Em 2024 o Brasil comemora orgulhosamente 40 anos de um marco da nacionalidade: comida a quilo.
Brasileiro vez por pouco acerta pelo revés, mesmo com esse acertar ser de travo indigesto. Foi assim com o bombardeio impiedoso que nossa informalidade impôs às catedrais do fésti-fúdi. Armamo-nos de sentimento patriótico, criatividade e logística para impor aos Macs e Dominos derrotas acachapantes. Com nossos estômagos moldados pela lida diária de consumir coxinhas e joelhos eivados de suspeição, partimos solenes para o enfrentamento da cultura asfixiante dos gigantes da comida às pressas. Com garbo e louvor. Fomos heróis. Nossos podrões x-tudo urdidos nas towners das esquinas verde-amarelas, derramando gordura trans pelas bordas, tomaram às mãos a defesa da honra nacional e grudaram no gosto e no bolso do povão. Foi o suficiente para que as grandes redes intentassem nestas terras alguns de seus mais instigantes queises, enredadas em dar vazão a suas expectativas de nos engordurar em larga escala pela via da embalagem asséptica. Submetemos aos hambúrgueres ianques as mais impiedosas humilhações. Tudo por um real. Hoje, com as quentinhas nas ruas, dez ou quinze, vinte mangos, no máximo. Com direito a copão de refri. Bem que o preço pago tenha sido a escalada aos píncaros do ponteiro da balança nacional, consequência menor diante da suprema afirmação de soberania.
Mas o embate mais encardido dessa jihad gastronômica se deu no território nacionalíssimo da comida a peso, onde vicejam os novos classemedianos que alçam às camadas do meio pra cima da pirâmide em regime de tropa. Brasileiro esperto fez as contas pelo inverso e descobriu o óbvio que ululava por ser a verdade das verdades: decomposto o preço da refeição diária pelo preço de cada um de seus diversos componentes, constata-se que a soma desses preços é menor que o preço do todo que nos é cobrado quando servido à la carte. Como é que se apronta, então? Fácil: fragmenta-se o prato pelas unidades que o compõem, e se entrega ao freguês o livre arbítrio de combiná-los, pagando pelo peso. Bíblico e matemático. Pronto. Brasileiro garrou na onda e correu em hordas aos “sélfis-sélfis”, entronizando-os no altar de suas adorações. Comendo comida com jeito de comida, não de lanche. Comedor de pouco faz prato miúdo. Comedor de meio faz prato remediado. Comedor de muito, bem…comedor de muito é outra história.
Comedor de muito tem lá suas dificuldades em aceitar a ideia de se dar conta do tantão que está comendo. Nós, os gordos seminais, nos apegamos a teses insustentáveis, se postas diante da verdade científica de uma balança digital, com seus implacáveis algarismos a nos denunciar em nossa gulodice desassumida. Somos defensivamente cínicos. Por vez disso, contam-se menos gordos em restaurantes que associam conta à quantidade. São os gordos mais propensos a quentinhas generosas e bufês de preço fixo, onde sempre começam pelas saladas-álibis e vão agregando maionese, cebola à milanesa, batata frita, cremes suspeitos, entre um e outro gole de Coca Zero. Vez por quando um tanto de rabada ou uma costela bovina precedida da prudência protocolar de checar se a dita está magrinha.
O que me irrita nesses templos hedonistas dos magros é que os canalhas ainda pagam menos que eu, não bastasse eu gastar mais com remédios e panaceias que eles. Pior: alternadamente aos comentários mais idiotas sobre a malhação do dia, as virtudes gliceridiais da couve-de-bruxelas, afundam-se em dúvidas metafísicas diante das opções mais banais. Emperram as filas pela hesitação entre a alface crespa ou americana, entre a berinjela azeitada que lhes empresta tépido temor e a abobrinha esquálida. Nós, os gordos, sofremos com a ansiedade de nos ver centimetricamente afastados da macaxeira frita, do empadão e do bife acebolado que nos aguam a boca e nos fazem sacudir o prato em remedo de abano. Um martírio o tempo em que somos obrigados a esperar para ter acesso a nossos rechôs gordurosos pela encheção de saco de magros em feitio de incerteza frugal, perdendo horas com sua hesitação.
Revoltante que magros demorem uma obra de igreja nos bufês a quilo para no fim adicionar ridículos duzentos gramas ao peso do prato, um arremedo de ração. Por purgação desse martírio, andei matutando jeito de enredar os magros em sua faina litúrgica de comer pouquinho aporrinhando os outros. Confesso que não demorei por dar conta da tarefa. Vou na onda. Rasgarei minha carteira de trabalho. Já devidamente empoderado por palestras de coaches motivacionais. Rompidos os grilhões da segurança de meus direitos laborais, me juntarei ao universo encantado dos empreendedores. Chupem, 13º, Fundo de Garantia, férias e SUS! Agora é tratar de investir meu último cobre, por moderno, em negócio de inovação: um restaurante a tempo, em que se pague pela medida que se demore o fazer o prato no mesão central. É cravar uma célula fotoelétrica na linha de partida, a uns trinta centímetros do primeiro rechô, e o desinfeliz socar o pino feito jogador de xadrez. O tempo corre, com o sacana pagando por cada quinhão de dúvida, desobstruindo o caminho para a gula dos vorazes. Ao fim do bufê, para saber o preço, basta apertar outro pino que uma traquitana eletrônica multiplicará o tempo pela unidade real/segundo que empreendedoristicamente inventei. Posta a buzanfa rala na cadeira de plástico que irritantemente a eles não reage, mas nos ameaça com rangidos que anunciam queda pirotécnica, podem demorar à vontade.
Já tenho até nome pro empreendimento: Tempo de Comer.

Fiquem à vontade, afinal, ninguém tem razão