A religião deslinda a morte de várias formas. Quase sempre associadas à libertação. O budismo pune com a reencarnação, com o reenfrentar as agruras, sofrimentos e espantos que fazem da nossa vida um fardo de que nos esforçamos libertar pela insobriedade ou pela fé. Para os católicos, perda, ainda que se creia em uma nova vida vivida em um lar etéreo, onde as pessoas caminham lentamente, derramando ensinamentos e platitudes. Judeus creem na eternidade da alma por sua purificação, depois de se acertar as contas com o que fizemos neste plano. Os espíritas creem em algo semelhante, no carma a ser pago pelas vidas futuras. Muçulmanos se punem pelo que praticaram aqui, e só assim terão ou não direito à vida após a morte.
Encontrar pela exegese religiosa sentido para a morte não substitui a dor de perder alguém querido sem que a vida real aponte caminho para um quinhão de conforto com a perda.
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Todo fim de ano penso em Father and Son, do Cat Stevens, por nela caber tanto do que diria a meu pai e a meus filhos:
“Olhem para mim, estou velho. Todas as vezes que chorei por guardar coisas que sabia, ficou ainda mais difícil…o que vocês conquistaram ainda estará aqui amanhã, mas seus sonhos podem não estar”.
O sonho é a única experiência existencial sobre a qual temos arbítrio, que caminha por via apartada do destino. Ainda que o sonhar seja parte indissociável do sofrimento, sonhar liberta. Chorar pelo que sabemos mas guardamos conosco na relação com nossos filhos, uma das formas de manter o nosso sonho no cofre de nossas vulnerabilidades. Afinal, filhos deixarão marcas por aqui, “mas seus sonhos podem não estar”.
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Já tinha assistido há tempos, em 2004, um documentário sobre um ecologista – Timothy Treadwell – que viveu por doze verões com os ursos pardos do Alasca até ser comido por um deles. Documentário padrão Discovery, com muita qualidade, mas com pouco aprofundamento humano. Uma história impressionante adornada por uma estereotipização, digamos, ingênua dos ecologistas. Timothy filmou 100 horas de imagens sobre sua inacreditável aventura-obsessão. À época, lembro-me de ficar chocado com a brutalidade da morte do Treadwell em contraponto com sua fé na autoinserção num mundo de seres selvagens e instintivos.
Logo em seguida a saga de Timothy Treadwell foi documentada por ninguém menos que Werner Herzog. O grande cineasta alemão agregou humanidade à história e a narrou com um texto tocantemente bom. Cada palavra pode ser saboreada lentamente, como lenta é a narração de Herzog. Ao contar uma história de um humano sonhador assassinado por um dos ursos que pensava proteger, Herzog cunhou uma obra-prima de ensinamento holístico, uma ode epifânica ao respeito que se deve ter entre os ambientes dos diversos habitantes deste planeta diverso e limitado.
Um deleite.
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Quem nunca viveu o aquietado de uma viola tocada num alpendre de sítio, com a vida se arrastando preguiçosamente, sem que não haja manhã que pareça atrapalhação ou freio de prazer; quem nunca viu chão bulindo, bicho rastejando no correr do mato, causo contado no apertar do cigarro de palha; quem nunca sentiu o acalanto de uma noite que num desnoita; quem nunca passou por isso, não viveu de tudo.
Mas sempre há tempo, se não lhe somos escravos.
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Desocupados nunca têm tempo: é muita coisa junta pra não fazer.
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Morava em Friburgo, terreno acidentado, com aqui e ali umas nesgas do terreno em que plantavámos coisa ou outra. Cravei nelas uma hortinha ajeitada e uns pés de frutas. Guardava expectativa especial por uma ameixeira que prometia um tico de Europa naquele grotão serrano.
Lembro da felicidade de ver a primeira flor da ameixeira camuflando um remedo de ameixa acendendo minha esperança.
Outras ameixas surgiram, mas, antes que as pudesse colher, uns sabiás trataram de comer metade delas. Confesso hoje constrangido que fiquei escabreado com os sabiás.
Por tempo depois, Altamir, amigo mineiro da gema, contador de causos e invencionices, conhecedor de queijo e cachaça, escritor de escrita enviezada, gostosa de ler; pois bem, Altamir, ao me ouvir reclamando dos sabiás, retrucou:
– Você vive da venda das ameixas?
– Claro que não, é um pezinho só.
– Então deixe os sabiás comerem as ameixas em paz. Eles ainda estão te deixando a metade, é assim que as coisas se dão na natureza. Se é pra um, é pra todos. Os sabiás estão cantando?
– Estão, amigo.
– Então é a paga deles, agradeça a Deus.
Aquela conversa de noite chegando preguiçosa sob a proteção de uma branquinha de Salinas me ensinou mais da vida que muito traseiro sentado em banco de academia.
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A gente assiste à arrebatadora live do Andrea Bocelli no domingo de Páscoa, no Duomo de Milão, com muitas imagens das principais cidades do mundo vazias pela imposição de uma pandemia, e lembra do legado maravilhoso do cristianismo. Na arquitetura, artes plásticas e cênicas, música, filosofia, etc. Vem também lembrança do que o cristianismo nos ensina de solidariedade e amor ao próximo, embora nos mantenhamos a maior parte do tempo refratários a aprender, distantes do cerne de seu ensinamento. Uma pena que o legado material do cristianismo tenha sido muitas vezes erguido pela opressão dos mais necessitados, pela cumplicidade da alta igreja com os interesses dos poderosos, uma opulência em clara contradição com os ensinamentos de Cristo.
Ainda assim, quando Andrea canta a capella Amazing Grace em frente ao Duomo, impossível não nos lembrar da essência da fé e dos cânones do cristianismo. Se isso não lhe vier à memória, se não lhe escorrer uma lágrima, vai pras ruas com a bandeira do Brasil e pede por mais opressão. Parabéns, você secou o pouco que guardava de sua frágil capacidade de amar o próximo.
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Já não tenho pai e mãe. Temporão de uma safra de três, perdi um querido irmão mais velho. Remanescentes do núcleo afetivo que me protegeu e inspirou, eu e minha irmã Heloísa. Já não tenho árvores por onde cravar as unhas de minhas angústias, mas debruço-me quase ao rés para regar os sete arbustos que plantei. Quatro próximos, três distantes. O perfume da relva provocante compensa em parte a perda dos troncos seguros que indicaram o norte da minha vida por um amor tão sincero quanto a simplicidade que os explica.
Aos que me deixaram quase só, sobrevivendo pelos ensinamentos que deles herdei, o amor dos que me seguram pela mão firme da esperança.
Ainda bem que agora faltará um ano para que essas lembranças deixem o vestíbulo de minhas inquietudes e trafeguem livres pelo inesperado.
Feliz Ano Novo.

Fiquem à vontade, afinal, ninguém tem razão