Dia dos Pais

Já tinha ouvido Belchior. A primeira vez, no velho festival da Tupi, com “Hora do Almoço”. Toco violão desde garoto, e “Hora do Almoço” dava sustança a repertório de qualquer roda de viola quando ainda havia roda de viola. Muitas vezes nos desbuns depois das passeatas que mobilizaram os secundaristas em estado de salvação do mundo em meio às atrocidades da ditadura brasileira. Com gritos de ordem e bolas de gude para fazer derrapar os cavalos dos meganhas. Corríamos em busca do que nos lembrava liberdade como ratos atrás da flauta da fábula. Os lazaristas do Colégio São Vicente agarraram o sentimento do mundo com a Bíblia na mão direita e a capacidade de se indignar com as injustiças na mão esquerda. Seu exemplo nos empurrava para as ruas, onde aprendíamos na porrada que havia um mundo com que se inconformar além do ambiente asséptico, embora inquieto, do inovador colégio do Cosme Velho. Cantávamos nas rodas os gênios que nos chegavam de fora nos anos 60 e 70 e, por aqui, Chico, Vandré, Gonzaguinha pré-melação, Caetano, Gil, Bandera Rossa, e, quando veio vez, por distensionar, “O pai na cabeceira, é hora do almoço”. O mesmo repertório que embalava as naifs madrugadas psicodélicas em Boca do Mato, fumando cigarro com Melhoral, a recolher dor de cabeça onde pensávamos encontrar viagens arrebatadoras. Bebíamos muito. Conhaque Dreher, Calcinha de Nylon, Cinzano traçado com cachaça, e, rarissimamente, Old Eight, um luxo naqueles tempos. Fosse tal fosse, tocados pela pulsão adolescente, falávamos e falávamos de futebol, com uma ou outra concessão a citações dos clichês comunas da época. Transitávamos da utopia igualitária – da sociedade assentada sob o primado do bem comum – a Rivelino, Pelé, Jairzinho, duplo ou triplo na loteria esportiva. Com o desembaraço de almas sobrevoando cemitério de castos. Nesse tempo, forjei os amigos de cepa rara que o destino me pôs nos braços para repartir com eles o que a vida me guardou e guarda. Não passou muito tempo, ainda menino, passei a contar, do berço ao colo, com a companhia recém-chegada de meu primeiro filho. Somei aos prazeres que não deixei as preocupações que atracavam no cais de um casamento recente sob os auspícios da presença estridente de uma vida suplicando amor e cuidado.

Rato de lojas de discos, cumpria religiosamente meu caminho de Santiago, que ia da Billboard a Modern Sound, da Santa Clara à Barata Ribeiro, em Copa. Numa dessas fuçações, vi um certo disco na vitrine que atiçou com estardalhaço todos os meus paladares. A capa, em azul e vermelho intensos, chamava atenção pelo semblante inestranho em traços empastelados. Pulava da vitrine a colher o mundo pela certeza de que o mundo reconheceria estar ali um sopro de magia que lhe iria virar a página. Pelo menos a do meu mundo, que num é pouco de monta. O título, “Alucinação”, bateu firme em quem andou às voltas com convulsões ao pisar os primeiros passos neste terrão insano de Deus e demônios, desejos e indesejos. O disco era do Belchior, e boas vozes já andavam falando maravilhas dele, com a cumplicidade feérica da Elis, minha paixão recolhida. Comprei-o sofregamente e corri para casa, a alguns quarteirões dali, com a impressão de que estava perdendo o pulso da História a cada minuto perdido por não ter ouvido o que escorreria daquele vinil para mudar minha vida com a intensidade de uma revelação pentecostal. Ouvi “Rapaz Latino Americano”. Ouvi a ducaralho “A Palo Seco”, até chapar em transe ao ser ungido pelos sons e asperezas de “Como nossos pais”. Coisas da idade.

Aos 23 anos, senti-me lançado no meio de uma cadeia geracional, onde me cabia um papel que sequer dava conta de entender. Meu filho com dias de vida e meu pai separado de mim pelo que parecia uma eternidade etária. Orgulhava-me do velho, me dava bem com ele, juntava a malemolência baiana com a austeridade dos coronéis de sua Andaraí. Uma rocha de autenticidade. Sempre regou minha independência ao me dar corda para que quebrasse a cara, sem saber que o tinha à espreita. Sábio. Foi com ele que fui à banca de jornal do Salvador, na velha e inesquecível Rui Barbosa, e chorei no pacotinho a figura carimbada do Telê, que me lançou nos braços da maravilhosa aventura de ser tricolor. Isso bastaria, mas fomos muito mais. A letra de “Como nossos pais” é perigosamente chocante para um pai recém-saído da adolescência a deitar sabença pela via larga da idiotice: “Nossos ídolos ainda são os mesmos e as aparências não enganam, não”. Prossegue por mais: “Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”. Acabei de ouvir o disco, corri para o berço e vi simultaneamente três gerações no corpo frágil daquele neném que reclamava atenção e amor numa proporção assustadoramente desafiante. Eu, meu pai e meu filho recém-nascido tínhamos por encanto a mesma idade, mergulhados em um rio caudaloso de amor e perplexidade. A partir dali, resolvi mais que amar meu pai, decidi ganhar-lhe a confiança e a amizade, o que consegui, ainda que faltando tempo de pouco para que ele me deixasse. Fui além: decidi perdoá-lo pelos erros banais que me trouxeram injustificadas assombrações. E por seus erros acintosos, que jamais obliteraram o amor que incondicionalmente compartilhávamos. Pais são assim, erram. Erro e culpa se imbricam organicamente na paternidade. Sei hoje que doeu nele mais que em mim. Por aprender no exercício de libertar o coração de sentimentos conspurcantes, vou mais à frente. Peço aos meus filhos que me perdoem por erros que cometi na pior circunstância, quando por amor pensava acertar. Peço-lhes um pouco mais: o perdão por meus erros graves, por ter subestimado a capacidade de os filhos deles não esquecerem ainda que pela ação do tempo. Levo para a cama todas as noites a tormenta de culpas que, ainda que por mim reconhecidas em ato de contrição, só metabolizarei com o perdão. Convivo insone com suas esporas.

Quando me tornei de meu pai seu parceiro no fascinante universo das coisas simples, pude experimentar sem arestas uma até então estranha sensação de completude. O Johnny Red com que ele me esperava em São Pedro da Aldeia sob a escolta do indefectível balde de gelo laranja, quando, feliz, fazia para mim a leitura de trechos de seus novos livros. Leitura que muitas vezes me chegava pelo telefone nas horas nascentes das manhãs. O que antes me era fardo tomou-se de suave delícia. Conversávamos prazerosamente sobre tudo. Fui aprendendo a retirar dessa relação reconstruída cada tantim de ensinamento e perspectiva de amor que podia tirar. Aprendi, escrutinando cada gesto dele, que filhos, próximos ou fugidios, por vez de muita se desencontram de nossas certezas, tornam-se estranhamente incompreensíveis, antirretratos de nossas expectativas, que são unicamente as nossas e que se corrigem pelas deles. Nossos filhos não somos nós, somos apenas parte disso. Não é pouco.

Faz 25 anos que o perdi. E o perdendo, perdi bem mais que a perda. 

Edmund Wilson, um de meus melhores gostares da geração maldita que desarrumou arrumando, em meio a porres monumentais, a literatura norte-americana do início do século passado, ao relatar em suas memórias o sentimento que se lhe infestara ao perder seu pai, definiu-o pela sensação pesada e asfixiante de que nada mais o apartava da morte. Os pais são muros, voltimeia de concreto, vez por onde de bambu passado, mas fronteiras nítidas, referenciais, para o território do fim.

Meus filhos cresceram e pude tocar pra eles “Como nossos pais”. Foi libertador lhes contar como vivi e tudo o que aconteceu comigo. Afinal, viver é melhor que sonhar.

Aos pais e filhos que me leem neste cantim, um dia feliz. A meu velho, a saudade. Aos meus sete filhos, próximos e distantes, quando e onde fui proscênio ou pano de fundo, meu amor incondicional.


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Comentários

Uma resposta para “Dia dos Pais”.

  1. Parabéns, Beto, pelo pai maravilhoso que vc é, e pelo texto, belíssimo e emocionante!! ❤️

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