Gabriel e o Despacho

Não eram muito de se encontrar. Aliás, encontravam-se pouco. Diga-se a verdade: antes era comum o fato de se encontrarem, até viam-se muito. Da amizade nascida no convívio escolar nasceu por efeito o hábito de estar sempre juntos. Na noite; nos bares, de dia ou de noite; na praia; nas férias; nos sábados; nas reuniões que produzimos às pencas no alvorecer de nossas vidas de casados, onde uma prosaica compra de um novo cinzeiro propicia rito de inauguração e pretexto para reunir e reunir, coisa que depois passa. Encontraram-se por duas vezes na igreja, padrinhos de casamento um do outro. Nos domingos era menos comum se encontrarem. Simples: Gabriel é tricolor; Wilton, botafoguense.

Vida cursando, vida sendo vivida, Gabriel e Wilton deixando a vida levá-los na paz e na ira de Deus, os amigos se afastaram. Separação vez em quando atenuada por um ou outro telefonema, com o intervalo entre as ligações cada vez mais comprido. Já guardavam na memória um do outro o traço temporal que transforma fisionomias íntimas em um garrancho indefinido, um estranho mosaico espremido entre o rosto do menino que teimamos guardar e o rosto do intrometido adulto que insiste em se projetar sem ser chamado. Assim, as pessoas vão virando coisas na cabeça da gente, um misto de memória e borrão. Se na rua se encontrassem inadvertidamente, talvez não se reconhecessem de chofre. Os laços, no entanto, eram muito fortes.

Dois anos antes do fato que aqui se vai contar, Gabriel e Wilton andaram se falando mais do que o recente costume. Passavam ambos por crises existenciais, que são boas desculpas para se justificar preguiça, que é virtude que não carece justificar. O casamento de Wilton não andava lá muito bem das pernas e Gabriel vinha enfrentando dificuldades para se firmar no trabalho. A angústia de frustrações simultâneas bateu forte no peito dos dois velhos amigos, que se sentiram instados a se falar mais frequentemente. Gabriel estava diante de um grande desafio profissional: a cobertura no front das eleições em São Paulo, para onde estava sendo enviado por seu jornal. E foi de São Paulo, logo após a confirmação da vitória do Montoro, ainda com aquele sentimento reconfortante de missão cumprida, que Gabriel telefonou para Wilton e intimou o velho amigo: 

– Wilton, meu irmão, vamos passar o réveillon juntos. Faça de tudo para ajustar seus compromissos familiares, cara. Nós somos irmãos, há quanto tempo a gente não se encontra? Vamulá, é real. Vamos invadir 1983 a bordo de um longo abraço fraterno. 

Wilton assentiu assim meio descrente, pondo-se a imaginar que Gabriel obedecera apenas a um impulso em meio à euforia de ter realizado um bom trabalho. Trabalho, a bem da verdade, que Gabriel em crise se sentira inseguro ao ser comunicado por seu chefe de ter de realizá-lo. Gabriel imaginava ter dado conta da tarefa, sem nem de longe desconfiar que seu editor não pensava o mesmo. 

Nos primeiros dias de dezembro, Wilton percebeu que a intenção de Gabriel era pra valer: quatro telefonemas no curso de três dias acertaram com minúcias todos os detalhes da noite de 31. Dariam um jeito de honrar seus compromissos familiares orbitais e se encontrariam na Enseada de Botafogo, os dois casais, para a chegada do Ano Bom, com direito ao “longo abraço fraterno” da ligação pós-eleitoral. 

Tudo caminhava bem, até que lá pelas duas da manhã, Roberta e Marina – esses eram os nomes das mulheres de Wilton e Gabriel, respectivamente – acusaram-se cansadas. Pediram aos maridos que as deixassem em casa, já que moravam todos perto da enseada. Wilton, na Arnaldo Quintela; Gabriel, na Rua da Passagem. Um só táxi, em regime de lotada, resolveu a questão, e os amigos voltavam à Praia de Botafogo, dando início a uma caminhada a esmo, em que se remoíam boas recordações e desejos frustrados. Nesse ir à toa deram na General Polidoro, surpreendendo-se já na porta do cemitério São João Batista. Nada de mais, até não fossem os dois desses espíritos assombrados que associam medo a crenças que inundam de significado simbólico o inconsciente popular. Não são, Gabriel e Wilton, supersticiosos profissionais. Era o que Gabriel, agnóstico de carteirinha, pensava sobre Wilton, e o que também pensava o contador desta história. Mas Wilton, a quem Gabriel considerava uma pessoa equilibrada, acima dessas frescuras de gente inculta, num impulso surpreendente, fez revelar seu lado místico de forma tão exagerada que chegou a assustar o amigo: 

– Para, Gabriel, para! Olha ali, cara, olha bem ali! Um despacho, despacho de cemitério, coisa séria, Gabriel. Mau sinal, mau sinal…E…e…e tem até galinha morta, com marafa, pipoca e cesta de frutas. Pelo amor de Deus, vamos sair daqui agora! – ensaiou um sprint, interrompido pela mão ágil de Gabriel, que o conteve pela camisa: 

– Para com essa crendice, com esse medo tosco. Isso é só uma galinha morta e um mundo de coisas que teriam mais sentido se fossem doadas a uma casa de pobres. Tá cheio assim de vagabundo fazendo-se passar por pai de santo pra tomar grana de otário. Igualzinho a padre, rabino e pastor picareta. Uma coisa é religião, fé, mas isso é outra coisa. Para com isso, Wilton. 

Não satisfeito, Gabriel fez pior. Mal acabou de repreender a crendice, segundo sua interpretação, destemperada de seu amigo, enfiou o pé no despacho, chutando-o com uma violência que o fez espalhar-se por todo o portão do centenário cemitério de Botafogo. Wilton levou as mãos à testa e pôs-se a gritar escandalosamente: 

-Você é um louco, Gabriel, um louco! Ai meu Deus do céu! Ai meu Deus! Você é louco. Louco! Um desrespeito, não se brinca com a fé de ninguém, ainda mais quando não é coisa deste mundo. Porra, Gabriel!

Wilton dessa vez não teve seu sprint interrompido por Gabriel e saiu em destrambelhada corrida pela General Polidoro, entrando pela Rua da Passagem, por onde chegou à Arnaldo Quintela já pulando o muro baixo de seu velho e pequeno prédio. Irrompeu feito míssil na portaria, onde a chave de casa encontrava-se sob o capacho do quarto do servente.

Gabriel ficou atravessado com aquele estardalhaço do amigo, um histrionismo afetado que lhe quebrou a expectativa em relação a quem amava como irmão e admirava por alguém que sempre se mostrou equilibrado, ponderado qual um treini tibetano. Wilton não lhe telefonou por um bom tempo – não sei exatamente por quanto tempo, mas, certamente por um bom tempo, visto que o Wilton eu conheço como poucos. Chegou a tomar o sem-fio nas mãos, mas lhe soou ridículo procurar alguém que o tinha submetido àquela cena bizarra. Já Gabriel, embora considerasse um tanto insólito ter ele a obrigação de tomar a iniciativa, amizade é amizade, e, quedando romântico a uma lembrança que lhe tocou a alma com a mais inebriante das emoções, não resistiu: ligou para o Wilton. Estava, segundo Roberta, o Wilton dormindo, quando às oito e meia da noite atendeu ao telefonema do compadre. Gabriel estranhou. Sabia ele que oito e meia não era hora pra alguém como o Wilton estar dormindo. Desconfiou, mas não deu trela à desconfiança. Três dias depois, uma sexta, Gabriel reincidiu na tentativa telefônica. Roberta, já agora indisfarçando o constrangimento, informou-lhe que o Wilton saíra para comprar pão. “Comprar pão ao meio-dia?”. Gabriel recuou o flépi por umas duas ou três semanas, mas a insistência de Marina o fez voltar a ligar. Roberta, já sem desculpas, abriu o jogo: 

– Compadre, Wilton anda esquisito, dado a falar com as paredes, fazendo o nome do padre ao se deitar, logo após de acordar, em cada refeição, e, pasme, antes do banho. Estou preocupada, mas quando ele nota minha estranheza corre a me confortar, mas sei que não está bem. Dê-lhe um tempo, quem sabe a razão não lhe volta à cabeça?

Lá por maio, com o outono dando as caras pelo desfolhar do único ipê daquele trecho da Rua da Passagem onde mora Gabriel, em uma quinta, às onze da noite, toca o telefone: 

– Alô, compadre! É o Wílton, pô! Como é que vai a luta? Tudo bem com a Marina? E Gabrielzinho?. 

Gabriel, ainda que surpreendido pelo telefonema, não disfarçou a alegria: 

– Compadre Wilton, que felicidade, que bom que você ligou. Tá tudo bem, tudo na mais perfeita. E Roberta? E Hamiltinho? Quem é vivo sempre mostra a cara.

Conquanto Gabriel não desconfiasse de nada, a razão que motivou o telefonema de Wilton foi a notícia de que Gabriel tinha sido demitido por aquele editor que lhe negara espelho em sua alegria arbitrária da cobertura das eleições em São Paulo, que aos olhos de Gabriel fora um sucesso. A notícia, chegada a Wilton embalada pelo invólucro de uma inocente fofoca, era, infelizmente, verdadeira. O telefonema, à medida que avançava em assuntos e floreios, ia aos poucos assumindo um tom de gravidade que quase provoca em Wilton o arrependimento de ter ligado. A vida de Gabriel, certinha e exitosa em seu ir e vir, havia desandado. Demitido do jornal, Gabriel sentira-se demitido de sua própria carreira, de seu próprio destino, que lhe reservara em noites de sono glorioso o brilho de um Zuenir, de um Elio, de um Castello, de um reconhecimento unânime de seu talento, regado a água de cheiro em cada vírgula cirurgicamente introduzida em seu texto. Em cada impessoalidade de infinito precedido de preposição. Em cada cuidado de jamais preposicionar sujeito. Em cada esgrima de pronomes encaixados em móbiles de próclise, ênclise e, já em orgasmos múltiplos sequenciais, mesóclise. A demissão abortara uma glória que se lhe apresentava fatalisticamente.

Mas a sorte que abandonara Gabriel não lhe deixou órfão apenas de sua glória sonhada a reluzir no topo do expediente de um grande jornal. Ela afetara sua vida em tudo o que é possível o bafejo do infortúnio. O casamento ia mal; o carro havia sido roubado, e o que é pior, sem seguro; Gabrielzinho andava em companhias perigosas. Uma velha pendência com o imposto de renda transformara-se em execução de rito sumário, com direito à inclusão de seu nome na Dívida Ativa da União. O aluguel andava atrasado. Por muito pouco, o telefonema teria encontrado como resposta uma gravação da operadora. Um caos completo o enredo da vida recente de Gabriel.

Wilton, que, pressionado por Roberta, às duras penas havia superado o trauma da noite de réveillon, viu-se novamente imerso em um mundo de ameaças horripilantes. Tornou-se, após o dramático reencontro telefônico com seu compadre, mais e mais supersticioso, batendo na madeira e fazendo o nome do padre a cada gesto por mais banal que fosse, desde entrar em elevador a fumar em posto de gasolina.

1983 derramava sobre o andar inferior da ampulheta seus últimos grãos, quando Wilton, atendendo a uma imposição de solidariedade incontornável, ligou para um amigo. Queria obter informações do Gabriel. Esse amigo, o Edegard, disse-lhe ter em sua agenda um número de telefone com que conseguira falar com Gabriel há cerca de dois meses. Edegard passou o número, não sem antes ressalvar que ainda estava chocado com a atitude de Gabriel – “Isso não é coisa de tricolor!”. Wilton respirou fundo e pressionou as teclas como a lançar sobre o mar revolto que havia se transfigurado a vida do amigo uma dúzia de seguros escalés. Gabriel atendeu. Não parecia desesperado, nem exageradamente tranquilo. Recebeu o telefonema com um convite que deixou Wilton perplexo: 

– Compadre, faço questão de passar o réveillón com o amigo! Não abro mão! Jamais vou esquecer aquele dia!. 

Wilton concordou como quem assina ponto na obrigação da amizade, sabendo desde o aceite o quanto de transtorno lhe causaria com Roberta a decisão que sabe Deus por que havia tomado. O ritual da virada do ano se repetiu não como farsa, mas revestido de uma inevitabilidade que aborrecia e instigava Wilton. Acabaram às duas da manhã em frente ao São João Batista. Próximo a um rabecão da Santa Casa estacionado verticalmente em relação à parte esquerda do portão principal havia um despacho. Com galinha preta, frutas, marafa, pipoca, flores e tudo o que um bom despacho tem direito em sua metafórica salada de oferendas. Wilton avistara o despacho, mas teve a prudência de não comentar com Gabriel, na expectativa de que o amigo, na posição em que se encontrava, não teria como vê-lo, encoberto pela traseira generosa do leva-defunto. Ledo engano. Gabriel não só vira o despacho como partiu para a ignorância novamente, chutando o trabalho ainda com mais força do que o do ano anterior. Wilton julgou-o louco. Dissimulou, não sem dificuldade, todo o repertório de pavor que o levaria em condições normais a aprontar novo chilique. Puxou o amigo pelo braço e o interpelou: 

– Gabriel, você ficou doido, cara? Não bastou o que lhe aconteceu no ano que passou?  Foi pouco, porra?

Gabriel olhou-o com desdém, com uma aura de superioridade que o aterrorizara. Tinha a fisionomia serena de um anjo de Aleijadinho. Pôs as mãos nos ombros do amigo já a apertar-lhes qual um torquês. Lívido, sentenciou:

– Wilton, porra, o Fluminense foi campeão carioca, cacete! O que é que eu quero mais? Foi do caralho o ano, cara, do caralho! E tem mais: agora que eu chutei esse despacho bonitão, nós vamos ser campeões brasileiros, Wilton! Campeões brasileiros, porra!

– Chega! Nunca mais, Gabriel. Você está doente, doente! –  Wilton saiu em passos firmes pela General Polidoro, balançando a cabeça em desaprovação, em ritual de adeus ao recente ex-amigo.

O que aconteceu com o Fluminense em 84, todos sabem. E também em 85, depois de um despacho mais simples ter sido chutado por um solitário Gabriel na virada do ano em frente ao portão do velho cemitério. Mas vieram os anos 1990 e o tempo de martírio tricolor se estendeu por não mais acabar, o que o Edegard atribuía ao gesto tresloucado do Gabriel naqueles malditos réveillons. Wilton e Gabriel não mais se falaram. Soube pelo Carlos Augusto, outro querido amigo comum, que Gabriel havia se internado em 1999 em uma comunidade Hare Krishna, onde aprendeu a tocar pandeiro e fazer segunda voz de mantras. Por lá ficou até 2006, quando pulou do estribo da opção monástica para cair com as fuças na orgia, não sem antes tentar combinar com o Wilton o encontro da virada do ano.

Em vão: Gabriel estava bloqueado no celular do ex-amigo. No que, cá entre nós, Wilton fez bem. 


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