Ouvindo como faço com frequência bandas inglesas. Serve não menos para lembrar que o rock da Ilha nasceu da influência do blues e da black music, não do rock americano branco. Cultuado em clubes de dimensões franciscanas espalhados pela Inglaterra, o rock britânico prosperou sob o combustível de muito sexo, drogas, blues e da música dos pretos fundadores do rock e da black music, como Chuck Berry, Little Richards, Miracles, Ronnetes, Isley Brothers, Smokey Robinson e muitos outros. B.B. King, Muddy Waters, Buddy Guy, Albert King e tantos da terceira geração do blues, antes mesmo de adotados pelo mainstream dos americanos, eram incensados nos clubes ingleses. Num deles, certa noite, Eric Clapton, Jimmy Page e Keith Richards foram assistir a um canhoto de Seattle que tocava rock e blues esculpindo solos impensáveis. Era Jimi Hendrix. Nessa noite, esses monstros ingleses pensaram em desistir de tocar guitarra. Ainda bem que isso só lhes passou pela cabeça. Clapton e Page se revelaram geniais guitarristas de rock e de blues. Keith Richards já tocava numa bandinha de futuro e fundou alguns dos riffs mais marcantes da história do rock. Além dos Beatles, os mais revolucionários deles, muitos ingleses reinventaram sistematicamente o rock. Do rockabilly ao pós-punk. Nos EUA, Steve Ray Vaughan, John Mayall, Buddy Guy, Keb Mo’, Johnny Winter, Robert Cray, vários de sua geração, ao lado dos blueseiros históricos, mantiveram a tradição do blues, mas os ingleses não deixaram barato. Sem os negros do Mississipi, não haveria blues; sem o blues, não haveria rock; sem os ingleses, o rock não seria o mesmo.
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Talento é tudo aquilo que não cabe na esperança.
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Pela fresta do anteparo vaza poesia
O quarto se inunda de estilhaços do dia
Fragmentos no lençol de exausta elegia
Se mais não houver tesão, só monocardia
Levanta, se desaquiete, que a jiripoca pia
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Perigoso ser sincero com as pessoas. Mais ainda conosco.
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Já conhecia “Toada”, gravada pelo grupo Cantares, de que participava o Juca Filho, autor da música com o Claudio Nucci e Zé Renato. Se não me engano, numa edição patrocinada pela Funarte. Me apaixonei pela não à toa toada da música, em que que se convida uma morena para “ouvir comigo essa cantiga”, e “sair por essa vida aventureira”. A combinação da levada maneirosa, com a morena e o convite irrecusável a um jovem em “sair por essa vida aventureira” me fez apaixonar pela música já na primeira vez que a ouvi. Tocava-se muito em rodas de viola, vez em apês apertados, vez outra junto a fogueirinhas de papel, com o mundo sendo rasgado de simplicidade. Amei essa música com a intensidade sem filtro que os jovens amam. Depois veio o primeiro independente do Boca Livre, que vendeu mais que smartphone em Acari. Aquela ideia somava à paixão juvenil que tinha pela vida aventureira o projeto corajoso de quatro jovens que resolveram desafiar a à época poderosíssima indústria fonográfica. Depois a pirataria – resposta do excluído ao jabá e à política absurda dos preços dos cds – e mais tarde a internet trataram de fechar a tampa de caixão de seu modelo exploratório, não sem antes cooptar o Boca Livre. Mas a “Toada” que sempre vai vagar por minha alma e coração será a toada do Cantares: libertária e malemolente, intensa e preguiçosa, carregada de desejo e de saudade difusa.
Agora há pouco a “Toada” do Cantares tocou na minha lista. Um menino dentro de mim me esticou a pele ao ponto de sangrar vento. Foi bonito.
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A História pode ser mudada por três acordes ou um acórdão. Ou um acordão.
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Assisti há tempos com a Rafa, no antigo Philos, a um documentário que defende tese que subverte o senso comum: os Beatles foram tão culturalmente importantes para o fim da União Soviética quanto a Glasnost do Gorba.
Duas gerações de jovens moscovitas aprimoraram técnicas impensáveis para ouvir e reverenciar os Beatles num ambiente repressivo. Descobri estarrecido que uns malucos gravavam em fotos de raio-x os LPs que nunca chegariam pela via normal aos sovietes imberbes.
Em subterrâneos, revolucionários estéticos desafiavam o bloqueio cultural que o Presidium impôs a jovens que eram forçados a se divertir com músicas bizarras, sob a égide de um estado absolutista e gerontocrata.
Não cabe aqui discutir uma teoria abstrusa que opõe estética e ideologia. A melhor literatura soviética foi esculpida sob o jugo de czares escrotos e sanguinários. As vidas das gentes, matéria-prima da literatura, voa libertária sobre regimes de toda espécie.
Comovente ver uns resistentes confinados a sótãos de Anne Frank sendo impulsionados por um leitmotiv: entender constestação como dialeto da liberdade.
O documentário termina com um show do Paul em Kiev sob as lágrimas pungentes de milhares de jovens com 60 anos que faziam um acerto de contas simbólico com o obscurantismo a que forçadamente tiveram que se submeter.
A cultura é ainda a mais renitente das ideologias. Se morre a cultura, morrem os povos.
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Quando se procura, nem sempre se quer achar. Quando se acha, nem sempre se procurou.
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A vida de magro é comezinha para os magros, mas sacrificante para os gordos. Magros não renunciam, apenas exercem sua magreza de forma natural e ingrata.
Gordos magros, apesar do retorno clichê da autoestima estética, na solidão de seus desejos mais puros, excomungam a abstinência de um pão na chapa com ódio insano de um guerreiro mongol.
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Se até um motor de mil cavalos precisa de uma centelha antes de se revelar em plenitude, cuido de não subestimar quem em minha volta fagulhe. Mas me cerco de cuidados com quem chega por pirotecnia portando um motor intelectual de mil cilindradas.
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As manhãs de domingo nos abraçam de felicidade e pressa, um prazer desonerado da ansiedade das sextas e do limiar da transição ameaçadora de suas noites. As manhãs de domingo nos incitam a agarrar o que sobra dele a cada minuto, e nos entregarmos ao rito de torná-lo menos penoso, permissivamente suave, sob o risco de anteciparmos a segunda-feira do jugo. Manhãs de domingo são rochedos do náufrago.
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Mergulho meticuloso nas tragédias cotidianas dos EUA sob o olhar do Brooklin, do 11/9 à Covid, “Epicenters”, do Spike Lee, é uma intensa série. Provocante, sem perder a ternura e o humor. Spike opta por renunciar à abordagem apenas dramática das tragédias e nos assalta de afeto e susto. Entrevistando em off políticos, artistas, profissionais de saúde, gente comum, Lee usa como pano de fundo para a narrativa a evolução dos números devastadores da Covid nos EUA. Tudo é humanizado, as perdas são compensadas pela memória afetiva dos que foram, o que nos impulsiona para uma dor ainda maior. A dor da perda, reverberada pela lembrança fluente de histórias, gestos, exemplos, afeições, amores explícitos, irrupções de humanidade dos que se vitimaram por um caudal escandaloso de negligência. É possível rir das lembranças sem com isso diminuir o sofrer da ausência. Por fim, por ser Spike Lee, uma trilha sonora arrebatadora.
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A vida nos surpreende com inúmeras formas de ser feliz. Um pequeno gesto, um abraço amigo, uma confissão de afeto, um sentimento de inclusão familiar, o reconhecimento profissional, o sorriso de um filho, o saber não estar só, o compartilhar uma alegria
Mas felicidade, felicidade mesmo, é caipirinha com linguiça.
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Há muita gente para ser lembrada quando o Brasil erguer o panteão de seus 700 mil mortos. Gente que debochou da morte, que incensou a ignorância, que desconsiderou o sofrimento sem cura dos que perderam os seus, que se utilizou da tragédia para lançar névoa sobre esqueletos revirados pela verdade que há de gritar o mais lancinante dos gritos, gente que desfilou de jetski sobre o lago sangrento da tragédia.
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Há um argumento odioso e burro: o racismo nunca vai acabar, sempre haverá racistas.
Sempre haverá assassinos, pedófilos, feminicidas. Mas ninguém vai impunemente assassinar alguém num estádio, praticar um ato de pedofilia num shopping, matar uma mulher na calçada da frente. É crime, tem que prender.
Só assim os racistas serão instados a restringir esse sentimento asqueroso ao ambiente fétido de sua alma doentia. Se externar, é crime, que pague por isso, tem que prender.
Assim que funciona.
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O modelo associativo na gestão dos clubes de massa lembra o Partido Novo: uma assembleia geral de condomínio só com os moradores da cobertura.
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Pedro Bial afirmou que o BBB “é escapismo para as dores da vida”. Bial, o nome disso é Rivotril. BBB é uma merda.
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Acabei de ir ao banco para provar que estou vivo. Eles se convenceram. Eu, nem tanto.

Fiquem à vontade, afinal, ninguém tem razão