A avenida era mais que arco, talvez ferradura, ou círculo cortado pela secante Avenida Oswaldo Cruz. A distância entre as casas, coisa de 300 metros, era percorrida pelo menos três vezes por semana por aqueles amigos em suas visitas de reciprocidade afetiva. Um hábito. Avenida Rui Barbosa, porção maior do abraço ao Morro da Viúva, avenida que se deitava sobre a Baía de Guanabara de águas limpas e que dela foi apartada pelo Aterro do Flamengo. Quando a Rui Barbosa curvava em direção a Botafogo, o endereço mudava para Praia de Botafogo. Lá morava o mestre Aurélio. Na Rui Barbosa, meu pai, Herberto Sales.
Quando dei por aqui, por este chão de luta e inaceitação, meu pai e Aurélio já eram muito amigos, e as visitas recíprocas, rotina espartana. O apartamento do mestre era no prédio que ficou conhecido como ninho de acadêmicos. Nele morou o escritor Marques Rebello, o educador Anísio Teixeira – cuja morte em acidente de elevador ainda hoje é cercada de versões conflitantes -, e o filólogo e dicionarista Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, este, a razão de me encontrar no conduto destas linhas. Talvez tenham outros morado, mas basta para o que me proponho.
Aurélio era mais que uma pessoa, um evento. Alto, claríssimo, avermelhado, cabelos com o pé sempre se estendendo pela nuca, em contraste com a área calva que avançava sobre o topo da cabeça, Aurélio jamais passaria despercebido por onde circulasse com seu carisma único. Lembro dele desde os meus primeiros dias de lembrança, e se muitas dessas lembranças são difusas, a dele, luminosa, assertiva. Nossas famílias se integravam na medida em que famílias diferentes se integram, preservando cada uma o baú de ossos de suas implicações. Minha mãe, Juraci, se tornou grande amiga de Marina Baird Ferreira, para nós, simplesmente Marina, mulher do Aurélio. Marina guardava uma sofisticação que se lhe foi tornando natural. Exercia sobre o Mestre um controle rigoroso. Bom de prato, Marina o vigiava implacavelmente em sua compulsão por comer sem medo de ser feliz, ou, simplesmente, para ser feliz. Eu e meus irmãos jamais nos tornamos amigos de fato dos filhos de Marina e Aurélio, embora com eles mantivéssemos convívio frequente. Aurelinho, o mais velho, foi ainda muito jovem para a Inglaterra, como recurso que lhe restou para escapar da perseguição torpe da ditadura militar. Maria Luíza era distante.
Aurélio amava nadar. Quando meu pai comprou uma pequena casa em São Pedro da Aldeia, o mestre se fez frequentador recorrente, e fomos muitas vezes – eu e ele –, à frente do séquito familiar que nos seguiria, à Lagoa de Araruama, cuja água carregadamente salgada se permitia a que flutuássemos por tempo de não contar e deixássemos nossas almas vagar indolentes sob o céu acachapante da Região dos Lagos, no Rio de Janeiro. No início, viajávamos todos de ônibus. Ou do Rio, pela Viação Satélite, ou – o que adorava, por me fazer pegar a barca – por Niterói, pela 1001. Eram tempos de celebridades contidas. A TV tinha poucos anos, obviamente não havia internet, o rádio eram vozes, apenas vozes.
Viajar com o mestre era diversão garantida. No verão, invariavelmente de bermuda e camisa brancas, alpercatas a modo franciscano. Aurélio contava histórias e travava com meu pai um delicioso jogo de implicância mútua. Em São Pedro, Aurélio reinava sobre a casa, contando histórias, casos, marcando, ainda que pelas intervenções mais singelas, seu brilho solar. Dançava xaxado, cantava os clássicos do cancioneiro popular nordestino. Nas lindas festas juninas do sítio de São Pedro, organizadas por meu irmão Heitor, Aurélio, sempre que Marina baixava as armas na fiscalização, experimentava um a um os quitutes que minha mãe preparava. Aurélio adorava tudo que minha mãe cozinhava, o que só reforça seu acuro em escolher o que é bom, porque a velha era mesmo danada na cozinha. Tê-lo em casa era estimulante, pois o Mestre, à semelhança da musa de Lupicínio Rodrigues – de quem era admirador, aliás – iluminava mais a sala que a luz do refletor. Firme feito um centurião, Aurélio guardava uma imponência que trouxe ao anedotário da Academia Brasileira de Letras uma de suas melhores histórias. Vestido com o fardão acadêmico, Aurélio pegou um táxi para ir a uma posse. Ao entrar no carro, o motorista indagou-lhe: “Sois rei?”. Se o meu bom amigo e referência mítica já era imponente com bermuda e alpercatas na velha rodoviária de Niterói, de fardão era monárquico como os velhos reis da Europa iluminista.
Intelectual seguro de sua formação, Aurélio era rigoroso com tudo o que consumia. Dono de memória prodigiosa, recitava os clássicos Castro Alves, Bilac, Gonçalves Dias, passando pelos modernos Drummond, Cabral, Bandeira e Goulart, sem se descuidar dos faróis da vanguarda de Leminsky, Armando Freitas Filho, Ana Cristina César e outros. Na prosa, deixava a impressão de tudo já ter lido, e se o mestre lia, era o suficiente para que guardasse. Leu tudo o de fundamental produzido pelos grandes e ainda encontrava tempo para ler seus coetâneos. Um gigante. Lembro-me de um dia em que feliz por ter descoberto Machado de Assis, e dele ter gravado algumas coisas, entre elas, um trecho do magnífico Dom Casmurro, criei a oportunidade de lhe reproduzir de cor parte do primeiro parágrafo, o que o Bruxo do Cosme Velho nos apresenta o impagável José Dias, tio de Capitu, aquele que amava superlativos. Ao fim de minhas três frases franzinas, o mestre emendou com o teor inteiro do parágrafo. Não me surpreendeu. Fenômeno. Houve época em que ávido por ler o que me viesse à frente, pedi-lhe uma orientação sobre o que ler, e recebi dele um conselho que cuidei de observar por vida que me trouxe por estes dias: “Beto, a vida é curta para se ler tudo o que importa. Escolha os autores, temas, estilos, que o agradem. Na dúvida, volte sempre aos clássicos”. Muito se diz que, ao optar pela filologia, Mestre Aurélio tenha privado a literatura brasileira de um grande escritor, mas estou certo de que a crítica literária perdeu uma voz excepcional. Implacável vigilante do bom uso da Língua, Aurélio se tomava de uma sinceridade cortante ao ser levado a corrigir alguém que por descuido ou ignorância cometesse um erro de Português. Em qualquer circunstância, gostasse ou não a pessoa, a correção do mestre vinha formal e pedagógica. Isso lhe custou alguns desconfortos, mas devo confessar, me deliciava com isso. Estive muito próximo dele pelos anos muitos que nossas vidas se cruzaram. Foi meu padrinho de casamento, e me presenteou com sua bondade por todo esse tempo de prazer convivial.
Desde quando guardei dele minhas primeiras lembranças, Aurélio era o dicionarista. Já havia organizado o Pequeno Dicionário para a Civilização Brasileira, e trabalhava em seu grande projeto, o Dicionário Aurélio. Sua disciplina intelectual fugia do padrão operário com que é inadequado medir o trabalho intelectual. Não era de bater ponto em seus compromissos formais, mas não por deles negligenciar, pelo contrário. Aurélio se entregava a seu grande projeto todo o tempo de que dispunha, e até do que não dispunha. Estava sempre pronto a anotar, por mais informal que fosse a conversa, toda novidade, o que lhe provocava imediata curiosidade: uma nova gíria, um uso semântico inusual de uma expressão. Era obcecado pela palavra, e se não a exaurisse, jamais se daria por realizado. Certamente vêm daí sua dificuldade em cumprir os prazos dos homens normais e muito da tensão na relação com seus editores, presos a prazos que lhes são vitais.
Quando o amigo Cézar Motta me ligou para dizer que estava escrevendo um livro sobre a história do Dicionário Aurélio e comigo bater umas informações sobre o convívio de meu pai com o Mestre, pus-me simultaneamente feliz e ansioso. Feliz por saber um tema tão caro a mim estar entregue nas mãos seguras de um jornalista competente, minucioso, que já havia provado sua capacidade em perscrutar as sub-histórias contidas num tema central ao assinar a hoje referencial biografia do Jornal do Brasil. E ansioso, por ter acesso ao texto. Cézar é um velho companheiro de aventuras e desventuras tricolores: somos torcedores apaixonados do Fluminense. Dias depois de nossa primeira conversa, recebi honrado – embora apreensivo – a tarefa de fazer o prefácio do livro. “Caçadores de Palavras” é antes uma biografia do Dicionário Aurélio, não do autor. O livro conta, sob o cuidado investigativo rigoroso do Cézar Motta, as inúmeras idas e vindas que marcaram com notas épicas a confecção e lançamento do maior fenômeno editorial brasileiro, o Dicionário Aurélio. Houve interrupções, contratos descumpridos, batalhas judiciais, um enredo romanesco. A confecção de um dicionário é quase sempre resultado de um esforço coletivo, muitas vezes de designação autoral difícil. Mas no caso do Dicionário Aurélio a relação era tão simbiótica que seria impossível a obra existir sem o autor. O Aurélio trouxe a compulsão pela palavra para as camadas populares, para o dia a dia das pessoas. Aurélio levou o dicionário, antes restrito ao uso seletivo, para a intimidade de todos os que tinham por dicionários reverência ou temor. Lia-se dicionário, jogava-se dicionário, consumia-se dicionário. Foram milhões. Com a transição para o meio digital permitida pelo contrato com o Grupo Positivo, já depois de a obra impressa estar consolidada como um tornado editorial, sua dimensão se amplificou numa escala impensável. Aurélio tornou-se verbete e metáfora de sua própria criação. Seu nome, mito e palavra. O mestre certamente se viu recompensado, e o destino lhe fez justiça.
Este livro ilumina algumas questões de que sempre me pus distante pelas relações afetivas que mantive com o Mestre e Marina por toda uma vida. Marina e minha mãe ficaram cada vez mais amigas, amizade que se estendeu fortemente a minha irmã, Heloísa. Nossas famílias permaneceram próximas mesmo depois das perdas do Aurélio e de meu pai. Meu testemunho é de alguém que muito próximo dele sempre o viu dedicado à obra de sua vida. Já este “Caçadores de Palavra” permite um mergulho desemocionalizado na história conturbada da realização do mais importante dicionário brasileiro. A luta pelas fontes de financiamento do projeto, as tentativas frustradas em encontrar um editor, a aposta da Nova Fronteira, o estrondoso sucesso da obra, a amplificação da escala de produção e alcance permitida com a chegada do Grupo Positivo, a longa batalha judicial pela reafirmação da autoria única. Nada escapa ao escrutínio criterioso do autor. Cézar Motta traz à cultura brasileira uma contribuição de peso, ajudando a entender como foi possível num país com baixíssimo investimento em cultura – naquela época sem leis de incentivo e com empresários ainda reativos ao retorno institucional do valor agregado à imagem da empresa quando se investe em cultura – concluir, editar e fazer circular uma obra imensa, com logística complexa, custos diretos de produção elevados e envolvendo várias frentes de trabalho. Via sempre na casa de Aurélio, ou no escritório de trabalho, os mesmos colaboradores de sempre, Joaquim Campello à frente. Testemunhei a luta de Campello em materializar o sonho do Mestre, o grande dicionário. Meus olhos de menino, adolescente e adulto, sempre estiveram pousados na potente figura de Aurélio como um intelectual imenso, em sua capacidade singular de reunir tanto conhecimento literário, linguístico, etimológico, filológico. Fixei-me em sua obsessão por entender e esgotar a palavra e seus significados, sua inquietação pela dinâmica viva da semântica, enfim, por ser Aurélio, pois só a palavra Aurélio reúne dimensão metafórica suficiente para definir o homem que a tornou verbete e mito.
A última vez que vi o Mestre, fui com meu pai visitá-lo no hospital, sua última internação. Minado pela luta contra o Mal de Parkinson, o Aurélio que estava ali na cama em nada lembrava a vibrante presença do homem que aproximou o brasileiro de sua Língua como jamais alguém sonhara fazê-lo. Mal balbuciava muxoxos guturais. De súbito, entra no quarto a médica que vinha acompanhando seu delicado quadro daqueles dias, e triunfalmente cumpre à risca o rito dos médicos em mostrar bom humor quando de nossa patética impotência diante deles: “Grande mestre, eu vim aqui só pra lhe ver!”. Aquele uso errado da transição do verbo “ver” era a centelha para saber se de fato o Mestre ainda guardava com o nosso mundo algum elo. Olhei para a cama e vi o Aurélio se retorcer com incrível dificuldade, seu tronco e braços enrijecendo como a preceder um movimento brusco que lhe seria impraticável, sua boca abrir além do que a letargia da doença o permitia, e num esforço brutal sussurrar : “Vê-lo, vêêê-lo”.
Aurélio em estado bruto. Ainda que sob a ameaça próxima da morte, manteve-se fiel e vigilante curador da Língua que o consagrou como seu maior dicionarista.
O notável trabalho do Cézar Motta abarcou todas as versões que marcaram a história do dicionário que nos fez amar a palavra, exauri-la, desfrutar de sua beleza e sentidos.
Imperdível.

Fiquem à vontade, afinal, ninguém tem razão