Tava eu por tempo passado bordejando a praia dadivosa de minha preguiça, deitadão, ouvindo a tv sussurrar o atalho ininteligível de meu sono, quando me dei conta que tinha começado um programa em que o Chico Pinheiro entrevistava o Toninho Horta. Na Globo News, por onde costumo estacionar meu controle remoto vez por outra, vez por menos agora. Gosto dessas entrevistas do Chico Pinheiro com artistas. São, tirante raros casos, gente da patota do Chico, o que é ainda mais sestroso. Rola um clima de intimidade sincera, diferente daquela intimidade ufanista do Galvão Bueno quando anunciava a entrada do “meu amigo Faustão”, logo após o jogo. O Galvão é o mais insultuosamente feliz dentre os mais de duzentos milhões que guardam na gaveta certidão com brasão desta pega-não-pega República Federativa. O Galvão nos humilha por não fazer a menor questão de dissimular esse estado de euforia com que invade a vida da gente pela intermediação diabólica de uma tela plasmática. É injuriante. Jornalista que se preza não tem o direito de ser feliz desse jeito. Fez escola, onde se formou com prosa e pompa o entusiasmado Luís Roberto. Galvão é competente, referência, para muitos um símbolo pátrio, mas feliz demais pro meu bico. Por estas e tantas assino Premiére. Quando alguém remeda o ícone, me liberto dessa felicidade dissonante com o acionamento recorrente do mute.
Voltando ao Chico Pinheiro, me dei conta do programa agradável. Cuidei de me reassentar na cama, ao tempo em que fazia o volume da tv sair da região do sussurro. Que presente de conta generosa ganhei naquele domingo modorrento, à espera do sofrimento tricolor em doses certas de noventa minutos. O Toninho Horta não largou o violão um tantinho sequer, dedilhando harmonias e melodias conhecidas e inusitadas, a recolher nelas coragem pra driblar a timidez que não conseguia esconder no contar gostoso das histórias de sua carreira, que pendulou entre o Brasil e os Estados Unidos. Toninho gravou com parte dos grandes nomes do jazz contemporâneo, foi sugado até a medula por gente de responsa como o Pat Metheny. Esteve sempre entre os vinte maiores guitarristas do mundo nesses rankings de bordejo especulatório, incensado por gente do calibre de um Quincy Jones, que não gasta lenha com fogueira errada. Não satisfeito, só de sacanagem, fez – música e letra – “Beijo Partido”. É pouco? O Toninho, ao contrário do Galvão Bueno, tempera a alegria com a contrição adequada, qualidade com que a vida brinda os que nela veem mais que um parque de diversões. Fala baixo e alterna a velocidade das palavras com a das notas e acordes. E lá seguia o Toninho estraçalhando no violão e simultaneamente conversando, desfiando exuberantes composições que jamais serão tocadas por apenas fugazes fundos de conversa. O Chico estava à vontade, imprimindo à entrevista um ar de bate-papo gostoso, lembrando de coisas e casos, tudo no tom certo.
Aí se deu a pergunta-chave, uma questão que resume, por obra do Chico, nossa perplexidade, quando confrontados com a manifestação de um espírito superior. Pergunta enganosamente boba, mas profunda quanto as reflexões de Santo Agostinho, encerradora de mistérios como a arca das sinagogas, a hierarquia trinitária ou os banhos do Ganges: “Você ainda consegue tocar violão de gente normal?”. Porra, Chico, mas que pergunta, maluco, que pergunta! Como eu gostaria de fazê-la minha. Não é pro bicão de qualquer jornalista de faculdade, não. Nem pra comunicólogo com texto-chavão papagaiado das bíblias profissionais. A pergunta, irrompida num ambiente de cumplicidade, ficou ainda mais gostosa. O Toninho respondeu com um sorriso acusatório da compreensão do sentido metafísico da questão, como a dizer: “Chico, claro que sim, o segredo está em não tirar o pé da simplicidade”. O Toninho, no entanto, respondeu com um sorriso, mas tenho certeza de que quis dizer exatamente isso.
A pergunta do Chico pode e deve ser estendida a todas as áreas da bisbilhotice humana. Os mestres e doutores, os juízes e procuradores, os generais e senadores, os que andam por aí enchendo o bucho de ciência, conhecimento e vaidade – desconectando-se pela arrogância do mundão de Deus que pulsa cá e ali – poderiam aprender com o falso paradoxo da pergunta o que não aprenderam em centenas de horas com a bunda cravada nas carteiras de escolas, universidades e outros úteros. Para lembrar que somos gente, será que não nos resta outra alternativa, ao acumularmos muitas vezes simulacros de sabedoria, que não o de soprar balão acima o gás poderoso da simplicidade? Dar as costas às coisas das gentes ordinárias, em seu repertório de habilidades espontâneas, às gentes que nos colam à vida por força de um ato ou palavra, será inevitável aos cartórios dos intocáveis e seu mundo asséptico? Conhecimento descolado de humildade, da inclusão do outro, nos asfixia feito abraço de anaconda.
Terminado o programa, corri à minha lista no streaming para buscar coisas do Toninho e parei na “Manuel Audaz”, numa gravação com o Lô Borges, outro mineiro encardido que deve ser amigo do Chico. O solo do Pat Metheny sobre a cama harmônica do genial Toninho Horta, uns dois minutos de delícia transcendente, é simplesmente indizível. Se um cara que faz aquilo com uma harmonia pode tocar violão de gente normal, não é a prepotência de doutor ou autoridade que vai me impressionar em minha renitência fora de esquadro.
Por força do comando de exibição aleatória, logo após o “Manuel Audaz”, do Toninho, pisou no ambiente a linda “Os Meninos”, do Juraildes, na voz do Xangai.
Fica o palpite pro Chico.

Fiquem à vontade, afinal, ninguém tem razão