David Crosby

Já havia chapado com o primeiro disco dos Byrds. Logo na primeira faixa, uma reinvenção dissonante do clássico do Dylan, Mr Tambourine Man. O segundo – “Turn, Turn, Turn” – não me desmentiu. Os Byrds gestavam o que seria a mais profunda releitura do folk na história da música americana, que viria pouco depois com Crosby, Stills & Nash, a quem se juntou o bardo Neil Young. Apesar do talento arrebatador do autor do hino “Hey hey my my” – o decapolarizado Young -, o que unia o timbre inovador do folk era a presença de David Crosby, fundador dos dois grupos. CSNY nos deixou um disco clássico,  “Dejá Vu”, e uma obra definitiva. Não à toa que o Scorcese, ainda muito jovem, assistente de direção do filme “Woosdstock”, escolheu “Long Time Gone” para música de fundo das incríveis cenas que mostram a chegada e o ajuntamento de uma procissão de estranhos que mudaram a cultura do mundo pra mais de três Mao.

Neil Young deixou o grupo para consolidar uma das mais impressionantes carreiras da história do rock, alternando revisitas ao folk com discos de rock rascante, repletos de guitarras guturais e o peso sempre competente do Crazy Horse. Stephen Stills fez um bom álbum solo, “Manassas”, e nada de mais registrável. Grahan Nash participou de muitos discos de artistas importantes, lançou uns discos honestos, mas ficou secundário. Já David Crosby não parou de andar.

Crosby, considerada a melhor segunda voz do Folk, construiu uma biografia de corar o Demo. Traficante de heroína, junkie brabo, abandonou um filho que entregou para adoção, transitou à vontade por onde as piores almas ficam com um rabo atrás. Registrou tudo em seu catártico livro de memórias “Since Them: How I Survided Everything and Lived to Tell About It”. Antes, lançou um competente disco solo, “Oh, Yes, I Can”, e participou de muitas outras gravações dos grandes por sua incrível capacidade de conferir um timbre levemente dissonante ao fluir quadradão do folk. Entre uma coisa e outra, cedeu esperma para que Melissa Etheridge tivesse um filho com sua parceira de anos.

O filho, James Raymond, abandonado há mais de 20 anos por Crosby, voltou à sua vida, e lhe permitiu construir o que desde já considero um dos melhores discos que ouvi pelos últimos 10 anos: “Croz”. O moleque toca quase todos os instrumentos, e se sente à vontade ao lado de referências como Winton Marsalis, Mark Knopfler, Jackson Browne e outros. O disco, de um artista imenso, com mais de 70 anos, mostra um vigor impensável. Para quem imaginava o folk como uma fórmula esgotada, corra ao “Croz”. Ao ouvi-lo, lembrei-me de “Sweet Tea”, joia do genial Buddy Guy esculpida quando estava próximo dos 70 anos. O disco do guitarrista que mais influenciou Jimi Hendrix começa com um lamento: “Eu sou um velho, já não posso mais nada…”. E de repente irrompe um disco lancinante, com um vigor e peso que o Hendrix assinaria aos 25 anos. Depois de “Croz”, Crosby lançou outros ótimos discos, mas o disco de seu reencontro com o filho abandonado é marco de fronteira.

Ferencz observou que quando se arranha a pele de um adulto, se revela a criança que nele se esconde. Quando ouço música que arranhe minha pele, liberto a criança de Ferencz que mora em mim. Estou em boa companhia, estou na companhia de David Crosby e Buddy Guy. 

David Crosby morreu em 2023, aos 81 anos (“Estou mais velho e maltratado, carrego mais cicatrizes”), mas a importância de sua obra ficará para o sempre de cada um de nós.


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