Ursos: Porque Durmo Tarde

A ter que deixar este mundo, a cumprir com dever de galardão e circunstância o rito indomável dessa passagem, desejei, por todo tempo que me coube aqui, fazê-lo com vida. Lúcido tal cristão diante de verdade insondável. Morto, não me restaria tino para dar conta das sutilezas, traveses e arapucas à distancia cósmica do mundo que já não mais me pertenceria. A morrer morte enviesada, me moveria pelos escaninhos aos mortais inescrutáveis com o desembaraço de um chato em performance. Foi bom que tenha sido assim, embora me custasse um quinhão de hora para percebê-lo. Não morri a morte dos mortos banais. Morri diferente, morri a morte que desejara por uma vida de contrição, temência e delírio.

Só me dei conta da assunção desse desejo pela surgência de um inusitado. Não há ursos em Brasília, e se os houvesse não me informara o destino que me trouxera aqui. Foi numa noite de estrela em atacado a cintilar incontáveis pontos de luz em campânula de meia esfera por soma de céu acachapante. Era de com bichos conversar, de não me fechar às possibilidades de uma prosa vadia com trança dos que se ocupam de dar sentido ao que seria patético ou impossível, caso fôssemos únicos. Os bichos têm o que nos confrontar, o que nos dar rumo em nossa epistemologia de laboratório. Em estado vivo, conversava com cuícas, cachorros, raposas; insetos, menos um pouco, por preconceito cretino. Não é conversar de miolo mole. Proseava com cuíca onde cuíca mora; com raposa, se há raposa por lugar que assentava; com cachorro, se cachorro rodeava o enquanto. Pra mais dos insetos, recusava-me a dar trela a bicho de rapina, embora soubesse perder com essa indesejança. Pelos dias e horas em que vivi a vida dos vivos, só me fora dado alvará de terçar palavra com bicho de rodeança, com bicho que compartilha no silêncio o terrão de coisas e lugares que pensamos só nosso. Daí a estranheza que impregnou de luz aquela noite do que se passou e que me cumpre relatar. Não há ursos em Brasília.

Onde estou agora rio corre por água de margem, mas margens são três. Pedras reclamam trejeito e bêbados professam missas de altares etéreos. Roupas não se passam por não amarrotar ao uso e manuseio. Sapatos não se tomam de lama quando lama se faz pisada. As bainhas são justas, ainda que não se lhes colem esparadrapos. Braguilhas imprescindem de botões ou ecleres por abrir caminho a despejos de uréia. A banheiro não se vai por vício de higiene, se higiene não prospera por desnecessária. Tudo é imaculado, limpo e lívido tal aura de um São Francisco em catre. Os morros são baixos e os baixios procuram o céu. Nem sei se no céu estou e não importa verdade onde verdade semelha mentira.

Pareciam normais a temperatura, a umidade, o andar sereno de secar as coisas. A terra terrava, o ar arava, o fogo fogava. Não havia surpresa se surpresa inlembrava o súbito. Daí meu aceitar normal aquele vulto peludo a zanzar inquieto por meu gramado de extensão de fábula. Nada mais parecia, pois parecer não causava surpresa. Chamei por sinais austeros o dono daquela silhueta impensável. Era um urso, e estava em Brasília.

Tranqüilizou-me ainda por longe e se aproximou por querer conversa. Foi direto:

– Não se tome de medo ou estranheza. Estou por aqui por aqui não me caber decidir deixar. São muito poucos os ursos do cerrado, Beto Sales. Chegamos por aqui na contramão de nossas migrações naturais. Quem nos trouxe em porão de nau insuspeita foi o mercador Caleb, o voluntarioso. Caleb juntou especiarias e rendados, trocou-as por um chamado que o impeliu das fronteiras otomanas pelas bem-aventuranças do Sermão. O Sermão se lhe apossou de desejo e aventura, e dos troncos mirrados das oliveiras fez nova arca. Não foram muitos os bichos que lhe coube juntar, se dilúvio não lhe inspirava os meneios do Tigre ou Eufrates. Tocou sua sina com humildade e função. Um e outro cachorro, um alce desprevenido. E os dez ursos. Assim chegamos aqui, e aqui nos aquietamos em escarpas de chapadas. E aqui mar já foi de ido.

A conversa fluiu benfazeja. Dividi com o urso uma e outra ensinança de um pro outro. Os dez ursos não mais morreram, moraram casas vazias, por passagens de vidas ainda vividas anunciaram a poucos que é possível morrer sem deixar rotina incumprida. Não busquei explicação na refração alegórica de luzes intensas que já compunham cenário. Só me permiti um rasgo de lucidez ao deitar minhas certezas na cama insegura de uma especulação impensável:

– Por que suas unhas são azuis?

Por não ter resposta, fui dormir tarde, se dormir cabe onde não se cabe dormir.


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