Adultolândia

Cisma de adulto essa história de que criança gosta de brinquedo e outras idiotices. Criança gosta mesmo é de adulto. Criança é obcecada por adulto. Pai prolífico, com uns viçosos e um por lhe dar caminho, tenho rica experiência na arte de lograr criança, quando criança, sendo criança nos momentos em que não queremos criança em nossa circunscrição, nos enchem o saco. Não são raros esses conflitos entre nossos interesses comezinhos e os interesses renitentes de criança. Criança sabe o quanto aceitamos pagar por um tantim de sossego, por um pano rápido de silêncio ou paz. Muitos pais nessa lida se comprometem com pleistêichom anabolizado em troca de uma porra de quinze minutos necessários para dar cabo a uma taça de vinho sem que um “paiê!” lhe inflija pânico.

Criança não gosta só de adulto. Gosta do que adulto gosta. Palmito, castanha-de-caju, torrada sueca saborizada, presunto cru, queijo emental, enfim, todas aquelas coisas caras pacarai que a gente passa vida inteira ouvindo desaforo de chefe pra poder um dia chegar em casa e sorver parcimoniosamente em sossego tibetano. Com filho pequeno é obra difícil, mas tem caminho. Fui por aí acumulando astúcia nessa peleja braba, tô pronto pra aconselhar, pra além dessa cretinagem de coach motivacional, a quem nela se enfronha. Não é tranco de desgostar de criança, pois as tive em prole. É tranco de delas se proteger. 

Pro começo de prosa, enganam-se os que imaginam criança gostar de piscina. Experimente – caso você purgue a desgraça de piscina ter em casa e em casa morar criança -, experimente em um lindo dia de sol prostrar-se no sofá da sala refrigerada deitando os olhos numa boa leitura. Sua piscina estará vazia tal quintal de Antofagasta. Você se inquieta e suplica pro menino sair de casa, pegar um sol, dar um mergulho, desfrutar aquele símbolo idiota de nossa escala pautada, não sem antes lembrar-lhe que aquela merda dá uma puta de despesa, e que fica ali, abandonada tal segundo filho de chinês. O guri caga solenemente pro seu muxoxo. Quando brota a melação do suor no estofado, você cai na esparrela de dar um mergulhinho, que ninguém é de ferro. Em partição de segundo, voando do video game a que se atrelava, salta na maldita da piscina, em exagero gestual e sonoro, a perigosos centímetros de sua silhueta alentada, adivinha quem? Faça o seguinte: simplesmente não vá à piscina, deixe-a enlodar-se até o mais severo dos tons verdes, e divirta-se sadicamente com o limo subindo pelo azulejo.

Cretinos por conta de mais, não nos satisfazemos com piscina em nosso feudo. Cedemos à tentação cretina de juntar à piscina uma imponente churrasqueira. Pronto e cozido. É a receita aviada por Deus pro aborrecimento. Churrasqueira é sansa do Tinhoso. No início, nos imaginamos um pampeiro caricato, meticuloso na escolha das carnes, na compra das facas e apetrechos, no arrumar as traquitanas pro mostrar conhecimento. Passada a glória efêmera, a churrasqueira vai remedando depósito. Tudo o que vira nada pra lá vai. Aquela esteira que compramos pra derreter gordura e se transforma num troço imprestável, num estorvo. A bicicleta ergométrica em que especulamos milagres a bordo de fantasia de tênis da moda e ridículas meias soquetes é a mesma bicicleta que hoje sustenta a caixa de espetos mofados e facas cegas. Mas a churrasqueira, antes de estorvo, serviu a dias de fastio, de uso triunfal. É quando, tendo criança em casa, cometemos a imprudência de juntar amigos por conta de degustação de picanha de oitocentos gramas, de linguiça de pernil grifeira, de alentadas porções de cortes marmorizados. Como a churrasqueira é juntim da piscina, as crianças por junto ficam também, algazarreando na piscina, que sem o churrasco e os adultos do churrasco estaria adormecida. Quando saem a picanha e a linguiça, o enxame de criança molhada caga a churrasqueira e faz a bandeja do nosso desejo expectado mirrar em pisco de olho. Faça como eu: encharque a picanha e a linguiça de pimenta malagueta braba feito mulher flagrando marido gargalhando em horário de trabalho. Ofereça aos meninos uma bela macarronada, que deverá estar prudentemente servida sobre a mesa da cozinha, bem longe dali. Pra dichavar, pra que eles pensem estar integrados à cerimônia dionisíaca, empanturre-os de pão de alho.

Já se à noite recebemos os amigos para um vinho pacificador, restaurador, e nossos filhos voam sobre a mesa em busca da azeitona portuguesa que nos custou os olhos da cara, do patê a peso cujo quilo circula pelos três dígitos, pelo presunto de Parma que frequentou nossos sonhos de classe média, caia da idéia, amigo. Crianças não suportam cebola, alho, pimentão e queijo fedorento. Contente-se em servir o que não lhes empresta desejo, mas antes lhes entupa de príngols, râfols, chitos, toda a parafernália industrial empurrada a base de glucomato em nossos hábitos boçais.

Nem pense em programar em seus sonhos vadios escritório em casa, um mundinho blindado, onde você, seu lépi-tópi de cinco dígitos e sua pretensa inspiração se encontrariam em noites de miríades de versos e prosas. Saiba que lá será o lugar predileto delas.

Acreditem. Do que criança gosta mesmo é de adulto, de orbitar em torno de nós, a impedir que nossas conversas resultem práticas, conclusivas. Amam dormir conosco, acordar conosco, viajar conosco, comprar conosco. Principalmente, do que a gente come. É só do que gostam. Os caras que enfiam mundão de dinheiro numa de inventar parque temático com temas patéticos por conta de divertir criança jogam seu dinheiro e a nossa paciência fora. Pra criança ser feliz, pra nos deixar vez por vez sossegados, a solução é a Adultolândia. Um parque em que adultos contratados ficariam em volta das piscinas, em torno dos brinquedos, fazendo churrasco, fingindo usar o notebook no escritório. Simplesmente, jogando conversa fora. Adultos fazendo por paga o que por impulso de afeto e responsabilidade nos cabe.

Não ia ter criança desalegre. Nem nós.


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