Tio Jurandir morava numa idílica Ilha do Governador dos tempos de minha infância. Águas claras e limpas da Baía da Guanabara, praias miúdas espalhadas pela orla. Repletas de gente nos fins de semana e de pescadores onde houvesse cantinho jeitoso e promessa de peixe. Muitos peixes havia por lá. Conviviam em harmonia o bucolismo de um burgo interiorano com um quê de sofisticação, incipiente frêmito urbano e temperança nos hábitos dos insulares. Tinha o Hipódromo, clubes chiques, o campo da Lusinha, o nascente samba da União, sobradões, casas opulentas em contraponto convivial a casas humildes, o mais lindo repertório de nomes de bairros que se possa imaginar: Cacuia, Cocotá, Freguesia, Galeão, Jardim Carioca, Jardim Guanabara, Moneró, Pitangueiras, Portuguesa, Ribeira, Tauá, Zumbi. Nem tudo, por verdade, lembraria beleza e encantamento na Ilha daqueles tempos. Poucos anos depois, incrustado nos subterrâneos da Base Aérea do Galeão, se instalaria o Centro de Informações da Aeronáutica, um dos mais sórdidos covis de tortura dos anos de chumbo. Um horror de que só tomei conhecimento na minha adolescência, quando rarearam minhas idas à Ilha ver meu tio.
Na chegada à Ilha, assentava-se solene o aeroporto do Galeão, porta de saída dos brasileiros privilegiados que viajavam ao exterior em tempos de monopólio da Varig. Olhar o Galeão da janela do ônibus da Paranapuan, que pegava com minha mãe no Castelo, me transportava a um mundo que só podia tocar pela alma gentil de criança. Ia por lá, na Ilha, num ou noutro fim de semana. Para ver Tio Jurandir, Tia Joselita, primas queridas. Que aqui fique lavrado: muito bonitas, todas. Era festa, parte da vida que deixava de tempo em quando no arco arborizado da avenida Rui Barbosa. Tinha vez que dava de ele vir à nossa casa. Trabalhava no “O Cruzeiro”, onde também trabalhava meu pai. Tio Jurandir recendia generosidade, destilava animado um estoque inesgotável de boas histórias, com a conversa fluindo feito riacho de pé de serra de tamanho pouco. Devagar como coisança boa. Gostava de quando nos visitava. Meu pai e ele compartilhavam o achego pela cachacinha antes do almoço. Tio Jurandir agregava à inocente e profilática cachacinha o exótico hábito de comer pimenta crua. Aquele rito tinha pra mim o significado de um ato bíblico, e o trouxe para o altar de minhas visões como a primeira vez que entrei num avião, depois de muito tempo sonhar com ele pela janela indulgente do Scania da Paranapuan. A pimenta crua de meu tio foi um voo pousado para sempre em minhas lembranças.
Tio Jurandir era o mais velho da prole Chamusca, que muito cedo foi privada da figura solar de vô Heitor. Juiz de Direito no interior da Bahia, a vida não lhe engraçou de conhecer os mais de cinquenta netos que foram trazidos em carradas pelas filhas e filhos que multiplicaram seu legado. Minha mãe, Juraci, a segunda, e ele, o mais velho, carregaram, simultaneamente à dor cortante da perda do pai, a tarefa de, pelo afeto e renúncia, ajudar vó Adelaide a criar e encaminhar a meninada. Todos foram bem, abraçaram a vida com ternura e vigor, como bons discípulos de São Francisco. Criada pela temência a Deus e normas da boa ética e respeito ao próximo, a prole Chamusca contribuiu com seu tantim para um mundo menos rascante.
Criativo multivalente, jornalista, poeta, compositor, contador de histórias, animador cultural, amado pelos filhos e filhas que tinha em conta de dezena, Tio Jurandir era visceralmente um ser humano impregnado de carinho. Daquele carinho que conforta e anima quem dele se achega. Ainda que pela visão idealizada de mundo em que crianças se protegem, acompanhei sua dor excruciante ao perder um filho muito desejado a quem queria batizar e batizou com o nome de Heitor, homenagem a seu pai, o patriarca dos Chamusca. Tocou em diante a vida sem deixar que a tragédia da perda lhe oferecesse álibi para torpor ou autopiedade. E caminhou. Jurado do inevitável Programa Flávio Cavalcanti, me credenciou a subir uns degraus na hierarquia da turma de adolescentes da rua. Jornalista seminal, espalhou seu talento pelos grandes grupos de comunicação brasileiros. Quando venci um festival no Colégio São Vicente com uma música sobre letra do vô Heitor, tio Jurandir me falou de sua alegria por ele mesmo ter antes musicado aquele poema. E me falou de tantas outros escritos de vô Heitor a que tinha juntado melodia. Tornamo-nos parceiros da mesma arte, o que me entranhou de boa cumplicidade. Havia alegria no que me contava, via-se nele um espírito desprovido dos sentimentos menores, volúpia de vida. Ele abraçava a vida e a vida, a seu jeito, o abraçava de volta em candente reciprocidade.
Quando soube que ele foi, aos 95 anos, tocar coisas mais importantes, triscou em mim a centelha da saudade. Tio Jurandir viveu intensamente até vizinhar um século. Deixou em mim porção de lembranças e régua de lidar com a vida. Deixou antes a certeza de chão pisado sob a luz de ensinança de crepúsculo, que é chão onde moram os que fazem de tocar os dias desembaralhamento.
Hora dessas chego por lá onde ele está, aviando conversa com minha mãe. Dessa vez não mais sonhando pela janela do velho Scania da Paranapuan que chegava à Ilha costeando o Galeão, mas pela janela do adeus às coisas.

Fiquem à vontade, afinal, ninguém tem razão