Corre história por lá, pelas gentes de lá, pelo tantim de mato que resta por lá, pelo chão ressequido por detrás de lá, do riozão.
O viajante, quando chegava com os seus pra acampar numa das ilhas do rio, ouviu-a de um caboclo ciliar do Araguaia, prostrado diante do rio olhando o nada. Já eu, da história contada a mim pelo viajante, lembrei dela quando pelo Araguaia tratei de passar dias de contemplação e assombro.
Era o contado que conto do jeito que me fez saber o viajante e ao viajante foi contada pelo caiapó:
Cabô de chegá no brenhão de mato e se acororou por conta de a necessidade impor-lhe fazença. Num tinha medo de palavra, de assustação, de porvinha sugando sangue pro jeito de deixar pele urticada. De cobra sanseira, de jacaré ardiloso. De arraia, candiru ou piranha quando da obra de limpança do desanuviado. De bicho qualquer que em turbilhão grassava na mata. Dali fuçava o mundo acariciado por uma brisa gentil. Era gente do chão da margem, do cílio do rio que emendava mata pra mais de se perder de quanto. Era a mata de todos. De noite, ele desgentava, virava vurto ou água, porque água jorrava das narinas da noite e se arrastava pra tomar légua de chão de mata e ermo. Tudo era porção de água, e ele num se tomava de ciença se a vida que lhe garrava aos pés era obra de água barrentando corpo, ou carne por obra de água carnada. Era ele água, e se não era, água era ele quase tanto. Água de transbordar país pro baixo. E o baixo naquele rio subia pro contrário, pro norte, pro quebrar verdade nocional. A areia de não acabar emergia do rio de não acabar. Tudo não acabava.
Era caiapó.
Passou ano em centena.
O chão ainda era Araguaia, carajás de chão, légua caiapó. O que é de céu abarcante não se toma de querer céu silhuetado, escondido por viés de morro enxerido. Nos brenhões por onde passou o contado de antes e passa este contado num havia lenda, por lenda ser verdade. E por onde lenda é verdade, verdade é ameaça. É só o desconhecido. O que não se soube saber. Acabrunhado por tanto de gente a se arrastar na ilha do rio por areia de pé pisado com desachego, o caiapó espreitou pela noite. Antes que a noite lhe rematasse por instante para o mesmo brenhão onde se desfazia de comida juntada em barriga, que nem ano de centena antes. Gente não lhe estranhava mais. Gente ano e ano vinha e barulhava o rio com canoa de rabo rumorento, com ferro torcido por engulhar garganta de peixe. Era gente pra mais de soma de cabelo de milho. Pela lua em caminho de metade trazendo noite, por viés, as gentes se embarracavam, só o sibilo da noite avançada inundava o Araguaia de sua verdade. Ou lenda, por verdade. O caudal do rio já não era mais o tantão da história que o viajante ouviu do caiapó, mas o que a morte do cerrado lhe deixou guardar. Bicho do mato que havia em turbilhão era pouco de poder contar, mas em turbilhão outros bichos surgiram no descampado da mata que agora é rés do chão. Bicho de pasto. A mata já não era mais de todos, era dos acumuladores, os novos senhores da mata no chão. Havia fogo onde havia mata. O caiapó de centena, no avançar da madrugada, viu o indormido e o indormido o acabrunhou. Espreitava o indormido por único e reverente. O indormido calava sob o céu de braça a braça, e olhava pro nada a acalentar sonho de saga. Era espécie de gente irmã em respeito, que indormia por dormir ser desreverente com aquele céu de estrela salpicada em tanto de incontado. Expurgava-se o indormido de sua cidade entranhada, orava sua prece que remedava gratidão contrita. Refazia-se de suas entranhas mais pérfidas, de suas veleidades mais fluidas. Perscrutava a estranheza de uma paz transgressora e orbital, a aspereza ensinante da areia que dorme por ano metade no fundo do rio. Doía ao indormido, junto da paz, testemunhar a morte densa e implacável de tanto tudo que havia por lá.
Os dois – o caiapó de centena e o indormido – se olharam pela via sinuosa de almas que não se cruzam pela visada, mas pelo través cadente de sina e desejo. O indormido ouviu o sobio dum voado, o tisnar de noite enluada. O indormido se viu insozinho, e fez conversa de pensamento, que é conversa que conta.
– Quanto se muda quando se muda por mudança de num voltar? – buscou a mata o remoer do indormido.
O nada de resposta o afrontava com o peso planetário de uma provisão de guerra inconclusa, mas não lhe curvou as costas. Foi leve e auspicioso. Foi mais.
– Quanto se ouve quando o que se ouve num é de barulho, mas fragor de silêncio?
O nada o turvou ainda mais por seu travo de incerteza indita.
– Se não lhe tenho resposta por conta de descaminho de pergunta, por que me tomo de lhe perguntar, se pergunta num cabe?
O indormido desproviu-se de regra humana destenso como a água das verdades. Rasgou-lhe a pele a crosta rugosa da mais berrante das descobertas: a morte daquele chão.
E dormiu com o Araguaia. E acordou com pro não ser mais igual.
Era Goiás.

Fiquem à vontade, afinal, ninguém tem razão