Fluminense: Voltando à Nossa Luta

Ainda muito menino fui tragado pelo imaginário do futebol, pelo que o futebol representava como explicação do mundo incompreensível que se apresenta à criança. Um mundo com realidades exterminadoras de nossas representações infantis, que só se mantêm próximas de nós pela via segura da imaginação, do universo místico do lúdico. Há poucas saídas para as apreensões que tomam a criança quando a vida real a abraça com seu véu ameaçador. Nenhuma reúne tanta carga libertadora como se apaixonar por um clube de futebol. Não foi diferente comigo. O futebol se instalou em minha vida de forma avassaladora e irreversível. E o agarrei como o menino que escolhe o melhor sonho para fazer dele seu abrigo e motivo. Um sentimento que o tempo não mitiga, talvez o torne diferente pelo que vamos acumulando em nossa tarefa de ir vivendo os dias, mas jamais deixará de ser intenso e irrenunciável.

Não foi difícil me apaixonar, já que me apaixonei desde o início pelo Fluminense, um clube por natureza apaixonável. Acabara de sair da excelente escola pública Alberto Barth. Pousei inseguro no chão lazarista do Cosme Velho. Os padres de quem fiquei amigo e admirador me ajudaram a decifrar o simbolismo punitivo do catolicismo. Antes, contrariado, apenas acompanhava minha mãe nas missas de domingo. Mas foi no Fluminense que encontrei minha religião particular, com livro e profeta próprios. Nele reconheci a origem, o caminho e a glória; o Velho e o Novo testamentos; a gênese, os salmos; jamais o Apocalipse. Vi em Álvaro Chaves o Éden; em Oscar Cox, o profeta; em sua história, a minha fuga da servidão. Dores houve, mas invariavelmente acompanhada de alentos. As semelhanças dos postulados se explicavam pela semântica da compreensão religiosa. Até mesmo um gesto torpe, a defecção do Judas, o profeta Oscar, depois de comer o pão, tratou de aclarar: “Satanás entrou nele. O que você está para fazer, faça depressa”. E foi feito. E até hoje somos o seu castigo. O velho simbolismo punitivo.

Amei de pronto o Fluminense chorando na banca do Salvador, na rua de minha infância, a figurinha carimbada do Telê que, em tempos imemoriais, completara meu álbum. Arrebatadora em suas três lindas cores. Foi fulminante. Hoje, quando lembro daquele dia pela janela tépida, esfumaçada, de minha memória, guardo o carinho de um filho nascido no último corredor de uma maternidade de luz tímida, contrastando com o sol do choro estridente e libertador da vida renovada. Renasci ali, como renasci em cada filho. Sou grato ao Fluminense por jamais me abandonar em minhas dores aflitivas, por me recompensar com indizíveis epifanias. Assim são os bons amigos, solidários na dor e na alegria. Recebi do Fluminense muito mais do que consigo lhe dar, muito mais do que sonhei dar. Sou-lhe organicamente grato.

Quando vejo o Fluminense precisar de todos nós, vem-me de imediato o impulso solidário, o desejo de protegê-lo, ainda que consciente do mal que oportunistas lhe infligem. Ao protegê-lo, sou essencialmente pragmático, pois me protejo antes de tudo. Que nenhum canalha se sirva deste momento para dele tirar proveito pessoal ou político. O Fluminense é imensamente maior que um clube, um quarteirão, que um bairro, uma cidade. Supradimensional, vive eternamente em milhões de almas apaixonadas, espalhadas por um vasto país. Ele é um país. O Fluminense contará incondicionalmente comigo.

Tão logo cessem nossos piores temores, aí sim, que os instintos de proteção de cada um de nós se voltem para punir com escárnio a torpeza dos que nos fizeram recuar momentaneamente para a outra margem do rio.

Agora, acima de todos nós, é o Fluminense, porra! 


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