Objetos Datados

Fui aparar minha barba numa manhã vadia de segunda-feira, rito que cumpro em frequência quinzenal. O aparelho, seminovo, um Remington cheio de manha, com regulagens impensáveis e promessas de convívio por conta de tempo de casamento antigo. Postei-me diante do espelho, o que já me custa aborrecimento, já que espelho evito como o tinhoso a alho. No que me preparei para o ruído típico ao deslizar o botão que liga a geringonça, veio o silêncio. O aparelho prostrou-se em minhas mãos tal cadáver tecnológico, mortinho da Silva, embora os da Silva andem pra lá da conta de vivos. Gritei em desespero:

– Meu aparelho, o que vai ser da minha vida, o que vai ser?

Bárbara, uma de minhas filhas, irrompeu no banheiro com expressão de espanto, atribuindo ao grito o rompimento escandaloso de meu último elo com a vida.

– O que é isso, pai? Quer me matar de susto? O que houve?

Com o aparelho já agora amparado pelas duas mãos, tal um filhote morto de basset, roguei a ela:

– Me ajude, por favor, me ajude. Meu Remington novinho foi pro saco. Como é que eu vou aparar minha barba? Terei que ficar condenado a um Rasputim de aldeia, impotente diante da caminhada inexorável de minha barba ao chão?

Minha filha balançou a cabeça a já pelo gesto reduzir meu drama a um esquete de corredor de cortiço:

– Pai, desculpa, mas deixa de ser ridículo. Amanhã mesmo eu vou ao camelódromo e compro um aparelho novinho pra você. Tem mais, pai. Esse barbeador ainda é do tempo em que estávamos no outro apartamento, há mais de dois anos.

Tonto pela redução de minha dor a um sentimento ridículo, rebati desconvicto:

– Então, dois anos. Novinho, novinho.

E ela, dando ponto final ao enredo:

– Esquece, pai. Só no seu tempo as coisas duravam. Hoje é assim mesmo. A gente usa dois, três anos, e um dia simplesmente param de funcionar. Compra-se outra e pronto.

A sentença dela, dura e verdadeira, me repôs num mundo em que sendo o mundo que vivo parece cada vez mais o mundo que jamais imaginei viver. Lembrei-me por impulso dos objetos de minha infância, ao lado dos quais atravessei com garbo todos os meus ritos de passagem. Objetos que me acompanharam como irmãos com resistência e tomada. A geladeira Kelvinator, com sua porta única e borrachão parrudo, puxador de metal musculoso pra mais de palmo e meio, onde abrigávamos garrafas de vidro de água e leite, e um ou outro resto de comida pra consumo do dia seguinte. Sorvete à parte, não havia congelados, nossa ideia de armazenamento não excedia duas noites. De dois em dois dias, outra ida ao armazém, e pronto, já estava a geladeira com sua recarga fugaz. As formas de gelo eram acionadas por uma alavanca robusta que empurrava as pedras contra as faces das divisórias. Mas só funcionava depois de se submeter à torrente água da torneira. Minha mãe recomendava com energia:  “Não abra a geladeira nu da cintura pra cima, Beto, que vento gelado magoa”. A televisão Zenith resistiu gloriosamente à manipulação da família e agregados. Quando chegou, foi a primeira do prédio, o que, se nos conferia status, nos trazia aborrecimentos, pela fila de caronas na porta. A eletrola Telefunken era total-flex, tocando 33, 45 e 78 polegadas, sendo ainda rádio AM. Não era apenas uma eletrola, era um móvel, austero e soberano junto à coluna que dividia a sala. De madeira robusta e tom saudável. O parrudo Arno com copo de vidro resistiu com brio à arte criativa de dona Juraci em suas alquimias para as cozinhas experimentais da Nestlé e Refinações de Milho Brasil. Na lida diária, o Arno ainda suportou com bravura sertaneja o desafio de empastar o aipim de bobós divinais e toda sorte de cremes que ornavam o cardápio da culinária incomparável de minha mãe. O gravador cassete National enfrentou com fibra, por muitos anos, o apertar com a energia exagerada que lhe impunha. Meu radinho do Maraca era um Spika resistente até a derrota em Fla x Flu, quando o manuseava com aspereza. Os jogos no Maraca não eram apenas vistos. Eram ouvidos. A narração da Globo, sob as rédeas seguras e míticas de Waldir Amaral e Jorge Cury, ecoava no estádio com a força de milhares de alto-falantes. O assovio que antecedia o tempo de jogo piruetava pela arquiba como a viagem em 360 graus que assovios empreendem na Catedral de Brasília. Meu radinho era Spika, mas os porteiros e os peões, estes ainda que no estádio, portavam gigantescos Transglobes, com ondas curtas que captavam sinais do mundo todo, inclusive os da Rússia e Cuba, bloqueados pelos milicos por potentes antenas cravadas na Amazônia. Eram assim os objetos de minha época, parceiros leais na aventura da vida, vicejando firmes e solenes pelos cantos da casa, resistindo bravamente a intempéries, olho-grande e sem-jeitanças de adolescentes.

Viajava ainda nessas saudades quando, ao chegar no trabalho, caí na asneira de comentar sobre o ocorrido com o Marcelo Alberto, um jovem cioso de sua modernidade cretina, dependente químico de coaching. Ele retornara há duas semanas de um seminário sobre a importância do marketing motivacional. Voltei abruptamente ao meu drama da hora:

– Beto, pensa bem, a economia precisa rodar, gerar empregos, renovar a produção. Imagine se num mundo com sete bilhões de pessoas os objetos durassem para sempre? A tecnologia, se por um lado permite a redução geral dos preços, por outro impõe às coisas vida útil mais modesta. É o mercado e seu jogo, goste ou não. Hoje, qualquer um faz prestação de vinte reais e leva pra casa um aparato tecnológico estalando de novo. 

Complementou a cretinice com uma pérola de sabedoria inútil: 

– É o que os economistas chamam de obsolescência programada.

Dentro de sua lógica consumista predatória, o pragmático Marcelo Alberto estava certo. É desse jeito que observadores rasteiros do ciclo de consumo reduzem um problema tão complexo. Pensei que não são só as coisas que andam durando pouco, mas as instituições também. Casamento, família, escolas, empregos, lealdades e gostos. Tudo dura o tempo da conveniência em se transformar o novo em velho.

Já na terça, ao chegar em casa, minha filha sempre carinhosa deixara sobre a pia do banheiro um Philips marrento cheirando à tinta. Usei-o e pude atestar sua suavidade, pegada e variedade de recursos. Reduzi minha barba a seu tamanho prosaico e dormi o sono dos anjos.

Daqui a dois anos, quando o planeta estiver coberto de lixo tecnológico, quem sabe não poderei aparar a barba pela internet? 


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Comentários

2 respostas para “Objetos Datados”.

  1. Que maravilha de texto!! Me trouxe deliciosas lembranças!!👏👏👏😍

    Curtido por 1 pessoa

  2. Avatar de magnificentdonut2b76345d9a
    magnificentdonut2b76345d9a

    Beto sensacional! Lembro de minha mãe dizendo meu filho eletrodoméstico antigo é que dura. Até o dia que falei mãe você já gastou o preço de um novo consertando o antigo! É mas o antigo é que dura!

    Grande abraço.

    Joca

    Curtido por 1 pessoa

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