O vaticínio do neuro-ortopedista desabou em mim com a carga dramática de uma praga bíblica:
– É uma neuropatia, você não vai conseguir fugir de uma medicação forte. Talvez 75 dias, bom contar com 90 dias.
Faz uns anos. Torturado por dores excruciantes ao longo de quinze meses, vinha me refugiando em toda forma de tratamento alternativo. Da acupuntura ao passe mediúnico, passando por chás de cogumelos suspeitos, meditação vipassana, palestras de coach, reza braba e auto-flagelação. Nada, absolutamente nada me aliviou das sevícias infligidas pela dor indescoberta. Estava desesperado. Tornei-me um Messi de laboratório, entrando e saindo da tumba tecnológica da ressonância com um desembaraço de empolgar enfermeiro. Nada mais me restava senão ceder ao veredito peremptório do especialista.
Vocês, caros amigos, caras amigas, devem estar se perguntando o por quê de tanto desespero ao me ver confrontado com a receita do tratamento que me livraria de sofrimento lancinante. Simples. Essa medicação forte indicada pelo médico nada mais era que eufemismo para abstemia total pelo prazo da prescrição. Uma sentença. Não que seja alcoólatra. Não se trata disso, felizmente. Assunto grave, alcoolismo é doença crônica. Fora da sobriedade, chaga, rio caudaloso que arrasta vidas e destrói tudo ao seu entorno. Mas, por outro lado, tenho cá minhas diferenças com a sobriedade crônica. Jamais entregaria à sobriedade o monopólio de poder decidir sobre o que fazer de mim no esforço cotidiano de me manter vivo e inquieto. Não à toa o grande embate da humanidade desde as cavernas foi encontrar meios de se libertar da sobriedade – desde que guardado o caminho de volta. Hoje, com as redes sociais nos empurrando de volta para as cavernas, há outra luta de porte semelhante, a luta contra a cretinice. Mas é conversa de outro tratado. Gosto de beber, e gosto tanto que jamais me prenderia ao hábito ao ponto de por dependência dele um dia precisar abandoná-lo até o fim dos dias. Gosto porque gosto do que o álcool no ponto certo me abre com suas incerceáveis perspectivas, de seu caráter agregador, por sua capacidade de estreitar laços e fazer dos chatos algo momentaneamente palatável. Ressalvado o que era para ressalvar, não me restando alternativa em face do arbítrio do médico, cuidei de me apresentar à sobriedade como quem chega cabreiro numa recepção cerimoniosa, de bermuda e Havaianas numa noite de gala. Antes, para não perder tempo com mesuras protocolares, tratei à época de lhe escrever uma carta.
A carta.
“Abre as asas sobre mim, ó, Senhora Sobriedade. Chego respeitando seu chão de abrigo para tantos que o têm como inescapável. Receba-me em seu colo áspero de frustrações rugosas, de tolas convicções, de amorfas sabedorias e hábitos severos. Chego sem jeito, chego humildemente, rendendo-me por tempo sabido às regras de seu território. Tenho algumas dúvidas que repartirei apenas comigo e outras que dividirei por formalidade com os ditames de seu poder constituído. Morasse em seu país pela vida que me coube viver, como seriam os delirantes espasmos de felicidade a que o álcool me elevou por seu caráter caloroso e libertário? Como eu agiria naquela noite em que no Bar do Mineiro amanheci dividindo cachaça, cerveja e boa conversa com amigos? Teria suporte emocional para sobreviver sóbrio à intensidade da conversa que embalava os bufões da mesa pelo simples fato de não permitir que ninguém terminasse uma frase e se considerasse inteligente e compreendido por todos? Como abriria mão das viagens que especulamos freneticamente mesmo sabendo que jamais as faremos, mas nos animam pela simples especulação? E aquela noite no Cavern Club, realizando um sonho de uma vida, cantando aos berros o repertório dos caras, saindo de lá para entrar num pub lotado de cogeracionais em coro mandando muitíssimo bem um cover fodástico do James Taylor? Seria igual? Ao meu lado, na porta do Cavern, um amigo de uma vida berrava ‘Dei Tripou, dei tripou-iê’. Ele experimentaria essa epifania, se sóbrio? O que eu faria? Quedaria pensativo, estático em avesso de extático, uma estátua a mais na Mathew Street? E as noites de Friburgo que emendavam dias no Arrisca e Petisca? A celebração do reencontro nos porres gostosos dos churrascos de Búzios, Vale das Videiras, Cabo Frio, Correias e lugares tantos, aconteceria? A noite encantada em que ao lado da Rafa e de uns tricolores malucos saímos pulando pelas ruas de Madri comemorando a Libertadores, para depois, com a companhia de um Rioja, chorar por horas no hotel. Seria a mesma? O que me faria ver no janelão da casa do Vale do Stucky um recorte de topografia inquieta tomado pelas luzes imaginárias de dois Johnnies? Como normalizaria os prédios horrendos que interferem no horizonte da minha varanda e que sob efeito do álcool se revelam imensas torres de bronze com luzes brilhantes e exibidas?
Confesso-lhe: meu melhor repertório de velhas memórias lembradas e memórias recentes, marcadas por um sobrepasso gostoso no andar do coração, essas memórias não seriam essas se habitasse seu país, Senhora Sobriedade. Seriam tépidas, flashes, recortes de vida vivida no tocar monótono e austero das coisas. Pedirei aos amigos, sob sua devida autorização, Senhora, que tenham paciência comigo. Ficarei menos engraçado, inteligente. Talvez me surpreenda birrento e apressado, pois há pressa no país dos sóbrios. Pode ser também que os ache menos engraçados em sua graça exuberante, bálsamos num mundo de torpeza e sem-gracice.
Não se ofenda, ó, Sobriedade, reitero meu respeito. Mas por esses prováveis 90 dias o que me restará é ficar bêbado de seriedade dissimulada, tomar um porre de objetividade idiota, render-me ao estupor da pior ressaca de bom senso. Sinto-me deslocado, mas tomado de certeza. Receba-me com o coração aberto, tome-me pelas mãos e me oriente por esse imenso condomínio de geometria retilínea, com casas em tom pastel e vidros verdes, óbvio demais para os que pensam além de suas regras. Chego limpando os sapatos no capacho, quem sabe os deixando no vestíbulo de seu living imenso e asséptico.
Mas antes permita-me, ó, Senhora, deixar um curto bilhete aos insóbrios do meu mundo, que é o mundo por onde andejo: ‘Volto já’.”

Fiquem à vontade, afinal, ninguém tem razão