Desconexas 01

Vez por vez bate a saudade de chegar em São Pedro da Aldeia e minha mãe me receber com café e coração quentes. Com meu pai, no crepúsculo de céu abarcante, pedindo gelo ao Vaval, para, quando o café deixasse a boca, dividirmos um Johnny Red no deque que orlava a piscina de azul transparente. O meu quarto era inundantemente vazio de espera, quieto, calado, meu. À tarde, o café vinha com bolo quente, como devem ser os bolos de mães. A caneca de ágata queimava os dedos em preço de aceitar o aroma único do café de mãe, café que recendia cheiros de nunca mais tê-los. E andava por aquele quintal com araçazeiros e árvores anãs de frutas-de-conde. Havia coqueiros também. E mangueiras carlotas e espadas. Muitos patos e galinhas. Marrecos e gansos, menos. Voltava à casa, meu pai puxava conversa malemolente, baiana, mas sabia que antes do anoitecer eu precisava ir à sombra da amendoeira, onde um banquinho de ripas me recebia com meu violão que carregava quando por lá acalmava a saudade. Aqueles acordes levados pela inquietação dos ventos dos lagos grudavam em mim feito cica dos cajus em brota, em idade de vez.

——

A saudade nos imprensa contra o infinito, uma dor que nos fustiga com ainda mais intensidade quanto mais fácil pensamos dela nos libertar. 

——

Quem viveu de nunca emoção de chegar numa rodoviária, mochila de bastança, e ser tocado pelo mundo arredio de razão que estava ali, por um condão de sair de casa e tomá-lo às mãos, não viveu por conta de saber o entremeio das coisas. Mas sabença é obra de esguelho, de atentar o que se esconde, não é piçarra sem volteio. 

——

O anonimato tão desejado pelo irmão querido Carlos Augusto Montenegro em seu gesto de solidariedade a famílias atingidas, em 2011, pela calamidade da Região Serrana foi interrompido por uma inesquecível crônica do Zuenir. Três famílias vitimadas pela perda ganharam casa nova e um estímulo para refazer suas vidas. Uma dessas famílias perdeu não apenas sua casa, mas todos os seus quatro filhos levados em tragédia pelas águas implacáveis. Um desses filhos, tomado das mãos desesperadas da mãe. Dor inabrandável. O pai, que havia se vasectomizado há certo tempo, ganhou ainda, pela extensão da humanidade do Carlos Augusto, a cirurgia de reversão. O novo filho que chegou um ano depois jamais apagará a dor da ausência dos quatro, mas devolveu pulsão de vida a um jovem casal devastado pela perda. Há certos corações onde a bondade se instala desconfortável, quase uma estranha. Há outros, plenos de bondade. O Carlos Augusto é um desses corações. Bastava ser filho do seu Paulo e dona Desirée, e ser pai do Bernardo, André e Marcelo. Mas não, ele vai além, ele ainda consegue ser Carlos Augusto Montenegro.

——

Quando grande parte das pessoas ouve um relato de constrangimento ou violência de uma vítima de racismo, a primeira reação é “Imagino”. Imagina porra nenhuma! Impossível imaginar não sendo a vítima ou não estando na geografia social de quem sofre a injúria, a dor do preconceito. Ou melhoramos e matamos o preconceito no pensamento, ou esse preconceito brota no primeiro descuido. Civilização ou caos, a escolha.

——

Mentira deslavada afirmar que a vida do idoso não tem emoções. A tensão excruciante a cada 3 meses pelos resultados dos exames, o olhar do médico para o monitor do eco e da chapa da tomografia, o tamanho das mãos do proctologista, a sudorese na farmácia pelo aumento dos remédios, o medo de que o genérico não produza efeitos, o terror de subir num banquinho para trocar uma lâmpada, o estresse por ter que se abaixar para pegar o que deixou cair das mãos e sempre vai para debaixo da cama ou da bancada da cozinha, o pavor de perder uma promoção no supermercado quando já se está no caixa pagando as compras, o horror de alguém querer conversar no elevador, a manobra terrivelmente arriscada ao precisar atravessar uma rua fora da faixa, o pânico de ser atropelado por uma moto que não respeitou o sinal, a paúra de ser reconhecido por alguém que não vê há anos e esse alguém esticar conversa fora de nossa irrefreável disposição de não tê-la.

——

Não representa tarefa de pouca monta se tornar uma anta. Ou já se é, ou demanda esforço e dedicação. Muitas vezes se é anta por teor de escritura lavrada em cartório, quando se associam aos nossos nomes, para efeito de praticados e provados, os nomes dos que nos geraram. É mais fácil o caminho, se filho de antas. Se assim o for, libertado estará das mais temíveis agruras e obsedações. Se constipado mental de nascença e crescença, a vida se faz alegre e alvissareira, correndo suave como água de riacho de quadro impressionista. Mas se herdamos dos pais a inquietação, a mania de contrapor coisa com coisa, o sestro de pensar, o desfrute do ócio, o impulso de desrebanhar do rebanho, de fazer da insatisfação o vestíbulo; se isso se dá com a gente, a obra de se tornar uma anta torna-se épica, um esforço de Sísifo, um tijolo-por-tijolo de muralha de ombrear a da China.

——

Ando pensando em agrupar num vade-mecum da felicidade descompromissada, qualidade orgânica das antas humanas, um juntado de conselhadas e imiscuições pra intento de facilitar a vida dos que desejam abandonar a água desafiadora da inquietação para mergulhar de sunga ou biquíni de grife no Caribe da obscuridade alegre. Me dedicar a escrever um livro que, para mim – e isso é o que interessa – já nasceria clássico em tempos de ditadura da opinião inconsequente: “Pequeno Breviário De Como Se Tornar Uma Anta”.

——

O canalha é dócil, frequentemente solidário, viscoso feito água-viva. Aproxima-se dissimuladamente, seduz por estratégia torpe, antes do golpe fatal, escancarado em veneno. Divide conosco o ambiente pegajoso de nossas vulnerabilidades, apresenta-se confortante por estrabismo de intenções. Suga quando parece doar. O canalha é a gripe da civilização.


Descubra mais sobre Ninguém Tem Razão

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.


Comentários

Fiquem à vontade, afinal, ninguém tem razão

Descubra mais sobre Ninguém Tem Razão

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue lendo