Por Que em 2020 Torci Contra o Durcésio

Quando no finzinho de 2020 o Durcésio se elegeu presidente do Botafogo, eu, sendo tricolor, me preocupei. À época da eleição, publiquei um texto irônico em que avisava que torceria contra ele, um amigo de mais de meio século, amigo de uma vida, companheiro de trocas sociais e afetivas. A conquista da Libertadores foi mais uma das grandes vitórias do Durcésio à frente do Botafogo. 2024 só se tornou possível porque já em seu primeiro mandato, recebendo um time da segunda divisão, Durcésio fez o que está cansado de fazer: ganhar. E levou o título da Série B. Subir para a elite do futebol brasileiro era fundamental para que o projeto da SAF, tocado pelo Durcésio e Carlos Augusto Montenegro, apoiados por botafoguenses de peso, pudesse se dar num ambiente descontaminado, com o valor arbitrado na discussão com os investidores respondendo à importância histórica do clube. 2022 foi decisivo para a escolha do parceiro que livraria o Glorioso, pela troca do modelo de gestão, da inevitável insolvência. Mas vale lembrar que talvez não houvesse a Libertadores sem 1995, que impediu a debandada de uma ou duas gerações de torcedores, minando o valor intangível da marca Botafogo, encolhendo sua capacidade de gerar negócios. Em 1995, Montenegro com o apoio de outro amigo de infância, José Luiz Talarico, à época vice-presidente da Pepsi, operaram juntos o milagre de levar o Botafogo ao título nacional. Mas voltando a 2022, John Textor, o escolhido pelo grupo de botafoguenses que tocaram o projeto da SAF, chegou com tudo. Os resultados já começaram a aparecer no segundo turno do Brasileirão, quando o alvinegro fez uma campanha espetacular, quase o credenciando a disputar a Libertadores que conquistou agora. Parece mesmo que Textor foi uma escolha certa. O investidor jogou pesado. Mas não foi apenas por isso, pois se deu algo tão importante quando o dinheiro aportado: Textor aprendeu a amar o Botafogo do mesmo jeito que amam seus milhões de torcedores. Juntar Textor, Durcésio, Carlos Augusto Montenegro num mesmo projeto é de alto risco – para os adversários.

O texto.

Já decidi: vou torcer contra o Durcésio

Uma boa ramada de amigos de uma vida resolveu de uns tempos pra cá viajar juntos todos os anos. O motivo formal: a final da Champions; o motivo real: se encontrar, dividir a delícia do convívio. Tenho a felicidade de ser um deles, e guardo esse presente da vida no cantinho mais carinhoso do meu coração. Variamos entre seis e oito – metade tricolor, metade botafoguense -, na continha certa do equilíbrio passional do grupo. Numa dessas viagens, numa noite regada a Pera Manca generosamente oferecido pelo multifacetado e multiquerido Carlos Augusto Montenegro, o presidente eterno do Glorioso, especulou-se sobre uma futura candidatura do Durcésio Mello à presidência do Botafogo. Na mesa, outro botafoguense de linhagem nobre: Rivadavia Corrêa. Recebemos a ideia entusiasmados – tricolores, inclusive. Mal sabíamos o que estávamos arrumando.

Passado o tempo que passa sem licença ou consentir de qualquer natureza, enfim, o Durcésio formaliza sua candidatura, reunindo em seu entorno os melhores matizes da tradição botafoguense. O Durcésio não é só Durcésio. O Durcésio, como sempre lhe reitero por vezo e admiração, é uma força da natureza. Incontível, um fenômeno natural sobre o qual não cabe controle de nenhum de nós, mortais submetidos às regras proverbiais da vida. O Durça que conheci mirradinho, aos 9 anos, no Colégio São Vicente, transfigurou-se em um homem imenso, por qualquer aspecto que se analise a dimensão de um homem. Tem o Durcésio excepcionais qualidades de gestor capaz de reunir em seu portfólio o mesmo número de CNPJs que o mar de amigos que o cerca e é por ele acarinhado.

Honesto, ético, empreendedor, um trator no trabalho, consegue simultaneamente importar peças de avião, fabricar vinhos em Mendoza, apoiar ações de reflorestamento de madeiras nobres, presidir a Associação de Amigos do Vale das Videiras, tocar uns cinco restaurantes, e cuidar de mabecos na África. Um gigante.

Hoje, ao lidar com a possibilidade real de o Durcésio presidir o Botafogo, eu me assusto, me divido entre o desejar o que o tornará feliz – cuidar da reconstrução de sua grande paixão – ou o que me trará aborrecimentos lá na frente, com o Botafogo forte, retomando sua tradição de forjar paixões. Sou tricolor. Pena que hoje nenhum Durcésio tricolor se anime a tomar nas mãos a tarefa de fazer o Fluminense recuperar seu papel de protagonista no futebol brasileiro.

Sabe de uma coisa? Acho que lá no fundo, meu coração tricolor teme ter no rival tradicional alguém que vai nos deixar em apuros.

Já decidi: vou torcer contra.

Mas se fosse botafoguense, cravava o nome dele com a certeza dos anjos encomendados, com a segurança de entregar minha maior paixão imaterial a quem vai cuidar dela como eu gostaria de cuidar, caso tivesse a competência de um Durcésio.

Mas Deus, que não é bobo, não dá asa a cobra.

Boa sorte, irmão.

Quatro anos depois a conquista da Libertadores confirmou meus maiores medos.


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