Faz légua de tempo, cheguei à soleira de casa após três dias de desfrute telúrico em Cavalcante, Goiás. Fui pro nada de fazer, jeito certo de aprender lugar. Cavalcante era à época um enclave intocado de cerrado no âmago do Brasil Central, a uma braça da Bahia e do Tocantins. Mais: Cavalcante não se deita ser o que é pelo que simplesmente é. Hospeda a maior população quilombola do Brasil – o povo Kalunga; é reserva natural do planeta; chão dos mais antigos da Terra, assentado há um bilhão e seiscentos milhões de anos; e a maior extensão contínua de cerrado do mundo, o útero das águas. Resistiu enquanto pôde à fúria inaplacável da expansão territorial da soja e boi, forjando por lá um povo comprometido com um amor que não mais se ama, o amor pelo chão que nos hospeda e nos cria. Ou se ama dissimulado, véspera do grito redentor. Chegar por lá tinha o condão de nos inspirar aragem de acerto de conta por feitio de contraponto a léguas de desolação niilista que encontramos pela estrada. Por estes dias, para tristeza e pavor, o niilismo no cerrado se expande incitado por um apetite insaciável dos donos das terras.
Tão logo se vê pelo retrovisor os pontinhos de casa esparramados pelas escarpas que abarcam Alto Paraíso, outra jóia da coroa cerratense, o cerrado engrossa em aquarela de verde plural, num adensamento impensável à ignorância nutrida pelo senso comum dos litorâneos. O conceito errático de cerrado que nossos livros didáticos nos pespegaram por décadas goela adentro é demolido por conta de cada pedaço de chão rodado. Nada mirrado, árido ou pobre. Pelo través, é exuberante, espetáculo a cada instante renovado pela irrupção contínua do inusitado, do arsenal de recursos que o cerrado lança mão para se manter vivo num regime alternado de extensas secas e chuvas abundantes. Na procura de água na estação seca, suas árvores possuem raízes em dobro de suas copas, como se árvores de cabeça pra baixo fossem. A vegetação do cerrado não raro se incendeia por combustão espontânea, num processo natural, se recompondo com incrível vigor e rapidez, como se tivesse pressa para não deixar de ser o que é. Bem diferente das queimadas criminosas que precedem o plantio de soja ou pasto de gado. Um terço da biodiversidade brasileira deitada sobre minas de ouro e água. Muita água. Riachos, lava-pés, córregos, rios grossos, fontes termais, muita água. Três ou quatro léguas antes de Cavalcante, vê-se à direita da estrada o ponto culminante de Goiás, cumeeira de metade das águas não andinas que se espalham em varizes pelo Brasil.
Abraçada generosamente pela monumentalidade esparramada e extasiante da Chapada dos Veadeiros, Cavalcante deita-se entre bordas desenhadas pelos rios Tocantins e Paranã. Seu chão pedregoso guarda riquezas que aguam a boca dos que fustigam impiedosamente os desvãos insondáveis da pele vincada de um planeta a serviço da cumulação. E guarda também mistérios que guiam a fé dos que creem num arranjo coletivo mais justo em nossa curta viagem por este grão de universo.
A história dos kalungas é de contação particular.
Martirizados pela violência estúpida da escravidão, aos negros africanos, usados como força motriz na exploração das minas do Brasil Central no século18, restava o caminho único da fuga desesperada. Com os kalungas foi assim por não caber ser diferente. Doía-lhes uma dor além da dor física. Doía-lhes a dor das dores: o abandono imposto de sua língua, costumes, de sua cultura. Amocambados no novelo espesso da mata chapadense, os kalungas mantiveram-se indescobertos por duzentos anos, dispersos por um território intocado. Emersos do isolamento há menos de quatro décadas, preservaram seus dialetos, o que lhes garantiu pela transferência oral sustentar intacto o sumo de sua cultura Assombraram de singeleza os que um dia lhes subjugaram pelo cativeiro sórdido. Com suas terras demarcadas, permanecem esparsos, reunindo-se na Vila do Engenho, católicos devotos, por vez das festas cristãs. Sua presença remissiva naquele pedacinho de mundo nos inunda de culpa e respeito. A saga do povo Kalunga nos conduz a um reencontro perturbador com a boçalidade que encharcou de sangue inocente cada chão trilhado pela cupidez humana.
Fui com os meus, que é o jeito certo de ir a qualquer lugar, e de lá não mais sairei em minhas lembranças, já que, passados anos, impossível pisar o mesmo chão que deixei em Cavalcante. Hoje o cerrado corre risco de não ser mais o que natureza lhe delegou. Atacado impiedosamente pela fúria do agronegócio, pelas queimadas criminosas que abrem caminho para o cultivo de commodities, desfigurou-se em arremedo do que foi. Devastado em seu imenso patrimônio ambiental e cultural, suas histórias tornam-se lendas pelo que não nos é mais oferecido atestar. A cultura brasileira resulta da interação viva da multidiversidade de suas culturas. Quando uma cultura morre, adultera-se o todo.
Berço das águas brasileiras, o cerrado agora agonizante, com a erosão dos solos, nos levará à escassez de nossa principal fonte de vida. Secas se farão mais frequentes e as mudanças climáticas se apressarão em oferecer seus resultados devastadores.
A escolha poderia ser nossa, mas está nas mãos erradas.

Fiquem à vontade, afinal, ninguém tem razão