Naquela Tarde em São Cristóvão

Superada a agonia de mais uma aventura pela borda do precipício até a última rodada do Brasileiro, impõe-se inadiavelmente pensar o Fluminense em sua real dimensão. O Fluminense forte, cuja história não se harmoniza com um papel coadjuvante no futebol brasileiro. Sustentavelmente forte, livre da ciclotimia que só se agravará, em tempos de profissionalização acelerada dos grande clubes, com a insistência na aposta no personalismo, no messianismo de um messias oco. O Fluminense não tem o direito de se conformar em ser tributário do rio de grande caudal que aos poucos se consolida no futebol brasileiro. Em contraponto, lembrar dos impasses de nossa agenda atual autoriza desencravar memórias, rememorar com saudades tempos de colheita. Feito uma certa tarde no outrora aristocrático bairro carioca de São Cristóvão.

A primeira memória que me salta quando se fala em São Cristóvão não são as fartas opções de gastronomia e cultura que se concentram – escondidas, umas; escancaradas, outras – naquele enclave de história e fruição do Rio de Janeiro. A Quinta; o Museu Nacional pré-descaso; o idílico Jardim Zoológico da infância de todos os cariocas; o Museu do Primeiro Reinado; o Museu de Astronomia; o Centro de Tradições Nordestinas, inundando de vida a ousada arquitetura do Pavilhão; o velho Adegão. Tantas referências de uma cidade generosa e civilizada. Anfitrião da única corte europeia fora da Europa, São Cristóvão se tomou de inúmeras vilas simpáticas, marca da boa tradição convivial carioca. As casas simples com cadeiras na calçada do clássico “Gente Humilde”. Nem é também o acanhado estádio do São Cristóvão, que pontua como um fragmento de paspatur a inimaginável Linha Vermelha de meus idos de infância, que me vem de chofre quando penso no simpático bairro da Zona Norte. O que me vem à memória é o estádio de São Januário, antes de se reinstalar num bairro tépido que leva o nome do navegante português que deu origem a um clube popular. Foi lá o palco da primeira exibição do time histórico que ganhou tudo o que disputou enquanto carregava estádio adentro a bandeira das três cores de tradição, paixão de milhões.

O ano, 1983. Um sábado. O Fluminense estreava no Campeonato Carioca. Não o Carioca das ligas municipais picaretas que asseguram vida longa ao cartório da FERJ e indignação aos amantes das boas práticas no futebol. Falo do insuperável Carioca, durante décadas o mais importante campeonato do Brasil, em que cena e contracena eram partilhadas pelos maiores craques que esta nação de craques produziu em escala de galinha poedeira. O Carioca era o Brasil. Naquela tarde de sábado estreavam dois garotos que pouco tempo depois se tornariam personagens da história do futebol brasileiro: Ricardo Gomes, 18 anos; Branco, 19. Estreava ainda uma dupla que marcaria as lembranças tricolores para além da eternidade: Assis e Washington, saídos de uma espetacular temporada no Atlético Paranaense. O time já contava com Paulo Vítor, um dos maiores goleiros de nossa história, e com o cracaço Delei, remanescente do time com nove jogadores da base que foi campeão carioca em 1980. Estreavam também os jovens promissores que vinham do Sul – Leomir, Jandir e Tato; mais tarde, Renê -, que garantiriam intensidade alucinante àquele time imortal. Estávamos esperançosos, coisas boas por certo aconteceriam. Em 1984, já com o Parreira como técnico, chegou o cracaço Romerito. O resultado veio rápido: fomos campeões brasileiros. Incontestavelmente. O presidente Manoel Schwartz, legítimo continuador de nossa tradição de vanguarda e compromisso com a conquista de títulos, deixou claro como entendia seu papel histórico ao afirmar que, se preciso fosse, deixaria faltar cloro na piscina do clube para investir no futebol. Futebol Clube, o nome. Aquela tarde em São Januário cumpriu o papel de confirmar nossas melhores expectativas. Do outro lado, imaculadamente branco, o querido e tradicional São Cristóvão, sangrando o triste ocaso a bordo de uma experiência que a todos os amantes do futebol se anunciava como a realização de uma utopia: uma cooperativa de jogadores, sem cartolas. Com a camisa imaculadamente branca, que não admitia – único caso no Brasil – segundo uniforme, estavam ali, na experiência inovadora do São Cristovão, muitos ídolos em decadência, lutando romântica e bravamente contra a inexorável ação do tempo. E pelo prato de comida. Rodrigues Neto, Gil, Orlando Lelé, Rui Rei, Zé Maria. Outros menos votados engrossavam a lista. Entre os de memória evocativa estava o Edu, o extraordinário ponta-esquerda que foi à Copa aos 16 anos e integrou o Santos de Pelé, de performances memoráveis. O Fluminense ganhou bem, muito bem – 3 x 0 – mas restou uma cica renitente, ao testemunhar a valsa triste da utopia, cujos acordes frouxos caíam sobre o gramado com o peso simbólico de um fósforo riscado. Um misto de esperança e desencanto. Ambas se confirmaram.

Eram tempos em que a opinião falsamente hegemônica não ganhava contornos de verdade pelo ativismo nas redes sociais. Tempos não de redes, mas de rodas sociais, de torcedor zoando e sendo zoado nas ruas, no bairro, no colégio, nos bares. Tempos de torcedor, no estádio ou fora dele, desreprimido de suas “obrigações” de lealdade, amando e se indignando por sua expressão livre e espontânea. Tempos de paixão libertária. Daquela tarde restou o alento de poder cravar meus olhos e abrir minha sensibilidade ao primeiro acorde de uma orquestra inesquecível, um dos grandes times com que o Fluminense presenteou uma pátria de apaixonados. É para esse ambiente de suas glórias históricas que o Fluminense urge voltar e nele ficar. Sem sustos. Sob pena de se ver por um espelho convexo. Juntar a força da tradição com o futuro impositivo. Recuperar nossa vocação de vanguarda. Varrer o mofo da abnegação, um anacronismo deslocado em tempos de profissionalismo e exigência de desempenhos sustentáveis em nível muito alto.

Daquele jogo histórico para cá, revi raras vezes o “São Cri-Cri” jogar. Até que, com o sistema de acesso e descenso, o glorioso alvinegro da Figueira de Melo tenha definitivamente sucumbido, voltando às manchetes apenas por uma vez. Pela menção oblíqua ao fato de ter revelado um menino franzino. Um menino que encantava os velhinhos que ainda guardavam em seu orgulho, com os negativos passando em sequência, uma história que começou nas regatas que se sucediam na Baía de Guanabara, do Russel até o entorno da Igreja da Matriz, no Caju. O menino franzino ganhou o mundo e se fez Fenômeno. O São Cristóvão, entre as glórias e o suspiro que fizeram de seu enredo um encadear simultâneo ao do século 20, pontificou e ruiu. De São Cistóvão Athletic Club a São Cristóvão Futebol e Regatas. Venceu as mais importantes modalidades esportivas, e abraçou de branco – todinho de branco – o troféu de campeão carioca de futebol em 1926. Uma linda história. Mas o São Cristóvão de minha teimosa memória será sempre o evocado por contracenar, naquele hoje distante 1983, um momento especial da história de uma das mais importantes instituições esportivas brasileiras, o Fluminense. O Fluminense eterno daquela tarde distante. 

Hoje, sempre que tomado de coragem súbita respiro fundo e encaro a Linha Vermelha, sinto-a menos ameaçadora em sua rotina violenta quando do elevado me pego distraído olhando de esguelha para o velho estádio da Figueira de Melo. E imagino um mundo todo de branco. Sem segundo uniforme. Um mundo em que o Fluminense se instale e se mantenha soberano, cumprindo seu destino de glórias, tão bem entendido pelo inesquecível Manoel Schwartz. Um Fluminense em que lembranças e realidade não se descolem, pelo contrário, se abracem vigorosamente. Longe, muito longe, de tutelas autonomeadas.


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