Por dias desses, ingenuamente, cheguei a pensar que o preço de 100gr de um determinado embutido no Pão de Açúcar fosse o preço de 1kg. Quedei comigo: “Que bom, saindo a paga, vou levar uns 100gr desse portal do paraíso suíno”. Qual o quê. O preço – 100 reais – que constava em uma pequena placa colada em uma cruz fincada no tal embutido, um presunto de Parma, vinha sublinhado discretamente por uma informação que me devolveu ao chão de meu mundo real: “100gr”. Fazendo conta banal, mil reais o quilo. Lembrei-me de meu pai.
Meu pai, o escritor Herberto Sales, um ser humano único. Encastelou-se em suas admirações e idiossincrasias, e de lá via o mundo de um jeito todo dele. Era uma rocha de autenticidade. Reagia segundo seu indomável instinto em qualquer circunstância. Quando seu gênio irrompia em defesa de uma convicção ou do direito de ser ouvido, reagia em rompante para todas as latitudes. Podia ser ministro, filho ou visita. Reação sempre sucedida por penitência e antes engatilhada por timidez acachapante. Era essencialmente generoso, afetivo, rochedo do náufrago dos amigos e familiares.
Certa vez, meu pai, cliente bissexto do Lidador, empório de importados em tempos de isolamento comercial do Brasil “Ame-o ou deixe-o”, viu uma peça de presunto de Parma majestoso sobre o balcão do velho armazém. A seu lado, o preço: 40 dinheiros. Meu pai, sertanejo da Chapada da Diamantina, homem talhado para crer no que vê, gostou do preço e pediu a peça inteira. Mas o preço de 40 dinheiros era o de 100gr, e a nota que lhe foi apresentada beirou os 1.800 dinheiros. Meu pai podia ter simplesmente dito ao atendente que tinha se enganado com o preço, se desculpar pelo mal-entendido, e devolver o pedido. Não. Tomado de prurido, se viu tolhido do impulso de reagir pelo bom senso. Simplesmente levou a peça, gastando muito mais do que seus proventos de escritor e aposentado permitiam pagar impenitentemente.
O tal do presunto de Parma, levado em cortejo épico do Rio a São Pedro da Aldeia, tornou-se a mais honrosa homenagem que meu pai conferia a uma visita ilustre ou agradável, o que nem sempre dá no mesmo. Servir o Parma ao visitante se encorpou da formalidade de um agreement herbertiano. No máximo, três fatias finíssimas, que minha mãe lograva extrair daquele imenso pernil. Antes, cúmplice da angústia do velho, ela tratou de bordar um lindo pano para servir de paramento ao precioso embutido entronizado em altar solene no quarto do casal.
O Parma do velho durou um ano, e eu tive o prazer de comer em sua companhia pelo menos umas 40 daquelas fatias transparentes que minha mãe cortava meticulosamente, uma honraria.
Pelo preço do Pão de Açúcar, vou me ater a essa lembrança.

Fiquem à vontade, afinal, ninguém tem razão