Magros: Um Ressentimento

Na primeira cena de Amadeus, o clássico de Milos Forman, um velhinho desacochado rumina sons guturais por desimpedir a vida esvair-se implacável e vagarosamente. A ambientação fiel de Forman confere ao hospício, onde está o velho, aspecto assustador. No telão, a angústia do velho ganha contornos de uma angústia ainda maior. A cena é chocante, como eram chocantes os métodos de se tratar os loucos no século 18. O velho era o grande músico Salieri, cuja loucura nasceu da inaceitação do talento superior de um gênio coetâneo: Mozart. No meião do filme há uma cena em que Salieri pateticamente cobra de Deus não ser ele, um homem dedicado à música com fervor religioso, e sim Mozart, um desregrado, o beneficiário do dom de ser tocado pelo Pai com um talento superior. A loucura de Salieri nasceu da inveja.

Confesso que não tenho pelos magros inveja. Tenho pelos magros, diria, um certo ressentimento. Ressentimento com o desdém com que eles, os magros, conferem à concha divina de bênção de poder comer sem culpa. Fosse eu um magro e passaria cada tantim de meus dias obrigadeando aos céus pela maravilha do desfrute do prazer sem preço a pagar. Ergueria igrejas de campânulas inimagináveis, e cuidaria de escrever, se a tanto não me faltasse engenho e arte, as mais pungentes loas hipercalóricas, por habitar o mais confortável andar do edifício do céu. Mas eles, não. Eles simplesmente são magros, e veem nisso um quinhão de naturalidade que causa em mim, pra deixar barato, estupefação.

Talvez a grande divisão entre os mamíferos pensantes não se dê pela cultura ou pelo dinheiro. Dê-se pela condição de ser ou não ser magro. Tivesse Marx repartido a sociedade não entre opressores e oprimidos, mas entre gordos e magros, e suas sabenças estariam sendo postas em prática num tantão de mundo. Conta ele não deu de se aperceber, apesar de toda sofisticação dialética de seu materialismo histórico. Usasse seu gênio para desenvolver a tese da mais-pesança, o mundo o entenderia e o glorificaria acima dos vieses de praxe.

Sou gordo. Sei quanto doloroso foi aceitar esse carma de condição existencial irrenunciável. Já estive magro por muitos pedacinhos de minha vida, mas devo admitir que, mesmo estando magro, sempre fui gordo. E serei gordo. Penso gordo, ajo gordo, alimento-me gordo, e, o que é pior, metabolizo gordo. O gordo é um humano particular, preso a códigos de saciedade intrinsecamente relacionados com a quantidade, com a generosidade, com a exagerança. Sentimo-nos meros transformadores de oxigênio em gás carbônico caso sejamos privados da compulsão pelo excesso. Nossos filhos são gordos, nossos supermercados são gordos, nossas viagens são gordas, nossos sonhos são gordos, nossos cachorros são gordos, e, se algum de nós cometer a atrocidade de aprisionar passarinhos em gaiola, esses passarinhos serão gordos, com penas espetadas ao céu pela pressão dos triglicerídeos de alpistes abundantes. Temos uma visão própria do mundo: vemos o mundo sob a perspectiva de o quanto ele pode nos prover de prazer superlativo. Desde que precedido de tira-gostos.

Já encaminhado na idade, não tenho mais o direito de me enganar hipocritamente. Vivi comprometido com planos de me manter magro, desconfirmando uma informação genética que me impõe ser gordo. Estando magro, invariavelmente estive atado a rotinas que desconfortavam meu instinto. Estive artificialmente feliz, naturalmente contrariado. O benefício de estar magro jamais foi suficientemente determinante, pedagógico, para que eu declinasse de minha condição de gordo para todo o sempre. Ia e voltava dos píncaros da balança feito qualquer um de nós, os gordos congênitos.

Voltemos aos magros. Observo-os metodicamente. Meu laboratório providencial foi por tempo de conta o ônibus que me levava e trazia do caminho de Friburgo ao Rio, onde fingia dormir enquanto perscrutava seus deles hábitos. Solidarizava-me silenciosamente com os gordos, envolvidos com a mão-de-obra de acomodar-se a poltronas apertadas e ao malabarismo de manter nas mãos dois ou três pacotes de biscoito. Os magros, eu os observava na forma de abrir o pacote sorrateiramente. Emprestam ao rito um ritmo lento e provocante. Muitos abrem o pacote e esperam uns dois ou três minutos para enfiar em islou môchiom o maldito do biscoito na boca. Dois minutos, em provocação acintosa. Vão a passos de cágado consumindo biscoito por biscoito. Se for o de polvilho, por exemplo, seu som, quando comido por magros, é o de uma porta rangendo pela ação de uma brisa leve. Muitos, sádicos impiedosos, nos agridem com o recolher o pacotinho ainda com biscoitos, a pretexto de guardá-lo para outro dia. Uma humilhação. Já o gordo congênito parte pra tarefa de zerar o saco de biscoito na marra de questão pessoal. Encara com voracidade pra feitio de eliminar conteúdo sem deixar vestígios, e apoteoticamente recolher goela abaixo o farelo remanescente, de forma a deixar a embalagem limpa tal alma de um casto. Aquele mesmo biscoito de polvilho, se estraçalhado por gordo congênito, acompanha-se de som semelhante ao de um bate-estaca moendo cascalho. Inda assim seria um inapropriado exagero classificar o que sinto pelos magros como inveja. Trata-se mesmo de ressentimento.

Tomo cá meus cuidados, mas vez por quando vacilo e revisto minha periferia corporal sempre com entre 20 e 30 quilos de adiposidade, o que me leva a adotar estratégia de guerra para voltar aos sub-100. Começo com uma dieta de baixíssima caloria, e perco 20 quilos em três meses. Na base da sopa e do jejum. Perco 20 quilos, mas perco, como sempre, o humor, a alegria de viver, o prazer de sorver a vida pelo cardápio fantástico de prazeres com que ela nos incita narinas e retinas adentro. Tento sempre algo novo. Um certo dia me lembra: ao ler na Veja a matéria “Ele estava certo”, decidi vencer o preconceito e dar uma chance ao arcabouço atkinsiano. Comprei e li, reli e treli o livro. O que se passou comigo foi estranho, embora eficaz. Emagreci sob as luzes de um espetáculo pirotécnico de gorduras aos borbotões. Dei banana pra alface, dedo médio para o agrião, esconjurei a abobrinha. Mandei solenemente a rúcula à merda. Entrei de cabeça no mundo maravilhoso dos queijos amarelos, ovos e suínos. Senti-me bem por um tempo, num clima de acerto de contas com o fatalismo de minhas verduras. Com o passar dos dias, no entanto, o que parecia uma farra hedonista desbitolada incumbiu-se de trazer a reboque asco e náuseas. Eu, linguicista profissional, de linguiça tomei zé até do cheiro, e passei mesmo a ver em sua forma um falo torpe e agressivo. Odiei o bacon com todas as minhas forças, e vi a gordura da picanha assemelhar-se aos poucos a um nojento e obeso verme amarelo-claro. E havia ainda o peso da renúncia aos fermentados e alguns destilados, sem os quais, confesso, torno-me um chato monumental.

Abandonei, velho de guerra, meus impulsos predadores de carboidratos e meus jejuns assépticos. Converti-me à seita da dieta balanceada. Vou me arrastando por sua bitola, a compensar os exageros da mesa pelas passadas marciais movidas a ridículas meias-soquete, às quais me entrego sempre que não chove.

A bosta é que chova tão pouco.


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