Tio Carlos

Fui, por conta de muito tempo atrás, visitar meu tio Carlos em Feira de Santana, por onde deitou seu cansaço enquanto plantonava a morte que lhe parecia tardia.

Tio Carlos era presença infrequente em São Pedro da Aldeia, no sítio da família. Mas quando ia, as coisas remexiam estranhas. Para o menino inquieto que eu era, mais estranho ainda era conversarmos tanto. Era solitário, deixara famílias e registros pelos grotões baianos de que me contava histórias. Gostava de conversar com ele, tinha sabedoria rude, casca grossa de árvore que esconde seiva.

Soube por meu pai que tio Carlos estava em Feira, e soube também que um dos filhos, o que se manteve em seu radar de onda débil, andava preocupado pela rotina inadequada aos gentios a que tio Carlos se impusera por lá. Plantara-se à frente da tv, de onde só saía para vicissitudes que o forçavam a de lá arrancar os pés, coisas de cama e sanitário. Um Mr Chance agreste, para além de um jardim que não tinha, nem queria. Decidi revê-lo em seu claustro sagrado de silêncio e fúria. Fique claro que o avisei antes de interromper sua rotina de espreitar a morte em rito metódico e draconiano.

Bati à porta e a porta já estava aberta, esperando apenas por um “pode entrar” protocolar. Ao me ver, tio Carlos ficou feliz ao jeito dele. Conversei pouco como devem fazer as pessoas educadas. Queria vê-lo. Continuava fumando muito, e as histórias já não saíam com a naturalidade rascante dos bons tempos de São Pedro da Aldeia. Nada lhe perguntei, só o observei em seu método e no quanto aquela vida se estendendo por desvontade dele o aborrecia. A tv ligada, o único elo com a vida vivida por mundo pra fora de sua porta, absorvia sua atenção ao ponto de me sentir invasivo, embora sem deixar de me ver conveniente. Falamos por tempo que é certo falar com quem se fecha em seu mundo. Antes de sair, tio Carlos me chamou mais perto e sussurrou: “Filho, nada é mais sofrido que o que acabou e continua”.

Saí de lá remedando sensação da criança que fora em São Pedro, aprendendo com a rudeza de tio Carlos o que outros mais velhos não me diziam por cuidado com criança.

Na pandemia, quando o Brasil sofria a dor da morte e do deboche da morte, algo ali acabara, ainda que continuasse. Aqueles dias me empurraram para a memória de tio Carlos, pra frase-sussurro com que se despediu de mim e eu dele. Mas tudo acaba – acabou tio Carlos -, embora quando acabe, ou mesmo quando não acabe, o mal e bem de tudo comigo ainda morem e morem em quem disso se apercebe.


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