Minha última publicação foi uma homenagem ao gênio Maradona na semana em que ele completaria a idade icônica de When I’m Sixty Four, clássico do Sgt Peppers. Me lembrei de quando fiz os mesmos 64 anos da canção imortal e escrevi o texto que reproduzo a seguir.
Faço amanhã 64 anos, a idade da canção emblemática do Sgt Peppers, uma idade em que pensei não chegar, mas que acabei chegando ainda que em descompasso entre o que penso poder e o que posso. Por conta desses 64 anos, tenho ouvido com frequência frenética o repertório dos Beatles, pensando em como cada música me prendeu ao mundo, em como cada música me acrescentou de prazer, surpresa e rumo.
Tinha 13 anos quando tomei às mãos o Sgt Peppers. Um choque. Nada mais foi como antes. Os Beatles já vinham sinalizando a mudança desde Rubber Soul, que ouvi ainda na edição americana trazida ao meu mundo pelo cuidado do amigo-irmão Zé Luiz, à época, dos poucos meninos do nosso território que viajavam aos Estados Unidos. O Zé trouxera o Alma de Borracha uns seis meses antes de sair no Brasil – naquele tempo era assim. Voei do sexto ao nono andar assim que ele chegou com aquela arrebatadora bolacha com os Beatles num plano superlativo sobre um fundo de mata. Tudo acachapantemente verde. Ansioso por ouvir aquela novidade, mal o devo ter cumprimentado pela volta. “Bota aí, Zé, bota aí pra tocar logo”. O disco já começa com o som robusto de Drive my car, um petardo. A boa e velha levada rock dos Fab Four (Drive my car, You wont see me, Word) continuava por lá. Incríveis canções se sucediam em um não terminar – o disco contém algumas das mais lindas canções pop dos anos 60(Michelle, Girl, In my life, If i needed someone, I’m looking trough you, Nowhere man, Norwegian Wood). No Alma, os Beatles reforçavam seu flerte eventual com a country music(What goes on, Run for your life), presente no repertório da banda em Kansas City, Misery, Devil in her heart, Honey don’t, I’m a looser. Mas o que aquele disco carregava mesmo eram os sinais de mudança da banda que mais influenciou os rumos da cultura pop no mundo. O timbre tradicional ganhava nuances novas. Muitas músicas acústicas, o uso recorrente de cordas e teclados seminais(piano, cravo), e o primeiro aceno ao experimentalismo: Think for yourself, com o Paul usando um fuzz bass(ou bass overdrive), um som distorcido, rascante. Naquele disco definitivo pontuado de harmonias etéreas os Beatles deram a pista para as mudanças que viriam. E que mudanças. Mudanças que sacudiram o mundo, forjaram a contracultura e reinventaram a música pop.
Os primeiros discos dos Beatles já eram poderosos em sua sonoridade eclética, harmonia sofisticada, belas melodias, swing, frescor juvenil, tudo sob o tempero de raros carismas pessoais. Mas a partir do Rubber Soul o que se viu e ouviu continha uma intensidade de um fenômeno natural de proporções inimagináveis. Um Big Bang sonoro, antropológico, uma reinvenção planetária. Os meninos de Liverpool se tornaram adultos no rastro de uma produção prolífica em menos de quatro anos. Rubber Soul, Revolver, Magical Mistery Tour, The White Album, Sgt Peppers, Abbey Road, Let it Be. Sete álbuns revolucionários. Todos excepcionais, não importa o rumo que tenham tomado em suas aventuras experimentais. Há em cada um deles o ótimo rock das origens do grupo, menos ou mais pesados(Taxman, Dr Robert, Magical mistery tour, Back in the URSS, Savoy truffle, Revolution, Helter Skelter, Sgt Peppers, She came in trough the bathroom window, Carry that weight, I’ve got a feeling, One after 909, Get back). Há neles ainda o mais prolífico e precioso repertório de maravilhosas canções da história do pop mundial. Dezenas de canções definitivas, nascidas clássicos. Só pra não deixar barato: Eleanor Rigby; Here, there and everywhere; Good day, sunshine, For no one; With a little help from my fiends; Lucy in the sky with diamonds; She is leaving home; A day in life; The fool on the hill; I’m the walrus; Penny lane; Strawberry fields forever; While my guitar gently weeps; Blackbird; I will; Julia; Good night; Something; You never give your Money; Across the universe; Let it be; The long and widing road.
Há, de sobra, muito experimentalismo, acentuado a partir do Revolver, quando aparecem mais fortes os traços jazzísticos, camerísticos e o início da influência da música indiana. Dali para frente, o que eles passaram a fazer não caberia mais em nenhuma classificação tradicional. Tornaram-se cada vez mais autorais, desreprimidos dos grilhões do mainstream, e chegaram aonde ninguém jamais ousou chegar. Em quatro canais.
Quis o destino que no cinquentenário do Sgt Peppers, o álbum que refundou a modernidade, eu estivesse bem longe do velho apartamento da Rui Barbosa, onde o ouvi pela primeira vez, também no apartamento do Zé Luiz. O destino foi generoso o bastante para me levar a Liverpool, a Jerusalém da minha crença roqueira e vivencial. E não estava sozinho, estava ao lado de amigos de uma vida, de amigos que dividiram comigo a influência daquela banda que saiu da caverna de uma rua estreita de uma cidade portuária do noroeste inglês para nos guiar por nossas incertezas e perplexidades. E por nossos prazeres. O destino ainda foi menos inconsequente por me fazer voltar algumas vezes a Liverpool.
Amanhã, junto-me aos irmãos Carlos Augusto, Riva, Edegard, Bonilha e Pedro, na plataforma instável dos 64 anos. Antes, já passaram por ela os queridos Edu e Laurinho. De lá, vamos esperar generosamente a chegada ano que vem dos caçulas Antonio e Durcésio. Todos nós chegando mais amigos que nunca à idade longínqua que inspirou, em tom de ironia, o jovem Paul, em 1967, naquela faixa de levada ragtime do Sargento Pimenta.
Ouvindo muito os Beatles por esses dias, refleti bastante sobre chegar aos 64 anos. Aprendi, nos 51 anos que me separam hoje do choque de ouvir pela primeira vez Sgt Peppers, que a vida é mais parecida com os álbuns dos Beatles que poderíamos supor. Há na vida a agitação do rock, o risco do experimentalismo, a dureza dos desencontros e a leveza das belas canções. A vida é Beatles, e as pessoas que amamos e a tornam leve são nossas lindas canções. Ainda que algumas dessas pessoas se desprendam fisicamente de nós, elas continuam tocando diariamente em nossos ouvidos pelo som renitente da saudade. As que permanecem ao nosso lado pelo tempo que vivemos, impõe-se saber ouvi-las, amá-las, percebê-las como o rochedo ao náufrago, o porto ao navio, o conforto à angústia.
Minha vida não foi diferente, foi abundantemente Beatles. Em alguns momentos, agitada como o rock; em outros, arriscada como as experiências; algumas vezes abalroada pela aspereza da separação. Muita vez, para meu conforto e epifania, minha vida foram lindas canções. Meus filhos, por serem razão e estímulo; Tereza, pelo amor que dividimos; e os amigos, próximos ou distantes, por extensão da família; todos e todas foram para mim essas lindas canções. Versos de redenção cravejados sobre o álbum branco da vida que vivi.

Fiquem à vontade, afinal, ninguém tem razão