Quem Eu Não Quero Ser

“Vou mostrando como sou e vou sendo como posso, jogando meu corpo no mundo, andando por todos os cantos”. 

Galvão, dos Novos Baianos, em “O Mistério do Planeta”.

A gente vai cumprindo a vida nem se dando conta de que o chegado vai empurrando o dia de hoje pro ontem, e quando se dá conta, é conta puída. Ainda que as lembranças do que fizemos ou desfizemos nos conforte por um flash de consciência, há sempre ao lado alguém que nos faz crer em que nossa vida tenha sido uma aventura cretina. Alguns pelo talento ou saber acumulado, esparramado em obra alentada ou plateia de graúdo. Outros, pela via da realização medida pela espessura da conta bancária. Gente que esparge felicidade novorriquista a bordo de carros que nunca teremos, frequentando restaurantes em que nunca comeremos, ou viajando a lugares a que nunca chegaremos. Dos primeiros, vez por meia a gente estabula uma comichão de invídia, trancando a maldita em um escaninho calhorda de nossa porção piegas. Muita vez pensamos simplesmente sê-los. Substituir pela vida deles nossa vidazinha medíocre, imaginando-nos vicejar por aí a galope de glamour e cheiros. Já os outros, os de dinheiro de penca por qualquer itinerário, que invadem nossos dias pelo crime consentido ou pela falação das redes sociais onde exibem sua performance mundana, deles se impõe distância higiênica. Mais: em legítima defesa, reconhecê-los cretinos, ainda que paguemos com a pecha da inveja, que aos incautos parece invariavelmente mais apropriada.

No tocar nossa vida vadia, vamos nos acostumando conosco. Na impossibilidade de sendo nós ser outro, especulando o que seríamos se não fizéssemos essa ou aquela bobagem, a gente começa a gostar desse nós. Passamos a nos avaliar com parcimônia, negligenciando uma ou outra desvirtude de caráter, acúmulos adiposos, vazios alopécicos e até mesmo preguiça intelectual. Vamos nos confortando com ser o que somos. E assim a gente vai gostando da gente. Passei a vida perguntando a mim mesmo se gostaria de ser alguém que admirasse, mas bastava um passeio imaginário pela vida imaginária deles e sempre voltava pra mim, sossegado em mim mesmo tal encaixe de lego. De que me valeria encarnar Jorge Luis Borges, Bioy Casares, Fitzgerald, Einstein, Machado, João Cabral, Mozart, Juan Rulfo, Mick Jagger, Paul McCartney, Pelé, Proust, Gandhi, Hemingway, Joyce, Edmund Wilson, Niestzche, se me veria privado de tomar um chopp na Cobal de Botafogo com meu amigo Edegard, de um papo gostoso sobre a vida e as coisas da vida com meu irmão Carlos Augusto ou com companheiros de uma existência, de ter passado a infância e adolescência jogando pelada no Aterro ou simplesmente convivendo com a turma boa do São Vicente e da Rui Barbosa? 

Prefiro especular sobre quem sempre desejei não ser. E não vale não querer ser um proprietário de vida bostejada. Falo dos que não desejei ser sendo eles modelos de sucesso na atividade que escolheram para encher nossos sacos. A muitos pode soar estranho eu não querer ser alguém montado em ouro e prestígio, mas a esses eu respondo que não há ouro no mundo que me pague a delícia de repelir um exitoso cretino arquetípico. Ou um bilionário nocivo das big techs, que usa sua fortuna maior que o PIB de duas centenas de países para disseminar teses nazistas. Indesejo ser o Luciano Huck e sua vocação de sempre escolher a companhia errada, enquanto nos amofina com seu bordão idiota “loucura, loucura, loucura”; o fanfarrão do Galvão Bueno, com sua alegria agressiva, a frívola intimidade com os famosos e o entusiasmo com que defende quem tunga os pobres pela promessa vã das apostas; o Demétrio Magnoli, a opinar furioso e derramante sobre o óbvio de seus ressentimentos; qualquer um desses influencers montados em milhões de reais e em cretinos influenciáveis. Já indesejei ser o Gugu, nascido do cruzamento de um tubo de imagem com um controle remoto; indesejo com todas as forças ser uma celebridade do jornalismo a serviço de causas porcas, como muitos da Jovem Pan. Nem Dado Dollabela, Jair Renan, Gilson Machado ou Nikolas Ferreira, quatro dos cérebros menos usados do planeta. Nem mesmo quis ser o outrora bonitão e comedor internacional Mário Garnero, filho, criado sob o tacão de ter precisado almoçar aos domingos com o Mário Garnero, pai. 

Há outros, como o Roberto Justus; Karnal, Pondé e Cortella, estelares de nossa Escola Coachiana-Filosófica de Nova Franquifúrti; Júnior Dursky, Waldir Beira Júnior ou o histrião burlesco da Havan. Também não quero ser, rico ou não, os boçais que trafegam pelo acostamento, que furam fila, que tratam mal garçom, que humilham empregados, que falam aos berros, que avançam sinais, os racistas e misóginos. No mais profundo grotão de minha alma castigada pelas intempéries de muitas de minhas opções, o que eu não quero mesmo é ser uma flexão de caráter que guarde a insensibilidade dos que não mostram respeito pelo direito do próximo e empatia pela dor dilacerante de seus iguais.

Enquanto por aqui, vou sendo eu. No que conta e no que não conta.

Segue o jogo.


Descubra mais sobre Ninguém Tem Razão

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.


Comentários

2 respostas para “Quem Eu Não Quero Ser”.

  1. Que texto fabuloso!! Que bom que vc é vc!👏👏👏😍

    Curtido por 1 pessoa

Fiquem à vontade, afinal, ninguém tem razão

Descubra mais sobre Ninguém Tem Razão

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue lendo