Palhares e a Sociedade da Ereção

Exaustos estamos de saber: a preguiça é mãe frondosa da tecnologia. Não fosse nossa ferrenha obsessão em reduzir esforços na prática dos atos mais comezinhos de nossa lida diária, estaríamos ainda hoje morando em cavernas e caçando nas savanas a refeição do dia. Jamais nos conformamos com o fato de que nada nos seria servido sem a imposição do esforço, de que a reposição da energia necessária para que em todas as manhãs icemos a buzanfa da cama nos cobraria uma carga de empreendimento que nos aporrinha. Deus não dá nada pelo facilitário. Exaustos de saber.

Mas essa tal da tecnologia vive aprontando novidade onde novidade não mais caberia por desforçosa. E vamos pisando por estradas turvas, farejando caminho novo com narina de sabujo, a fungar a nuca do inconhecido com a curiosidade típica dos cretinos. Nesse ramerrão, por vez de pouco, acertamos o prumo. Por outra de muito, batemos com as fuças na parede. É assim com a obsessão de não querer envelhar. Tudo nesta aquarela de Deus tem seu tempo e sua hora. O sol vai e vem, vem e vai a lua. Não conheço nuvem querendo nuvear por mais de tempo que uma brisa altaneira lhe conceda. Vivem por tempo certo a mosquitada, o sapo, a cobra, o leão e o porco, este se não lhe encomendarem toucinho. As gentes, não. As gentes se inconformam com o passar inescapável do tempo, e lhe impõem obstáculos para que seu passar não se dê por via desobstruída. Coisa destes dias: poucos admitem envelhecer. Envelhecendo, por obra certa das coisas naturais, recusam-se a morrer. E vão estendendo suas vidas para um horizonte além do traçado por Deus quando aviou a receita da criação. E tome de botox, harmonização, salada, suplementos, academia, marcha castrense, abstinência, pilates e detox. Tal obsessão muitas vezes nos envelhece mais que o sacrifício que empreendemos por ela. Por dias remotos, costume era enfiar a velharada num abrigo ou confiná-la num catre imperceptível nos fundilhos das casas. Sem a proteção social da idade viçosa, aos velhinhos que escapavam dos abrigos restava o assentar-se num canto e desfiar história pra menino com sobrança de tempo. Hoje não. Hoje há opções. Hoje, os velhos, escoltados por smartphones, se espalham pelas cidades, zanzam felizes pelas farmácias, Casas Pedro e Hortifruti. Quando não a pé, usando na condução sua prerrogativa de gratuidade. Com a tecnologia ao alcance dos poros, velhinho quer também jogar vídeo-game, zapear nos streamings, especular invencionice no airfryer e esquentar café no microondas. Mas não basta, quer inda mais: quer saliência. À ação inexorável do tempo, respondemos aguerridos com renitentes esforços para torná-la menos inexorável. Pior pra nós, os de idade longa, que vemos nossa ansiedade subir aos píncaros pelo medo de inconseguir o que pela possibilidade de fazer se tornou normal ou desafio a cumprir.

Lembrei do assuntado por dia desses ter cruzado com o Palhares, velho boêmio das noites cariocas. Ele é um tanto de tempo mais velho que eu. Palhares se empavonava pelas ruas e bares do Rio por ter “passado na cara” mais de 300 mulheres, sem nunca deixar de arrematar: “Parei de contar em 300”. Depois dos rapapés de gente que não se vê por quadra longa, ele tratou de destilar seu inconformismo com o andar das coisas, com a cisma de novos velhos atinar saliência. Fiquei chocado com a surpreendente eloquência do Palhares em sua peroração contra essa – agora, segundo ele – desídia do velho irresignado com a broxura: 

– Ah, Beto, Beto, você sabe o quanto fui escravizado pela compulsão sexual, o tanto de bobagem que fiz na vida para satisfazer minha obsessão por mulheres. Paguei caro, vivi numa permanente tormenta, magoando os que me amam. Jamais experimentei a verdadeira paz. Pois é, agora que broxei, que me livrei enfim do inferno da obstinação, uma vergonha o que se vê por aí. De parte que é minha, defendo a broxura como um direito, rito de passagem masculino tão importante quanto a irrupção do primeiro pêlo pubiano. Entendo ser mais que isso, entendo ser uma conquista. Nós, homens, passamos a vida oprimidos pela imposição do desempenho sexual, massacrados pela suposição da ereção automática, atormentados pela ameaça da ejaculação precoce, humilhados pela sublimação masculina no prazer das mulheres, tensos pela comparação aviltante do tamanho do pênis com os dos filmes pornôs. Somos cativos da compulsão sexual, que nos transforma em idiotas a elaborar subterfúgios e estratégias não menos idiotas. Tudo por umazinha.

Estarrecido, assisti a um já exaltado Palhares passar graxa na argumentação: 

– Na natureza a regra é cruel, mas sábia. O macho alfa é provado constantemente na lida de dar uma de rapidinho. Submetem-se à disputa mortal com os mais jovens que se habilitam a lhe empatar o coito, aborrecendo-o com a função. Você leu “Tótem e Tabu”, Beto, leu? Tá tudo lá. Freud desenhou! Para sermos aceitos no grupo, para termos direito à iniciação sexual que nos cola ao grupo, temos que matar os pais, ainda que simbolicamente. Na natureza é assim: quando a norma natural de aliviar o saco não se dá pela luta cruel, muita vez contra o próprio pai, se dá pela via do ridículo. Só reparar no volteio bizarro do iguano, na inchação exibida de um peru ou pavão, nos tremeliques e rodopios da passarinhada, na bateção de peito dos mandris e gorilas. Tudo pra bajular a femeada e garantir o enrosco. Humilhante. Tá certo que na luta por um achego o macho homem não enfrente tarefa mortal, mas não deixam de ser patéticos os artifícios a que recorremos pra mitigar os efeitos da sobrecarga testoterônica. E tome de abdome tanquinho, perfuminho da onda, grife indiscreta, carro turbinado, cabelo glostorado, academia com fantasia de atleta, encompridamento do porongo, e tudo que é raça e modo. Enfim, o que possa deixar claro que somos melhores que os outros, até que o outro, pelos mesmos símbolos, semelhe melhor que nós. 

Puxando-me pelo braço, trazendo-me para tão perto como a quem se vai contar um segredo, Palhares foi em frente:

– Nessa borrasca de sensações incontroláveis, perdemos família, emprego, amigos. Tornamo-nos zumbis, cretinos. Ao dela nos desvencilharmos, tomamos nas mãos a verdadeira liberdade. É dura – desculpe, Beto – a vida dos machos. Por anos intermináveis, movemo-nos pendularmente pelas tormentas do desejo e da performance. Quando conseguimos enfim nos livrar dessas imposições insidiosas, quando, enfim, conquistamos o direito de broxar sem por isso pagar um preço social ou rebaixar-se moralmente – o que fazemos? Em vez da submissão honrosa ao destino, inventamos moda de reverter o curso da natureza. Imaginem o que não estão sofrendo as mulheres maduras com a ressurreição de um morto que já tinham cravado sete palmos abaixo de suas aquietações menopáusicas? O que elas não passam por ter de retornar a hábitos que lhes constrangem ao irrompidos após o ato? O que não sofrem os corações combalidos dos velhinhos por ter de suportar um esforço intempestivo? O que não padecem as jovens esposas a refazer cálculos de vida útil pela renitência de velhotes anabolizados?

Ainda aturdido pela surpreendente volúpia argumentatória do Palhares, restou-me apenas vê-lo completar:

– O que constrangidamente assistimos na pontuação desses ritos é a irrupção de uma nova sociedade, a Sociedade da Ereção. O que se vê? Um espetáculo grotesco de machos decadentes com falos sustentados por bengalas azuis. Matuzaléns sirigaitas a perturbar a ordem natural das coisas pela recuperação de um estímulo que já não lhes cabe. Contradições ambulantes a tocar a urticária da tentação pela mímica da potência. A esses velhos, Beto, em nome da dignidade crepuscular do gênero, eu rogaria que restrinjam seus impulsos selvagens aos dos velhinhos realmente modernos: caminhar moderadamente, frequentar farmácias e fazer compras nas Casas Pedro e Hortifruti, usando o celular para usufruir do transporte gratuito e pagar suas compras. Estando em casa, controlem as tentações que só lhes trazem volúpia deslocada, seguida de frustração. Em vez disso, usem o airfryer, assistam a séries, caguem regra nos grupos de WhatsApp, bebam uma taça de vinho, leiam bons livros, joguem videogame. 

Tentei contra-argumentar:

– Mas, Palhares…

Foi tarde, ele saiu marchando sobre as pedras portuguesas como um centurião de suas convicções. 


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