O Bilhete

O passar requebrado de Soninha pelos corredores do Laboratório Rocha Mendes provocava na homenzada instintos primitivos. Mascarenhas, chefe da Seção de Serviços Gerais, onde a moça prestava serviço, descrevia Soninha para os companheiros de sauna do condomínio como “Um naco de mau caminho. Uma rainha de ébano, elegante no andar, as ancas recebendo formosas as costas que lhe descem harmoniosamente, e entregando formas irretocáveis a pernas de anúncio de academia. Sua boca é um convite, seus dentes saltam do sorriso a procurar beija-flores. Irresistível, irresistível!”. E já sem se conter, no jargão de seu tempo: “Gostosa pra caralho”. Soninha era de fato uma linda mulher, razão dos pecados em pensamento dos mais recatados amanuenses daquela repartição. Soninha passava com hora certa. Duas vezes de manhã, duas vezes à tarde. Era da turma da faxina. Trocava os sacos de lixo, retirava das mesas os papeis usados, apontava os lápis, ajeitava as cadeiras das salas em que houvera reunião. Andava de salto, o que denunciava sua aproximação pelo plac-plac cadenciado. Seu macacão, justinho, marcava suas formas a não deixar dúvidas sobre o conteúdo. Quando entrava, o ambiente recendia a testosterona. Chegava sorrindo, despejando simpatia. Naquela medida com que as mulheres nos repelem por nos tornar patéticos ao pensar em abordá-las. Um de seus gracejadores mais frequentes era o Chiquinho, que trabalhava na manutenção.

Chiquinho entrara no laboratório ainda menino, fazia 15 anos. Era a alegria da empresa. Onde ele estivesse, era festa. Brincava com todos, sem respeitar hierarquia. Do vigia ao Deoclécio, o supervisor, ninguém escapava das aprontações do Chiquinho. Flamenguista marrento, passava da medida quando o assunto era futebol, mas era perdoado por sua prestimosidade, por estar sempre pronto para ajudar. Se alguém tivesse um problema em casa, do encanamento que vazou à pane na geladeira, estava lá o Chiquinho a acudir. Era implacável, no entanto, com quem exagerasse na roupa ou no corte de cabelo, tirando da cartola uma gracinha quase sempre pertinente. Era chegado a uns galanteios, a tênue linha que separa a graça da importunação. Coisas para ele banais: “Bonitona, hein, dona Celeste, o maridão tá na boa”, “Esse vestido lhe caiu muito bem, dona Sônia”, “A senhora cada dia mais elegante, dona Arminda”. As obsequiadas pareciam incomodar-se pouco com os gracejos. Às vezes, uma imprudência: “Beleza não tem idade, né, dona Carminha?”. Chiquinho, entretanto, foi mudando depois que a Soninha veio trabalhar no laboratório. No início, os galanteios de mau gosto no tom de sempre. Com o tempo, o tom foi subindo, e os galanteios se tornando grosseiros, importunação. Soninha procurou Deoclécio, que advertiu Chiquinho:  “Meu amigo, não abuse. Você sempre brincou, mas sem perder o respeito. Essa história com a Soninha está passando dos limites. Todos aqui gostam de você, se segure. Só espero que eu não tenha que levar o assunto ao doutor Ataliba”.

A simples menção do nome doutor Ataliba provocava espasmos em qualquer funcionário do Rocha Mendes. Doutor Ataliba, o circunspecto superintendente administrativo do laboratório, enquadrava-se em qualquer estereótipo que se imagine de uma alma conservadora. Católico praticante, seguidor do mantra “Deus, Pátria, Família e Liberdade”, palestrante proverbial dos encontros de casais da paróquia, viúva queixosa do Lacerda, defendia para a empresa um ambiente de seminário. Defensor feroz da indissolubilidade do casamento, não aceitava a fraqueza dos que se separavam, ainda que por motivos a todos compreensíveis. Casado com dona Elza há 34 anos, andava sempre de terno azul escuro, cujo paletó jamais tirava. Os sapatos, sempre pretos. As meias, cinzas. Jamais usou um jeans, fosse para uma simples ida ao supermercado ou à Casas José Silva, que frequentava com a assiduidade exigida pela renovação de seus ternos azuis, sapatos pretos e meias cinzas. Demitia sumariamente qualquer desinfeliz que ousasse contrariar seu rigoroso código de ética. E o fazia com indisfarçável prazer. A sala do doutor Ataliba cercava-se da aura mórbida de um mausoléu gótico.

Numa daquelas tardes que se desenham tardes quaisquer, com a modorrenta rotina do laboratório embalada pela acomodação dos contentes, Soninha entra aos prantos na sala de Deoclécio:

– Doutor Deoclécio, pelo amor de Deus, agora passou dos limites. Olha só o que eu encontrei em cima da minha mesa.

Deoclécio viu nas mãos de Soninha um amontoado de papel grudado. A impressão era de que estavam colados por descuido, quando se aplica cola em excesso.

– Calma, Soninha, me conte o que aconteceu.

– Doutor Deoclécio, eu cheguei na minha sala e vi um envelope com meu nome. Pensei que fosse um bilhete qualquer da chefia, mas não. Quando abri o envelope, olha o que eu achei, doutor, um absurdo! Essa coisa nojenta, toda melada.

Deoclécio mal pôde acreditar no que viu. O papel amarfanhado que imaginara impregnado de cola era na verdade um borrão de sêmen. Nele, embora grudado em parte no envelope, lia-se impressa a frase “Guarde o melhor de mim; é tudo o que desejo te dar”. Soninha em desespero gritava:

– É aquele safado do Chiquinho, doutor, é aquele tarado!

Não havia como tirar razão das suspeitas de Soninha, O comportamento estranho do Chiquinho, suas liberdades cada vez mais acintosas com Soninha, seu incomum despudor no trato diário com ela. Enfim, não havia como deixar de creditar a Chiquinho a autoria daquele ato obsceno e repugnante, criminoso. A notícia correu o laboratório com a velocidade de um silvo numa capela. Todos sem exceção contavam a história já denunciando suspeição: “Gente, você não imagina o que o Chiquinho fez…”.

Deoclécio chamou Chiquinho, e antes mesmo que lhe pudesse dizer alguma coisa, Chiquinho se adiantou:

– Doutor Deoclécio, eu sei que meus colegas têm razão quando me condenam. Essa mulher virou minha cabeça, me tirou o juízo. Não consigo mais dormir de tanto desejo. Nunca imaginei que aquele fogo pudesse me consumir do jeito que me consumiu. Eu vinha trabalhar e não dava mais conta de fazer o serviço. Só pensava naquela aparteada com o diabo, naquele poço de pecados, naquele fogo dos infernos. Eu endoideci, doutor, mas pode acreditar: não fui eu que fiz aquilo.

– Chiquinho, fica difícil crer em você. As evidências são muito fortes. Já foi um custo fazer a Soninha desistir de chamar a polícia. Mas não tem jeito, vou ter que levar o assunto ao doutor Ataliba. Até porque ele já tomou conhecimento.

– Faça o que melhor convém ao senhor, doutor Deoclécio. Mas, acredite, não fui eu.

Deoclécio sabia que o encontro com o doutor Ataliba cumpriria apenas a formalidade de carimbar a decisão que todos esperavam: a demissão sumária do Chiquinho. Antes do encontro, Neyzinho, um estagiário de TI do escritório, procurou Deoclécio e se prontificou a ajudá-lo:

– Doutor Deoclécio, eu posso descobrir que máquina gerou a impressão daquele texto. A máquina que gerou e o horário em que foi feita a impressão. Vai me dar trabalho, mas eu descubro.

– Deixa pra lá, Neyzinho, vamos dar logo um fim ao assunto e… vida que segue. Mesmo assim, muito obrigado.

No dia seguinte, Deoclécio, cumprindo o que lhe cabia fazer, esteve com o doutor Ataliba. Mal começou o assunto, e foi cortado pela fúria do superintendente:

– Ataliba, isso aqui está se transformando em um bordel. Um absurdo. Você tem que tomar uma providência urgentemente. Não afrouxe, não passe a mão na cabeça de ninguém. Seja rigoroso, doa a quem doer.

– É exatamente isso que eu venho lhe dizer, doutor Ataliba. Já tomei todas as providências para demitir o Chiquinho, e até já lhe trouxe a papelada para que o senhor assine.

– Eu pensei em outra solução, doutor Deoclécio. Para evitar que fatos dessa natureza se repitam, vamos cortar o mal pela raiz. Primeiro, pela dona Soninha.

– O senhor tenciona demiti-la. Doutor, ela é a vitima.

– Não, não. Para que ela não provoque mais esses impulsos pecaminosos em nossos funcionários, eu lhe determino que dona Soninha venha trabalhar na recepção da superintendência. E o Chiquinho, bem…não quero prejulgar, desconfio até de que não tenha sido ele o autor do bilhete asqueroso. Mas precisamos manter a integridade moral de nosso ambiente de trabalho. Transfira-o para nossa unidade de Adrianópolis.

Deoclécio não entendeu a inesperada decisão do doutor Ataliba. Sua surpreendente generosidade. Ordens, no entanto, são para se cumprir. E o determinado foi feito.

Passadas duas semanas, Neyzinho entra arfante na sala de Deoclécio, e lhe faz uma revelação em tom dramático:

– Doutor Deoclécio, eu sei que o senhor me liberou do compromisso, mas eu não dei conta de não fazer. Fiquei obcecado pela ideia de descobrir que máquina mandou imprimir aquele papel do Chiquinho. Hoje pela manhã cheguei aonde queria chegar. Aquele papel não foi impresso por comando de nenhuma máquina de nossa rede.

– Eu não lhe disse para esquecer o assunto, Neyzinho. Mas o que quer dizer isso?

– Eu tive que fazer, doutor, eu não aguentei. Eu posso lhe garantir: o comando de imprimir aquele papel não saiu de nenhum computador da rede do laboratório. Alguém invadiu a sala da superintendência e de lá imprimiu na máquina exclusiva da secretária do doutor Ataliba, dona Durvalina. Foi de lá que saiu o comando da impressão daquele papel.

Com a informação do Neyzinho, Deoclécio decidiu voltar ao doutor Ataliba. Telefonou para dona Durvalina e lhe pediu que marcasse um horário com o superintendente. Durvalina o orientou que aparecesse depois do almoço, que encontraria uma brechinha na agenda do chefe. Tão logo voltou do almoço, Deoclécio partiu para a sala do doutor Ataliba. Na recepção encontrou Soninha perfumada na medida certa, linda num vestido tubinho de boa origem, mas tensa, muito tensa. 

A tensão de Soninha fez Deoclécio cair em si pela lembrança da frase surpreendente do doutor Ataliba no dia do desfecho do episódio do envelope melado: “E o Chiquinho, bem…não quero prejulgar, desconfio até de que não tenha sido ele o autor do bilhete asqueroso”. Virou-se para dona Durvalina já meio que se despedindo:

– Dona Durvalina, não é nada urgente o que eu tenho de trazer ao doutor Ataliba. Não precisa incomodá-lo, mexer na sua agenda. Posso noutro dia qualquer conversar com ele. Obrigado, até mais”.

Ao passar por Soninha, Ataliba não se conteve: “Soninha, sei que é difícil, mas você sabe do que estou falando. Não se intimide, tome coragem para fazer o que deve ser feito”. Não deu duas semanas contadas, Soninha tomou a coragem que lhe estimulou Ataliba e fez irromper o maior escândalo da história do Laboratório. A coragem de Soninha foi puxando a coragem de outras num encadeamento chocante e avassalador. 

Deoclécio, ao encontrar o amigo Oliveira no corredor que desembocava no refeitório, foi direto: “Que orgulho da Soninha. Sempre desconfiei do canalha. Aquele ponto-e-vírgula do bilhete não podia ser obra do Chiquinho”. 


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