Cala a Boca!

Bom Jesus do Rio de Contas. Foi nesse grotão de nome singelo e evocador de fantasias que nasceu Dona Juraci, minha mãe. Depois, Bom Jesus passou por dois rebatismos: Anchieta e Piatã. Mas o que é trocado no cartório dos homens não se troca nos cartórios das gentes, e o nome de Bom Jesus continuou cravado na alma do povo da Chapada feito a tatuagem da canção do Chico, não do Velho Chico, tão presente no universo lúdico dos diamantinenses, mas do Chico Novo, também rio, rio transbordante de inspiração.

Filha de juiz de direito no tempo em que os juízes do interior eram pobres e alvos potenciais do coronelismo, minha mãe teve que rodar por cidades da Chapada Diamantina até sentar praça de morada permanente na Andaraí de meu pai, terra de garimpo de diamante e da opressão e violência que o garimpo de diamante impõe. Meu avô morreu cedo e a lembrança de sua morte fez minha mãe chorar por mais de cinquenta anos, até que fosse levada pela negligência de uma UTI infectada. Jamais perguntei à minha mãe o motivo da morte de vô Heitor, mas meu pai insinuava que era coisa de derrame ou descoisa de coração.

Irmã mais velha de sete irmãos, minha mãe desde cedo fez vez de mãe e irmã, ajudando minha avó Adelaide na lida de criar prole comprida, de provê-la de comida e valores. Tinha a seu lado Jurandir, irmão mais velho. Ergueu espírito sólido, rígido, fiel ao legado de decência e humanidade de meu avô. Sertaneja de tenra cepa, manteve-se no recato que às moças de Andaraí era de tom bom tomar por modo, mas sempre austera e firme em suas convicções morais, fundadas no mais puro sentimento cristão. Meu pai provou em vida sua ternura e sua dureza. Fonte de delicadeza, amor ao próximo e solidariedade incondicional ao sofrimento do outro, minha mãe foi biombo pra tanto de risco de descaminho que a vida traz pra filho se criando.

Encontrei nela sempre chão seguro de carinho, presente e terna, mas conheci e reconheci sua dureza quando a dureza era razão. Sou hiperativo, minha mãe passou comigo maus bocados, não sem antes das minhas artes descobertas segredar a vento e gentes que tinha eu bicho-carpinteiro no corpo. Disciplinou-me com um pedagógico currião, que em parte maior das vezes era só lembrança de punição por aprontamento. E aprontei o tinhoso a quatro, precisei muitas vezes ser lembrado do ameaçador cinto de couro que guardava metodicamente em lugar seguro de seu quarto. Dei muito motivo para que o currião piasse, mas ela o usou poucas vezes, e, quando o usou, fez bem em usar. Usou quando destratei alguém, e, principalmente, se esse alguém era alguém sobre quem a estupidez cega de um adolescente possa imaginar que lhe deve submissão. Lá em casa, tratar bem o outro, respeitá-lo, ser o outro por entendê-lo por ser o outro uma extensão de nós, era estatuto, regra pétrea.

Daí a memória do “cala a boca” verberado do esdrúxulo puxadinho do Alvorada ainda me chocar tanto. O “cala a boca” é a expressão mais torpe, canalha, do autoritarismo, pressupõe se autonomear dono da voz do outro, de seu direito de se expressar segundo suas convicções, entregar-se discricionário ao fim de uma invariável limitada capacidade de argumentação. Lembrei de chofre da minha saudosa velha, trabalhista de comício, brizolista de fé, e cristã – não na acepção vulgar e corrupta com que o termo é hoje empregado. Ela se chocaria de rubor inflamado, de revolta indomável. Imagino-a tomada de indignação, ecoando aos céus que depois lhe fizeram morada: “Filho, um presidente da República que manda alguém calar a boca é capaz de tudo. É capaz até de elogiar torturador, defender ditadura, agredir homossexuais e negros e desdenhar de estupro”. Minha velha mãe já se foi, e não sei se ela caberia onde cabe insensibilidade à morte, a boçalidade-mãe de todas as boçalidades. Certamente ela encontraria mais um motivo para chorar. Agora, não mais a morte de vô Heitor, mas os riscos que há pouco tempo corremos de mergulhar o país na obscuridade, um país que amou com amor incontido, com a paixão que só os indignados são capazes de guardar.


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