Fred: A Bola Chega

Quando o Fred chapou aquela bola rolada caprichosamente pelo Martinelli e trouxe o destino para fora do curso da inconsequência, meu mundo se tomou de encantamento. A alegria de menino dele me trouxe a alegria do menino que jamais deixei que secasse em mim. O choro que veio no rastilho coroava o misto de emoções particulares que só uma relação de amor desabrido pode produzir.

Me veio ali a banca do Salvador, na rua da minha infância, quando chorei no pacotinho a figurinha carimbada do Telê, linda em suas três cores, e abracei a paixão indizível de ser tricolor. Veio a bola do Manfrini se arrastando no chão encharcado do Maraca pelo tempo de nove dilúvios. Vieram Assis voando sob o espanto do Fillol; a barriga do Renato; o elástico do Riva; o passe longo do Samarone; a elegância do Pintinho. Tudo cabia nessa viagem transcendente e acolhedora. Veio a noite da tragédia, a noite em que no rádio do meu carro, na imensidão escura da Estrada de Lumiar, recebi a sentença da purgação anunciada. No mundo desmedido da imaginação, cabem tempos e lugares que descaberiam no plano insensível dos fatos. Me vi sentado no degrau da Estátua do Bellini, aos prantos, tentando reinventar a realidade que me feria como uma flecha furiosa após a noite da frustração da mais linda festa que o Maraca recebeu, quando ainda havia Maraca. Meu filho só me olhava, como a decifrar, pelo código particular da relação pai-filho, a imensidão da dor que se recusava a calar.

Tudo coube naqueles segundos em que o Fred correu pelo gramado como a dançar no jardim suspenso de nossas melhores emoções. Pleno de glória e de reconhecimento. Esse é o papel do ídolo. Muito já se escreveu sobre o que o Fred conquistou, seu aposto de imperador Alexandrino – Fred, O Maior – a desfiar todas suas conquistas pessoais. Mas falo de sentimentos, do quanto o Fred tocou a vida de milhões de pessoas pelo simples fato de ser ele, e desse ser ele, ser um muito de nós, fonte incessante das mais comoventes emoções de tantos.

Ao tirar o último tufo de grama de sua chuteira, num gesto impregnado de simbolismo, o Fred sai do gramado para entrar na História, deixando a mais comovente carta-testamento. Sua presença já está atemporalmente guardada em todos nós. Nos tricolores que já se foram, nos tricolores seus coetâneos, e nos tricolores que ainda vão nascer, e que serão tricolores muito por sua causa.

Fred experimentou todas as sensações de um esporte que mobiliza paixões. Viveu a glória do reconhecimento, mas sofreu a dor da injustiça, quando teve a sorte de ser acolhido por quem aprendeu a fazer do sofrimento impulso de reconstrução. Mesmo quando nos deixou, pela insensibilidade criminosa de quem o trocou por números burros, ele continuou em casa.

Que a bola chegue redonda todos os dias em sua vida. Não mais por um três dedos mágicos de um gênio como o Deco para o voleio de logomarca, mas pelo sopro apaixonado de milhões de saudades, que vai deixá-lo na marca do pênalti. E ali, naquela marca, ele não perdoa.

Boa sorte, camarada. Valeu demais.


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