necessário, aceitarei resignado a bebida possível, o queijo viável, a castanha com pontinhas pretas, o arroz grudento, o feijão aguado, o vazamento de óleo do cárter, propaganda em streaming, goteira em cima da cama, granola descrocante, pedágio escorchante, azeite de soja, mecânico traíra, despachante esperto, o cara que senta na minha poltrona no avião ou ônibus e me pergunta se eu me incomodo com sentar em outra, perguntas idiotas e respostas idem. De reuniões de colégio, disso já me livrei. Chega desse ranço de se aborrecer com frivolidades. Aceitarei a inconveniência como parte do enredo patético a que nos entregamos com mais ou menos euforia ao deixarmos a segurança quentinha do útero materno.

Para sexta-feira às 16h, peço aos de Deus uma oração. Aos da metafísica, um bom pensamento. Saindo do hospital sem que o destino me apronte travessura, por testemunho da verdade, confesso que farei a essa generosidade senil cinco exceções inconciliáveis com o fato de estar simultaneamente vivo e descontrariado: vagabundo que trafega pelo acostamento, fascista, sertanejo universitário, cerveja Glacial e, perdoem os queridos amigos do outro lado da força, o Flamengo.

O resto vale.


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Comentários

2 respostas para “Vale Tudo”.

  1. Avatar de friedfortunately6cba314719
    friedfortunately6cba314719

    as exceções são a regra em qualquer situação! 😅
    pedirei à mamãe, que tem mais intimidade como os santos, que acenda uma vela às 16h de amanhã. vc perceberá!
    celebraremos em breve em Araras.

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  2. Avatar de Virgínia Chamusca
    Virgínia Chamusca

    Seu danado! Até nas horas difíceis você me faz rir, gostar e admirar você. Às 16:00, vela acesa e Araras, por quê não? Beijo grande, vai dar tudo certo! Estaremos por aqui sem muita humilhação por, no mínimo, uns 20 anos.

    Curtido por 1 pessoa

Fiquem à vontade, afinal, ninguém tem razão

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