Passo por aquele museu três vezes por semana. Às vezes passo quatro, jamais cinco. Basta para que repare no que ocorre em seu entorno. O museu se instala feito ilha no centro de um estacionamento que o circunda e se dispersa por ruas estreitas. O desenho do estacionamento é irregular, curvo e reto em suas margens de meio-fio. Os carros se amontoam de forma a que se entranhem em grade densa. Retirá-los daquele mosaico requer delicada orquestração de flanelinhas. São eles que detêm o monopólio e o engenho de se infiltrar naquelas varizes finas. O museu semelha um iglu por onde num bloco faltante se insere uma rampa que o abraça tal abraço de serpente. Por lá chegam as pessoas. Nele nunca entrei, e me conforto por imaginá-lo depositário do que me convenha. Não lhe perscruto agenda. Ele se torna o que imagino, assim me sinto mais leve. Sei-o porque o invento. A cidade não é uma cidade de pessoas. As pessoas apenas coadjuvam o concreto e o aço. Sei que o museu recebe pessoas porque pontos pretos se movem rampa acima e abaixo, e concluo que o muro da rampa lhes alcance os ombros. São cabeças de pessoas aqueles pontos pretos da rampa. O que deduzo à distância que me impõe a conveniência que estabeleci. Jamais à noite paro no entorno do museu, sequer por ele passo.
À distância que me impus, não cruzo com pessoas, mas as observo no sair e entrar dos carros. Reencontro vez por muita, na rotina de observar o museu, um cão malhado. Cão de porte grande. Suas formas misturam nuances de muitas raças. Um cão de rua, não me parece jovem. Fico por ali coisa de quinze, vinte minutos. O cão muitas vezes me olha com olhar de reconhecimento. Outras, simplesmente passa por mim. Hoje, quando me postei no ponto de observação de onde vejo o museu e o imagino em suas entranhas, o cão estava mais perto que de costume. Não lhe dei atenção. Olhava as cabeças em movimento de esteira rolante a imaginar hoje o museu abrigar aros de carroça do altiplano andino. Nem me ocorrera se no altiplano andino tinha carroças, ou se lhamas bastassem por mover as pessoas e cargas. Pensei em aros ornados, talhados, esculpidos, salientes, de raios inconstantes. Antes, especulei por lá, no museu, cabeças taxidermizadas de dragões de Komodo, espartilhos de centuriões, galhos exóticos de goiabeiras. Ouvi uma tosse. Não há pessoas onde fico, só eu e o cão. A tosse era de gente, o que me deixava a opção de ter tossido ou suposto. Não tossi, logo supus. A tosse se repetiu. Virei-me rapidamente e vi e ouvi o cão tossir como tossem as gentes. Num grunhido esquisito, o cão oferecia forma inteligível ao que grunhia, embora semelhante a um latido amarfanhado.
– Desculpe-me, senhor, mas é pigarro. Desde que os carros se multiplicaram por aqui, não consigo me livrar deste pigarro.
– Cão, você deve evitar ficar por aqui o tempo todo. Os carros nos fazem mal. Mas, perdoe a indiscrição, os carros já se amontoam por aqui há uns vinte anos, muito mais que o tempo de vida de um cachorro.
– Não se preocupe com minha idade, senhor. Eu estou por aqui há muito tempo e por muito tempo por aqui ficarei. O tempo necessário para que nos devolvam o que nos tomaram – grunhiu o cão.
Antes que pudesse contestá-lo em suas contas amparadas por intrigante charada, o cão emendou:
– O diretor do museu é um homem estranho. Um bom homem, um homem que deu vida a concreto amorfo, que instilou humanidade numa reprodução de meteorito cravado pela metade sobre solo estéril. Mas tem medo de avião. Eu não gosto de avião por nos aviões se reservarem aos cães os lugares mais desconfortáveis. Somos jogados junto à bagagem, apertados em caixas que não nos deixam sequer espreguiçar. Passamos frio, sede e fome. Se fosse humano, não teria medo de aviões e destinaria aos cães um lugar mais confortável. Outra coisa que me inconforma: a facilidade com que vocês fazem sexo fora do cio. Para nós, cães, acredite, carece empreitada onerosa. Mas isso é outro assunto. Só não quis perder a chance de interação rara com um humano.
– Cão – posso lhe chamar assim? -, muita gente tem medo de avião. Não há estranheza nisso. Agora, se há muito você está por aqui, deve saber o que se passa naquele museu. Eu só lhe peço que não me diga o que passa por lá, pois a mim basta imaginar o que passa.
– Não queira saber. Não lhe é conveniente saber. O homem é estranho não apenas pelo medo de avião, motivo para mim suficiente, mas por permitir que à noite por lá se instalem as mais exóticas coleções de coisas.
– Como assim? – cedi à curiosidade.
– Imagine o senhor que há três anos, desde que o diretor assumiu o museu, se alternam às noites exposições de cabeças taxidermizadas de dragões de Komodo, espartilhos de centuriões, galhos exóticos de goiabeiras e aros de carroças do altiplano andino. Imagina se no altiplano andino tem carroça?
O cão interrompeu com um latido proverbial o grunhido que me permitia entendê-lo e voltou a ser um simples cão de rua. Foi conveniente, pois a mim já se tornara enfadonho esticar uma conversa que não levava a nada.

Fiquem à vontade, afinal, ninguém tem razão