Neste pôr de mundo rareia novidade. É vida correndo riacho manso, com lambida d’água em cada margem por razão de tempo. Voltimeia garra de água faltar, mas o boi por ofício deita o focinho no terrão da borda, que inda tem coisa pouca. Noitim é contagem de rês, e noitim é dia claro por aqui. Hora pra lá da conta de dedo de uma só mão é noite. Por aqui, peão conta pra caderneta de mandador. Tem que ser conta que soma num desminta. Cada rês somada a rês até fazença de todo. O todo na conta da caderneta do quem manda. Se falta rês, sobra na caderneta apontação de peão em dívida, grossando a coluna por feitio de rabiola. Peão devendo o que o tempo de vida num cabe pagar. E o peão vai escravando. Se coragem pra mocambar lhe falta, vai pra senzala do dono da terra pra num ter mais pro sair.
Chegou por dias tempo encardido, com noite assuntando mais cedo e dia num esperando a hora. O sol apressado, a lua relenta. Chovia quando num é trato chover, e sol frevia no carreirão da noite. A contagem do gado inda batia certim, mas nem sinal de vaca prenha por mais de mês em três. Dotô Protásio num se alembrava de quadra parecida. A barrigada vazia das vacas foi juntada com a desobediência do tempo ao curso das coisas de Deus. Uma puxando o fio da outra, a explicar pela via do inusitado duma o que o inusitado doutra pedia. Outros inusitados foram se achegando ao contão de estranheza. Muié num prenhava por mais de ano. Fruta de estação e fora nem ariscava brotar. Primavera secou pé de tudo quanto é árvore que se tarefava frondosa. Nenhum filho do Pai careceu de dotô, nem corizazinha de chuva tomada, com fiapo meloso varando beiço, se sucedeu por impagão desta braça de terra.
Salésio enfileirava o gado, dotô Protásio contava. Conta cimou de não bater. Na casa grande, por não sabido, fazia tempo que bolo solava e feijão num garrava grossar. Arroz papado, alho sem gosto, muié sem vontade. O rádio grunhia por conta de tempo de esconder notícia, e cada um imaginava o passar do mundo pelo especular. Num se tinha aviso de nada que houvesse pelo chão dos homens. Daqui e do estrangeiro. A parabólica travava, só deixando pastor pastorar e padre padrar. Carro nenhum travessou a piçarra que corta o cerradão que abraça gentes e as coisas das gentes. Nada aflorou, floriu, nasceu ou empurrou desejo por mais de conta de ano. O nada domou a vontade do tudo, e, em se tendo o nada por função de vida, o nada se impôs. Naturalmente. O nada não mais doía ou esquisitava. O nada deitou sem pressa seu véu pálido sobre as camas dos que iam se rendendo ao não-desejo. Num tinha brisa, poeira, beijim na boca, roçar de vontade, arado fungando a terra, café com tapioca, lavação de roupa, banho de sabão, cavalo ariscoso, muié domada, pinga destravante. Num premia sabor ou sede. Nada.
Tempo corrido por muito correr, da casa das moças, num oitão de costear a piçarra pralém de légua que fazia peão e mandador deitar cheiro de alfazema e roupa de comunhão pra mode de prevaricar, correu o falado: Marilva barrigou. A casa profana vaziou pela prevalença do nada. Prenhez de barriga de tamanho de ano e meio, corria falação pelo nada dos todos. Numa noite que se fez noite na hora certa que a noite contratou com Deus, um choro vazou fundo o vazio das gentes assombradas. O menino desbarrigou com metro e meio. Nasceu falando língua estranha, e mais e mais língua falou. A parabólica da casa das moças desatrelou tudo quanto foi imagem que caía sobre a casa numa Babel amalucada. E o menino tudo traduzia pro dizer simples das moças. Ele só pedia o que a tantos o nada privou: um fruto de caju, uma toiça de carinho. E para ele tudo se ofereceu pela mágica de uma primavera intensa. O menino inda no dia de chegança danou falar transverso, a debulhar tabuada por de volta. Conta fazia que ninguém contava. Falou de fim e começo, falou de pé de árvore que rosnava feito cachorro doido. Três dúzias de horas contadas, já grandão, saiu pela cidade em passada comprida e anunciando como a honrar desespero:
– O tudo acaba, o nada acaba! O tudo acaba, o nada acaba!
Foi por muita hora que se deu essa agonia do Taludo – assim o povo no pouco tempo já o batizara. Taludo andava forte e parava na beira da ponte que divisa a cidade com São Tarso de Cumeirinha. E ficava lá por um tanto. Depois voltava à agonia zanzando pela cidade: “O tudo acaba, o nada acaba!”. Até que de vez por fim embrenhou no mato.
Zozó Moscoso, o velho sábio que escorria ensinança, ao saber do inusitado da desbarrigada de Marilva e da zanzança de Taludo pela cidade, procurado que foi em morada e altar, alertou os órfãos do tudo, embrenhados que estavam em terrão do nada:
– O nada acaba como o tudo também. No mandato do tudo, carece lembrar de que dia adiante o nada vem. Há que ter cuidado e contenção. No reinado do nada, o tudo vem pelo acerto ou desacerto de Deus ou capeta. E a obra desse menino é de um ou de outro. Hora chegou de descumprir martírio: a hora do tudo chegou.
Dotô Protásio soube da história que correu cidade e a história lhe trouxe um desejo remissivo. Fungou o cangote de dona Celeste e tramelou as mais pungentes promessas de amor. Baixou o travão da porta do quarto e de tudo o que é lugar se ouviu a coitança. Saído da achegação, desembainhou o facão de abrir mata e gritou por Salésio:
– Enfileire o gado!
Salésio contou um por um. Conta certa, com vaca embarrigada de projeto de bezerro a compensar a bezerrada perdida pelo vicejar do nada.
O menino, o Taludo, dele num mais se teve conta. Foi comido pela mata que juntava pouco num pé de serra na cerca da cidade. Salésio acertou por Deus-sabe a partida dobrada da contabilidade impensável da caderneta do dotô Protásio. E jura por canto e recanto que viu, matão dentrado, uma pegada pra mais de metro.
Feito ensinou Zozó Moscoso: “Se o tudo volta, por que o nada num se tome de ir?”

Fiquem à vontade, afinal, ninguém tem razão