Hoje, 2 de setembro, Aldir Blanc faria 78 anos.
Dia de lembrar de um texto que fiz quando ele se foi, em 4 de maio de 2020.
Era 1972, ano em que me preparava para o vestibular sob o sopro libertário dos lazaristas do Cosme Velho. No São Vicente, por onde pisei chão de inconformismo quando o silêncio abarcava o ar com seu hálito mórbido, assustador.
Toda semana alguém chegava com O Pasquim. Ler O Pasquim no velho pátio da escola nos redimia e animava de esperança. O simples ato de ler o Pasquim tinha o peso simbólico de estar do lado certo e de estocar um governo discricionário e cruel. Muitos amigos de meu pai estavam lá, no Pasquim. Meu padrinho Millôr, Ziraldo, Sergio Cabral. Outros menos amigos, mas conhecidos na conta de poder considerá-los próximos de meu pai, portanto, não longe de mim. Jaguar, Tarso de Castro, Paulo Francis, e outros.
Foi num encarte do Pasquim, um compacto com Agnus Sei, que tomei pra mim a primeira parceria de dois jovens estudantes: um, de engenharia, em Ouro Preto; outro, de medicina, no Rio. Vinicius já andava falando maravilha dos dois, e Agnus Sei não decepcionava. Estavam lá o talento harmônico e o violão vigoroso, percussivo, do João Bosco, e os versos inusitados do Aldir, com odes a minaretes, aríetes, conversão de infiéis: “Deus tudo vê…mas ovelha negra me desgarrei”. “Ah, como é difícil tornar-se herói”. Difícil e desnecessário, Aldir ensinava.
Aldir era recorrente. Aparecera, em parceria com Silvio da Silva Jr, no Festival Universitário da TV Tupi, em 1970. Ficou em segundo lugar com “Amigo é pra essas coisas”, claramente inspirada em “Sinal Fechado”, do Paulinho da Viola, vencedora do Festival da Record de 1969.
De Agnus Sei pra cá, João Bosco e Aldir construíram uma das mais profícuas e expressivas parcerias de nossa música, emplacando clássico em cima de clássico, transitando por todos os estilos, com desenvoltura e marca autoral. Pode ser um malandro da Lapa a dançar boleros em cabarés ou um carioca gemado que sobe as escadas da Penha. Ou ainda simples cenas do cotidiano: um marido que se enreda com a mulher por querer ouvir um jogo de futebol e ela de sacanagem mudar a estação e, pior, começar a cantar. Há sambas alegóricos, relembrando heróis esquecidos de nossa História. E há tudo. Talvez Aldir seja o mais pessoal e eclético de todos os letristas brasileiros. São qualidades raras de se reunir. Sua poesia reverbera, sofisticada e desabrida, esculhambada e lírica.
Mas foi com “O Bêbado e o Equilibrista” que Aldir encharcou de esperança o coração do povo brasileiro, que foi às ruas em milhões para exigir a volta da democracia, depois de conquistar o retorno dos exilados que se encontravam em diáspora forçada pelo mundo. O povo bêbado de desejo trajando luto lembrava Carlitos ao poeta.
Nas passeatas das Diretas Já, impossível não lembrar dos bons e velhos lazaristas do São Vicente e ser grato a eles por não me deixar tomar pela estupidez dos raivosos, por estar ao lado dos inconformados com uma sociedade que grita por solidariedade e direitos repartidos em conta de não envergonhar os sensíveis.
Vejo a morte sempre como algo pleno de poder. Que a memória de Aldir nos ajude a atravessar o Rubicão vergonhoso de nossa história, acuados pela ameaça de um inimigo intangível corporalizado em um adversário tosco e errático.
Glória a todas as lutas inglórias.
Para sempre um Brasil Aldir.

Fiquem à vontade, afinal, ninguém tem razão