Calado Ferreira

Diferentemente da burrice, que é praga de Deus e cola nas gentes desde o momento em que o espermatozóide mais esperto mergulha convicto no óvulo que o abraça receptivo, a cretinice é patologia assimilada culturalmente. Tal seu xará, que nasce com destino marcado pra cangalha, o burro-homem carrega sua desídia como um fardo impossível de se libertar. O desinfeliz, por mais que lute, aprisiona-se na burrice feita segunda pele. Não confundir com ignorância. Conheço ignorante pra lá de mais inteligente que uns burrins que aprendem coisas, mas destes asnos tratarei prum chegado doutro dia. Ora é falar dos cretinos, de sua cretinice e de exemplos de superação. Há cretinos em bares e cretinos atravessando ruas. Nas boates e nos restaurantes da moda, no mercado financeiro, no Leblon e em Ricardo de Albuquerque. Há cretinos doutores e cretinos de toga. Hospedam-se nas ciências, nas artes, nos ofícios mais ou menos complexos.

Os cretinos vão costeando os lugares das gentes sorrateiramente, instalam-se ciosos em suas áreas de influência diplomal ou mundana. Pastam solenes por sua cretinice a acumular informações banais ou repetitivas, as únicas com que conseguem engrenar conversa. Leem e discutem o óbvio, destacam-se nas reuniões mundanas por sua capacidade de estender assuntos que não resistiriam a dois minutos de observação conveniente. Chatos.

Louvo os que não aceitam a cretinice e travam com ela batalha pessoal, conclamando à tarefa suas forças mais recônditas. Um deles é Calado Ferreira.

Calado não recebeu este nome na pia batismal, onde foi ungido pela água-benta e decretado Antônio. Mora no Bairro Stucky, simpático grotão de Nova Friburgo. Por conta de haver no bairro alguns outros Antônio, estes viram seus nomes ligados à origem paterna. Assim, o Antônio, filho de Chico, virou Antônio de Chico; o filho de Bento, Antônio de Bento; o de Ferreira, Antônio de Ferreira. Com o passar dos dias que passam no vagar de luas sucedendo sóis, Antônio de Ferreira perdeu o “de” que o ligava formalmente ao pai, sobrando-lhe o tratamento simplificado de Antônio Ferreira. Antônio era cabra falante, no inverso de seu pai, homem de poucas palavras, adepto dos monossílabos e econômico até nas orações que o padre lhe recomendava a pretexto de acertar seu passivo com Deus. Socialmente integrado, Antônio Ferreira ia vivendo a vida no bater de ponto gostoso das coisas simples que formam o enredo prosaico das vidas das pequenas cidades. Tudo a seu tempo. Escola, pelada, bola-de-gude, pipa na infância; trabalho, cachaça, baile e uns aconchegos gostosos na adolescência; casamento no brotar da barba; e batente e barriga no balcão pro resto da vida, que o trampo é duro. Se passar das contas, tem a Bíblia.

Já casado, com um menino de dois anos, Antônio continuava tocando sua rotina nesse tocar gostoso que a rotina confere a quem dela não espera nada mais que o passar dos dias. Tudo corria manso feito regato de sítio, até que Antônio garrou a entristecer. Conversava cada vez menos, bebia cada vez mais. Já não dava conta dos cheiros que a mulher cobrava em casa, e com o menino perdia a paciência. Tudo começou com umas comichões esquisitas: tomou-se quando em vez de uns certos desejos mundanos, a cevar idéias de celular novo, cama box e domingo em xópim. Perseguia-o a obsessão de arrumar prestação em site chinês por onde lhe atalhou caminho o irmão caçula.

Dia daqueles, sua mulher acordou na hora certa de fazer o café e cuidar de aprontar o menino pra escola. Sonada ainda, viu sobre a mesa de jantar um papel com uns escritos. Lia mal, mas lia. No tranco, mas lia. Era um bilhete de Antônio. Lacônico: “Estou me tornando um cretino. Só o silêncio me salvará”. Dali em diante num teve um cabra que ouvisse a voz de Antônio, mergulhado em profundo estado de silêncio. Daí o rebatismo de Calado. Chegava na venda, apontava o que queria na prateleira, e bebia, e ouvia, e bebia, e ouvia. Volta e meia, esboçava um discretíssimo sorriso. Muito mais raramente escrevia um bilhete seco, uma ou duas palavras.

Sua mulher, já não bem cuidada nas obrigações maritais, via-se agora sob o mesmo teto de um morto-vivo, a prover solitária a família com os parcos reais de uma ou outra diária que faturava nas casas de umas madamas do Condomínio Stucky. Demorou pouco para cravar um sonoro pé-na-bunda do Calado. Bem reparar que Jéssica ainda guardava uns certos atrativos, tinha mariposa zumbindo na lâmpada, o suficiente para fazê-la crer que perder tempo com aquele zumbi só ia lhe contabilizar prejuízo e abstenção prematura.

Calado foi morar num barraco da família, a cerca de uns duzentos metros do cemitério que ladeia a estrada que liga o bairro ao centro de Friburgo. Sua rotina barzeira, no entanto, foi mantida rigorosamente intacta. Vive da ajuda da família e da poda de hera nos muros das casas dos mesmos condomínios onde sua mulher amealha seus trocados.

Calado derrotou a cretinice pela via do silêncio. Outro dia mesmo, cruzei com ele e lhe fiz discretamente um movimento de mão. Voltou fugazmente seus olhos pra mim e lançou-me uma intenção de sorriso. Embora sob a ótica dos valores mundanos esteja fudidinho, Calado é feliz. Foi salvo pelo silêncio.


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