Panaceia

– Presidente, já tenho em mão o relatório.

– Que relatório?

– É aquele da Previdência, chefe, mas não dá pra adiantar nada pelo telefone. A idéia evoluiu, há muito o que conversar, presidente.

– Passa aqui amanhã no final do dia. Confira minha agenda, fale com a Mercedes, mas chegue por aqui na hora certa, pra que eu não me atrase. Tenho compromisso pro jantar, regabofe de senador. Você sabe como é essa gente. Mal a gente confirma, lá vem disputa de bufê com o senador do último jantar. Écoisa que demore?

– Receio que sim, presidente. Mas é a saída que a gente precisava.

O presidente, mal desligado o telefone, remergulhou naquele mar de preocupações que ocupam a hora-toda de quem guarda na ponta da caneta o destino de uma Nação. Aquele telefonema, no entanto, inquietou o homem. Ele andava às turras com números de pesquisa que, se lhe tiravam quinhão de sono, desesperavam o seu ministro da Fazenda, titular daquela ligação enigmática. A Previdência era a viscosidade de seu governo.

Sabem os políticos que 24 horas na vida de um presidente passam pela conta do tempo necessário para que um falacrótico enxagüe os cabelos. Coisa rápida. E assim vazou o dia que separou o telefonema da audiência extemporânea.

– Presidente, fizemos o dever de casa exatamente como era a sua expectativa. Sua perplexidade diante dos números teimosos da Previdência nos levou a desconstruir o sistema para que, na mão inversa, entendêssemos sua lógica funcional.

– Por favor, Mendonça, seja claro, Já lhe falei do jantar, e lá vem você com a cantilena dos jargões.

– Desculpe, chefe, não vamos perder o foco.

– Foco, não, Mendonça, foco eu não agüento mais.

– O senhor já havia me alertado, mas é sestro, desculpe.

– Vá em frente, Mendonça.

Mendonça perscrutou a vastidão do gabinete presidencial como a querer encontrar ali uma ainda que remota possibilidade de que aquela conversa não ficasse restrita à interlocução segregada que o assunto ensejava.

– Bem, presidente, depois da necessária prospecção na base de dados relatoriada pelas pontas do sistema, resolvemos aprofundar os diagnósticos. Contratamos consultorias especializadas, todas com musculatura acadêmica. Uma para cada estado, sem exceção. Gente com currículo laudatório presidindo vários seminários de planejamento estratégico, com direito a catarses coletivas de especialistas em motivação. Fomos fundo nas relações de causalidade entre lapsos de controle e ineficácia.

– Mendonça, por favor: modere-se. Essas consultorias de motivação regra geral são tocadas por proxenetas da frustração.

– Presidente, até que o senhor tem razão. É preciso separar o joio do trigo, e isso nós fizemos.

– Jargão de novo.

– O senhor tem razão, mas sem que tenhamos convicção dos entraves sistêmicos da Previdência, o que vamos lhe propor perde substância. É grave demais para que se sustente em suposições ou mesmo teorias mal alinhavadas. Tenha certeza de que vou chegar ao ponto.

– Ainda bem.

– Presidente, começamos pela desequalização entre receita e despesa, e…

– Mendonça!

– Ó meu Deus, desculpa, chefe. Refixamos os conceitos de Missão e Visão. Estudamos criteriosamente os pontos fortes e fracos, as ameaças e oportunidades, esquadrinhamos todos os cenários possíveis…

– Quanto esse aparato custou?

– Diante do que encontramos, nada.

– Quanto é esse nada?

– Diria…alguma coisa entre…relevadas as condições…

– Porra, Mendonça, quanto custou essa histeria tecnocrática?

– Vinte milhões.

– Um milhão de cestas básicas!

– Presidente, isso é nada diante do que lhe estou trazendo.

O telefone toca.

– Já lhe disse, Esmeralda, ou você escolhe sua roupa ou presido este país. Estou diante de uma decisão vital para milhões de brasileiros e você me liga pra que eu aprove a cor de seu vestido. Já não basta o que eu não tenho de aprovar em minha lida diária?

Mendonça, constrangido, percebeu pelo muxoxo do presidente o que parecia ser a reação a um esporro da primeira-dama.

– Interesses nacionais e esposas não combinam, Mendonça! Muito bem, siga em frente.

– É verdade, presidente, lá em casa é a mesma coisa…

– Mendonça, por favor. Ministro é ministro, presidente é presidente.

– É verdade, chefe, mas o que importa é que as consultorias concluíram que o descompasso atuarial entre receita e despesa da Previdência decorre de uma razão simples:…

– Mendonça, muita gente boa, no Brasil, suspeita que o déficit da Previdência é caso de polícia. Tem gatuno demais, a roubalheira corre solta.

– Tem roubalheira, sim, presidente, mas não é exatamente aí que moram os problemas da Previdência. O problema, presidente, depois de mergulharmos criticamente nos números que nos chegaram é simples: o brasileiro resolveu viver demais!

– E isso não é bom, Mendonça?

– É uma catástrofe, presidente! Uma tragédia!

– Peraí, Mendonça, eu não estou entendendo. O que deveria ser uma vitória de minha administração, um avanço, uma conquista social, é…

– Uma hecatombe! A causa de todos os males.

– Você quer dizer que para fecharmos os números da Previdência o brasileiro tem que morrer mais cedo?

– Isso, presidente, exatamente isso. Mas não são todos os brasileiros. Só os mais velhos. E nem é preciso fazer muita força. Uma epidemiazinha aqui, um aumento da carga tributária ali.

– Mendonça!

O ministro inflamou-se:

– Veja bem, presidente, nossa base no Congresso é inconfiável, a maioria no Senado é precária. O custo de atender à fisiologia é muito maior que uns cinco ou seis anos de vida de uns párias brasileiros.

– Isso é desumano, Mendonça.

– Eu insisto, presidente. Nosso projeto é pra quarenta anos, temos a convicção de que só nós poderemos com o tempo resolver as questões fundamentais do desafio de se construir por aqui uma civilização baseada na equidade. E o que é isso diante da morte de umas dezenas de milhares de velhinhos?

– Dezenas de milhares?

– Bem, na verdade, alguma coisa por volta de uns dois milhões. Mas não reduziríamos a expectativa de vida geral dos brasileiros. Como o sistema daqui por diante estabeleceu novas regras, o gargalo são os aposentados de hoje. Esses vagabundos é que nos impedem de limpar o caminho para as futuras gerações. Pária morrendo, criança crescendo para, no que entrar no mercado de trabalho, contribuir por cinqüenta anos

– E os nossos pais?

– Presidente, temos que desemocionalizar a questão. Uns três ou quatro anos de vida a menos para nossos pais não é nada tão dramático assim. E tem muito pai que não merece mesmo viver além da conta. Déspotas, arbitrários, autoritários, responsáveis por boa parte de nossos traumas. Há muito pai escroto…desculpe, presidente. O senhor leu Tótem e Tabu?

– Não, mas continue, você tem razão, tem muito pai escroto mesmo. Agora, resolvendo a Previdência, podemos fazer os investimentos de que precisamos?

– Claro, presidente. Tudo fica limpo como a aura de um diácono.

Outra vez o telefone:

– Esmeralda, só mais uns cinco minutos. Está bom, anjinho?

E voltando ao Mendonça:

– Qual a solução?

– Baixar a eficiência, já porca, desculpe, do Ministério da Saúde. Quem sabe, orientar a militância pra deixar uns vasos com água, atrasar a chegada de vacinas, descontinuar a distribuição de remédios de uso contínuo. Sei lá, há muito o que fazer, é só usar a imaginação. Ou…

– Nomear um político pro Ministério da Saú…

– Isso, presidente, isso! Do partido, alguém confiável.

– Mercedes, liga pra Esmeralda. Tô saindo.


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