Diarema

Megafone em punho, Belisário Teté, delegado de Diarema, acoitou-se numa moita junto da casa de Simico Borges descalibrando ameaça de toda monta:

–  Sai daí, seu desgraçado. Sai feito homem, seu despossuído, filho de cramulhão. Pra cima de mim num tem gracinha. Se é obra do demo, eu cravo cruz e alho nas entranças do bicho. Vem pra rua, seu féla de rapariga. Vem mas fica distante de mim, safado, qui eu sei de suas intenções.

Dois meses antes, dona Dininha, vizinha de Simico, por conta de dar sossego à tentação de não dormir, foi girar a tramela e ver luz de fogo abrindo caminho prum vulto de onça parda. Era no través da casa de Simico, e não fosse pelo tempo de curto do facho ela deitaria estranhamento. Não falou com quase ninguém, exceção de Melinha de Romero, que guardou segredo não por segredo costumar guardar, mas por não atribuir ao sucedido nem quinhão de importância.

O que se viu é que depois do facho Simico esquisitou. Já na manhã seguinte, saiu de casa pra função de recolher menino remelento de morada em rua. Levou os meninos pra casa e lá deu-lhes alimentação, higiene e pousada. Eram uns contados de menos de dez os meninos rueiros de Diarema. Menino fugido da fome do campo e da cachaça do pai. Tudo mirrado, com o olhar assombrado que só as almas vazias empurram pros ôio. Simico foi à vendinha de seu Cidoca, onde encomendou comida a granel, pra dar conta do enxame de barriga roncando que lhe inundara a casa. Quando voltou pra honrar a encomenda, foi interpelado por seu Teotônio, coronel de latifúndio de horizonte perdido no redor de Diarema.

– Cê tá moendo das bola, Simico? Que trança é essa? Menino pobre é pra destino de pobre. Num dê trela a esse remédio de caridade que…

No correr da advertência, Teotônio refugou. Pra estranheza de Simico, descaminhou a prosa:

– Simico, ocê tem certeza de que o que ocê rematou no Cidoca é de dar conta da fome daqueles meninos? Se faltar comida pro intento, me avise que lhe acudo.

No chegar na fazenda, Teotônio foi chamando a peonada e alardeando a novidade:

– Num vai ter peão sequer fio de Deus que num tenha nesga de terra no chão de meu domínio.

Puxou pelo braço Leôncio Velho, seu empregado mais antigo, e determinou sem perder rudeza:

– Leôncio, você fica com a função de dividir meia terra da minha por cada peão que aqui toca trabalho. Divide certinho, e já reserve o terreno da casinha de cada um, que quero ajudar a levantar.

A notícia do endoidamento de seu Teotônio correu pressada em Diarema. Zozó de Silvério, presidente da Câmara Municipal, soube pela língua do povo que Teotônio virara o juízo depois de conversa com Simico, que virado ficara também, e por antes.

Com vento atrás do passo, Zozó partiu pra casa de Simico, pra satisfação tirar. Num careceu bater na porta. Simico, razão num sabida, já o esperava.

– Casa é sua, Dr. Zozó. Se achegue.

– Num vim pra frozô, Simico, vou no direto. Quando pela rua correu a história dos menino remelento, eu logo vi que por ali tinha pegada do tinhoso, que não era obra de Deus caridade desfundada. E corre por boca pequena que o seu Teotônio desajuizou, a inventar de dar terra pra peão, depois de prosa com ocê. Num vou admitir subversão de nossas coisa coisada, Simico. Tem mais…

Simico, ainda desajeitado pela destemperança de Zozó, e mais ainda pela notícia de seu Teotônio, já ensaiava arrazoado, quando Zozó virou o vento da conversa.

– Simico, os menino tão bom? Num carece de nada, não? Se carecer, pode passar lem casa, queu rumo lugar pruns três ou quatro, e tenho comida por sobra dos meus.

Logo por depois, foi entrar Zozó na Câmara e convocar Gerinho, seu cunhado e assessor.

– Gerinho, rume suas gaveta e tome caminho da rua. Num quero mais parentada de quinhão algum nesta casa do povo. Se parente meu num quero, num quero parente de edil nenhum.

E emendou:

–  Dona Cininha, convoque plenária pra nunciá as novidade.

E foi assim pro tudo que é gente que de Simico se aproximava. Foi tal de polícia quedar educado, avarento abrir a mão, padre e pastor aplicar o dízimo na obra da Graça, marido desbater em mulher, fiscal abandonar caixinha. Até as moças da casa do rio voltaram pras casas dos pais, que agora já tinham promessa de terra e fartura. O prefeito, Zé do Ovo, destrancou as granjas pro povo se enfastiar de ovo e frango. E lavrou ordem em papel timbrado: todo dinheiro destinado à construção de ponte e estrada mal-acabada há de se deslocar pra fazença de escola, creche, hospital. Em regime de mutirão. Léo Carbonário, único petista da Câmara, reuniu o diretório municipal e lavrou protesto: 

– A maldição do Simico transferiu nosso discurso pros poderosos. Já não dá mais para defender o empoderamento e protagonização dos movimentos sociais. 

Teve petista diaremense, como Dico do Enxadão, que dormiu treitando Léo Carbonário tomado de coisa ruim, ao desembestar de falar palavrório estrangeiro.

Chico Asfalto, empreiteiro ligado a Inácio Brandão, deputado estadual que curralava voto em Diarema, tomou ciência das doidices de Teotônio, Zé do Ovo e Zozó. Chico era dono de toda obra de Diarema. Do novo Fórum a pinguela em sanga. Reclamou com o político. Inácio correu pro tomar satisfação do prefeito, mas o encontrou lívido, visionário: 

– Inácio, as diferenças acabarão. Acabarão as diferenças, Inácio. 

Tomando Zé do Ovo na conta de desbomsenso, Inácio intimou Dr. Belisário a restabelecer a ordem local.

–  Belisário, a economia de Diarema já não suporta mais tanta insanidade, essa bondade desenfreada. Estamos pondo em risco os princípios que sempre pautaram a conduta do povo pacato destas terras. Nossos pais, avós e bisavós estão se bulindo nas sepulturas. Um escárnio, Belisário. O povo, por ter seu chão e engenho, não quer mais produzir pro patrão. Aliás, Belisário, já não há mais patrão em Diarema. Todos são perigosamente iguais. Começa assim, depois ninguém segura. Já tem fio de uma égua falando em coisa subversiva, como pegar cisma com nepotismo, proibir menino trabalhar, educação integral, posto de saúde sem fila, direito do trabalhador e o diabo a quatro. Faça valer sua autoridade, Belisário, mas não chegue perto daquele safado do Simico. É chegar e mudar. Tome cuidado.

Belisário, já em cerco na casa de Simico desde meio-dia, quando bateu seis horas, que é hora de reza e escuridão em Diarema, desistiu de ameaça por palavrório e mandou o recruta meter a bota na porta. Foi a botina do recruta cravar na porta da casa de Simico e aquela visão de dona Dininha, que estava à janela, se repetir de igualzim. Uma onça parda correr por um facho de luz nos fundos da casa. O recruta adentrou a casa não sem antes fazer sinal-da-cruz. Entrou pé-por-pé, certificado de que por lá alma não tinha, e gritou grito remelado de medo:

– Dr. Belisário, aqui não tem nem rastro de Simico, num tem vivalma na casa. Eu só vi um clarão pra direção do reservado, no terreno de atrás.

Belisário partiu pra caça do facho de luz com a tropa e mais meia-dúzia de milicianos arregimentados em outras praças por Chico Asfalto. Entraram pela mata, num demorou de ver uma onça parda arrodeando um pé de árvore.

– Filha do cão, tu vai morrer, safada – gritou o delegado.

O tiro ecoou por toda a extensão do Rio Macaco e feriu ouvido até dez léguas do acontecido. A onça num morreu morte de morrida normal, desintegrou-se tal comprimido de azia em água quente. Ao olhar pra copa da árvore por onde a onça arrodeara, Belisário viu um anjo rechonchudo como adorno barroco. Pareceu-lhe que o anjo, um gesto antes de subir ao céu, balbuciara uns falados que acabava com “…preparados”.

Na manhã seguinte, Teotônio pulou da cama, e partiu com tudo pra onde a peonada se assentara. Foi chegando e baixando porrada, tratando de fazer aquela vagabundada voltar pra lida, que é lugar de trabalhador. A cidade voltara ao normal. As crianças remelentas nas ruas, os dinheiros das pontes e estradas no cofre do prefeito, as filas nos postos de saúde, reparo de escola se limitando à promessa de campanha. Até as moças da casa do rio tomaram a volta pelo caminho da ida.

Dias passaram na conta de mão, e Belisário, pescando no Rio Macaco, viu um vulto por trás do ipê. Era Simico, num avental que semelhava maluco de sanatório, esquálido feito mulher de passarela. No chão não pisava, vinha na direção de Belisário como que soprado pela brisa.

– Não se espante, Dr. Belisário. Vim pra mode de encerrar trabalho. 

Emendou: 

– Vocês não estão preparados.

Num se viu mais Simico, e de Dr. Belisário pouca notícia se teve. Transferiu-se pra outra comarca, mas sequer sentou praça. É crença que fundou a seita Facho de Luz, no interior do Pará, e anda por lá fazendo bicho desaparecer feito remédio de azia. Pra num perder conta de juntar uns trocadins, que de abestado ele passa longe, Belisário se amaziou com uma ONG finlandesa num projeto de preservação da onça parda. 


Descubra mais sobre Ninguém Tem Razão

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.


Comentários

Fiquem à vontade, afinal, ninguém tem razão

Descubra mais sobre Ninguém Tem Razão

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue lendo