Sobre Cuícas e Hermenêutica

Cuícas são uma espécie de gambá féchiom, comuns em São Pedro da Aldeia, onde passei nacos de minha vida, espargidos por alentadas férias e parcimoniosos fins de semana, com ou sem feriadão. Em Friburgo – morei lá 10 anos – há mais gambás, mas não entrem numa de imaginar gambás disneyanos, felpudos, saudáveis, com cara de quem se criou com córni fleiques . Os gambás brasileiros têm pelagem rarefeita, os rabos despilosos, com um tom de rosa entre o hematoma e o choque, contrastando com o cinza mórbido de seu corpo. Têm cara de fuinha sem-teto, deselegantes, parecem doentes, depressivos, e, embora obra de Deus, feios. As cuícas ostentam uma aparência mais higiênica, com pelos sedosos cobrindo-lhes sem falhas, a sair de um salão em que lhes tosquiaram com máquina três, não sem antes um frufru de acabamento. Aparentam saúde. Saradas, movimentam-se com elegância e, diferentemente dos gambás, gostam de frequentar ambientes humanos, desenvoltas em forros e ressaltos de janelas e em caibros e ripas que sustentam telhados. Procuram por restos de comida, mas estariam aptas a comer o que não fosse resto. Amam frutas.

Da janela de meu quarto em Friburgo costumava observar um gambá que noite após noite banhava-se à lua sobre a cerca de trepadeira que separava nosso terreno da fazenda à frente. Ficava o gambá por lá horas e horas, jamais desafiador, estoico em sua função de ficar ali sem aparente motivo, já que em latitude oposta aos caminhos naturais da despensa, onde deveria estar fuçando. É bem verdade que a Hope, nossa São Bernardo, revelara-se exímia caçadora de ratazanas, desfigurando-as antes de pô-las à porta dos fundos de nossa casa. Acredito que os ratos se falam, por isso é justo imaginar razão mais pragmática para aquele gambá se manter à distância de nossa cozinha. Mas a ideia de que ele está ali contemplativamente, absorto em sua metafísica gambalística, me fascinava. Deixemos vingar essa versão. 

Em minhas temporadas em São Pedro da Aldeia, há muito observava uma cuíca que passeava fugaz por sobre os parapeitos das duas janelas que deixava semiabertas a pretexto de receber uma brisa fresca, embora submetido aos riscos de um traiçoeiro vento encanado. Temores de velho. Tratava-se de cuíca simpática, atenta à rotina monótona que desempenho em minha lida de ler, escrever, entremeada por gostosos quinhões de silêncio e preguiça. Quase sempre estava só, e minha rotina ainda é mais ritualmente rotineira. Foi numa noite dessas, pouco depois das eleições presidenciais de 2018, que me surpreendi com a infugacidade da cuíca em seu ir e vir parapeital. Fixou seu olhar no meu, insistentemente. Cheguei a pensar que ela desejava me contar algo, comunicar-se comigo. Olhei-a também fixamente. Ela se ajeitou no parapeito de forma a não mais se pôr de lado para mim. Pôs-se de frente, demonstrava personalidade em sua convicção de quebrar o gelo de noites e noites em que nos mantivemos indiferentes um ao outro. Foi dela a iniciativa:

– Beto Sales, não estranhe. Há muito o venho observando. Meu nome é Barbosa, e devo confessar ter me impressionado desde o início com sua atitude respeitosa em relação à minha pessoa, quer dizer, à minha…, ah!, deixa pra lá. Em nenhum momento você demonstrou asco ou medo, só fez me notar e deixar a vida correr.

– Barbosa, você tem algum prenome? Rivadávia, Lauro, Antonio, Carlos Augusto, Durcésio, Edegard, ou algo assim?

– Não. Sou apenas Barbosa, e já me dou por feliz. Muitas cuícas sequer nome têm.

– Posso lhe ser útil? – indaguei protocolarmente.

– Nada que seja pra mim, embora, pensando bem, o seja. Na realidade, desejo apenas trocar um fio de conversa com você por algumas noites. Sempre o vejo concentrado em seu trabalho, lendo ou escrevendo. Penso que podemos vez em quando terçar ideias, conhecer melhor nossas visões de vida. O que hoje o angustia, por exemplo?

– Muita coisa, Barbosa, muita coisa. Não é fácil para um pai de família criar quatro filhos num mundo encrencado como o nosso, cheio de armadilhas, com as apreensões naturais de quem deve prover a comida que vai à mesa quatro vezes por dia. É difícil, Barbosa.

– Não se angustie com isso, Beto – posso tratá-lo assim?

– Claro, Barbosa, fique à vontade.

– Dizia, não se angustie, Beto. Veja minha vida. Sou forçado a viver às escuras, com medo, sequer tenho o direito de subir num pé de manga e comer minha manguinha em paz. Sou instado a roubar do mundo o que sendo do mundo deveria ser de todos.

– É verdade – sussurrei, surpreendendo-me com o holismo e consciência de classe articulados da cuíca, quer dizer, do Barbosa.

Trocamos ainda uma ou outra informação de caráter pessoal, amenidades vadias, uma ou outra ironia, até que o Barbosa foi direto.

– Sinto-o preocupado com o andar das coisas. O Bolsonaro o assusta?

– Muito, Barbosa. O que me assusta no Bolsonaro é justamente sua falsa incapacidade de assustar, seu ar de personagem de ópera bufa. Ele será um instrumento de uma guerra cultural que devastará os avanços civilizatórios por que tanto lutamos. Vai devastar em nome de princípios morais arcaicos, em nome de uma liberdade escravizadora. Mas a mim não engana, ele é político profissional, artífice das artimanhas das pequenas contravenções de gabinete. E vai compor pra se manter, ele amará brincar de ser presidente, com seu repertório humorístico tosco.

– É mais que isso, Beto, mas às vezes, é necessário ceder aqui e ali para que se chegue a um objetivo. O objetivo do Bolsonaro já sabemos: empreender uma grande obra de desconstrução. Meio ambiente, Cultura, Educação, Ciência e Tecnologia, Saúde Pública, nada sobrará de sua volúpia desconstruidora. Despreparado, se armará da polêmica para se manter vivo.

Pude perceber um ar de comoção no Barbosa, que seguiu em sua linha de raciocínio.

– Beto, o problema do Bolsonaro é que ele vai surfar na divisão das oposições, na capacidade das velhas raposas em controlar o processo político em nome de seus interesses, na escolha do ambiente onde se travará a guerra. O que nele é absurdamente tosco, não o é para os milhões que votaram nele, e estes serão ainda mais radicais quanto mais tosco for o capitão. Não são pessoas estranhas a vocês, muitos deles frequentam seus churrascos e convescotes, dividem os ambientes humanos de trabalho, reuniões de família e confraternizações. São aqueles que já defendiam as teses de que bandido tem que morrer, que homossexualismo é doença, que aquecimento global é invenção da esquerda. O que hoje faz diferença é que a pele deles foi arranhada e brotou dali o que há de pior no sentimento humano, o lixo da espécie. Outro dia ouvi no rádio o Guto Graça dizer que o Bolsonaro não é farol, é espelho. Achei boa a metáfora.

– Você tem razão, Barbosa – estarreci-me com a clareza daquelas ideias e com o fato de o Barbosa conhecer o Guto Graça.

– É isso mesmo. O Bolsonaro será o apóstolo da guerra cultural, da liberdade para se ter preconceito, para se descumprir a Constituição, para a evangelização moral do Estado. Mas antes servirá aos interesses da elite política. Quem seria o maluco capaz de desmoralizar o Ministério Público, enterrar a cultura punitiva da Lava Jato, desmontar o aparato fiscalizatório do governo que contém a sanha predatória do agronegócio e entregar a exploração de nossas reservas petrolíferas? Porra! Desculpe, Beto, me empolguei, normalmente não uso palavrão

– Vá em frente, eu também falo muito palavrão, ainda mais quando o assunto me inflama. Siga, siga.

– A quem essa gente vai ficar devendo por poder dar vazão a suas aberrações e fundamentalismos? Fácil, ao Bolsonaro.

Confesso que me espantei com a lógica do Barbosa, acachapantemente articulada. Barbosa foi além do que parecia ser apenas uma especulação teórica de uma cuíca.

– Beto, há entre os historiadores uma antiga polêmica entre continuidade e ruptura do processo histórico. Há os que recorrem à acepção pré-moderna de revolução, que significa voltar às origens, em contraposição ao sentido iluminista de um “novo tempo”. Entre o determinismo, em que os fatos surgem de uma necessidade inquestionável, e o voluntarismo, em que a vontade e a ação humanas são elementos fundamentais do processo histórico, impõe-se decodificar as complexas relações entre traços estruturais, dados conjunturais e a vontade dos atores sociais. Não se rompe por romper. Até porque romper nada mais é que opor, e, quando se opõe, considera-se o oposto sobre o qual se deu a ruptura. A História é um fio, nada acontece que não seja explicado e justificado pelo conjunto de fatos que o precedeu. O Lula se elegeu em função de o FHC ter orquestrado o espetáculo obsceno do balcão de negócios com o Congresso para garantir a reeleição. Um escárnio que lhe custou caro. Sociólogo de esquerda, Fernando Henrique pediu que esquecessem o que escrevera, obcecou-se por atacar direitos dos trabalhadores e dos aposentados da base da pirâmide, a quem chamou de vagabundos. Tudo em nome de um neoliberalismo que negou em vida. Logo ele, que se aposentou aos 50 anos. Perseguiu os servidores públicos, mas manteve os privilégios da casta do estado. O pobre, beneficiado pelo fim da inflação, foi penalizado pelos juros altos, que concentraram ainda mais a renda. O Bolsonaro é resultado da pauta única da agenda anticorrupção, do endeusamento de falsos herois e da histeria da demonização da política das manifestações de 2013. E, claro, pelo ódio de classes ao PT, muitas vezes dissimulado pelo ódio aos exageros que muitos do PT cometeram.

– Barbosa, de onde você tirou isso? E os bancos, o que isso justifica a aliança do Bolsonaro com os bancos?

– Simples, Beto, simples. A elite financeira, rural e industrial brasileira, quando não dá golpe, recorre a um maluco para embaralhar o jogo e voltar ao começo. Desde 1889, passando pelo Estado Novo, pelo suicídio do Getúlio, Jânio, pela deposição do Jango, Ditadura Militar, Collor e agora o Bolsonaro. Já o tucanato nem precisou de golpe ou de um maluco. O FHC, na onda do Plano real, legado do Itamar, instituiu o juro escorchante e uma privatização mezzo a mezzo com o financiamento público, validando pauta simpática aos mandarins do mercado financeiro. Mesmo com o PT, nos dois mandatos do Lula e no primeiro mandato da Dilma, os bancos ganharam com o acesso do pobre aos bens de consumo, seja pelo aumento da renda ou pelo crédito. Os bancos mantiveram sua pauta de interesses. Não importa o modelo, os bancos ganham. Ganham pela remuneração estratosférica do dinheiro, pela participação acionária nos principais ativos da nação ou mesmo com o crescimento do PIB em um país sedento de crédito. Ganham hoje, pois já não se sabe mais onde acabam os interesses dos bancos e começam os interesses do Brasil. Tudo misturado. Mas o perigo maior do Bolsonaro virá com o genocídio.

– Que genocídio, Barbosa? Pelo amor de Deus, ou sei lá no que você acredita.

Barbosa, sem me responder, deixou o parapeito em direção a uma nespereira que faz vizinhança com sua janela preferida. Ainda ouvi alguém gritar:

-Um rato!!!.

Fiquei tranquilo, o Barbosa sabe se defender.


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