A Viagem

Álvaro e Lurdinha viviam o que se costuma entender como um bom casamento. Vida vivida sem sobressaltos, descendo correnteza de rio tranquilo. Tinham dois filhos, a esta altura da história já criados. Construíram juntos cada andar do edifício de seu patrimônio. Lurdinha sempre fez o estilo discreta. No falar, no vestir, no andar. O que confortava Álvaro, um pouco menos discreto, mas que longe passava de arroubos e gestos amplificados. Eram convencionalmente felizes. Sair e voltar de casa e encontrar Lurdinha apegada a seu jeito e rotina, trocando impressões sobre o dia de trabalho. Isso era o que fazia de Álvaro um homem grato à vida que lhe foi entregue e buscada. Não foi sem surpresa, portanto, que Álvaro andou estranhando uns bocados de diferença no comportamento recente de Lurdinha. Chegada a langerri sóbria e de tons pasteis, Lurdinha de hora pra outra cismou de comprar e entrar numas calcinhas de tons e formas provocantes. Para Álvaro, mais que isso: libidinosas. Mulher de parcimônia no uso de batons, sombras e bases, Lurdinha por dias daqueles andava semelhando personagem de Kabuki. Definitivamente, não era normal o que se passava com Lurdinha. Se amigos e amigas viam naquilo esquisitice, Álvaro percebia seu mundo ribanceira abaixo, levando na enxurrada sua morada segura, como a cobrir de oceano o rochedo do náufrago.

A que pretexto fosse, mas a que ele inelutavelmente se entregou, Álvaro lembrava e lembrava de um amigo de infância, o misógino Oliveira. Embora Álvaro o visse com conta de uma vez por ano e se incomodasse com a misoginia do amigo, gostava dele. Oliveira é da raríssima espécie de homens afetivamente imunes às mulheres. Seu único intento em vida, sua ambição monocórdia, era a busca do prazer descomprometido, usar as mulheres e por elas ser usado. Seu mantra :  “Mermão, mulher é tudo vagaba”. Acrescentava à cafajestada a amarração do conceito: “Babaca é quem se apaixona, quem se ilude. Se correr o mínimo risco de se encantar por mulher, apele para um ato final, infalível: viaje com ela por quinze dias. Não há projeto de paixão que resista a quinze dias de intimidade”. A cantilena chovinista de Oliveira martelava a cabeça de Álvaro como eco entre dois abismos. Ainda mais agora que Lurdinha danara de subverter seus hábitos. Seu celular, antes sempre a postos, ficava por duas, três horas, fora do ar. O carro, no horário de trabalho, sempre estacionado na esquina da Voluntários com Real Grandeza, volta e meia por lá não se encontrava. Seus horários destrambelharam. E o que é pior: Lurdinha passara a ouvir Roberto Carlos. Não o Roberto Carlos dos roquinhos simpáticos da Jovem Guarda, mas aquele do repertório pastoso. Ao perceber Lurdinha absorta, com fone de ouvido deixando escapar por sibilos os melodramas do Rei, Álvaro comentou com o Edegard, outro grande amigo. Ele foi direto: “Álvaro, amigo, mulher que começa a ouvir contrita Roberto Carlos é tiro e queda: está apaixonada. Nossa amizade me permite que lhe seja sincero: reze para que seja por você. Muitos lares já foram destruídos pelos versos pegajosos daquele canalha”. Com os dias passando, Álvaro se tomou de uma angústia insuportável. Sofria com o pensar Lurdinha revelando uma faceta que lhe parecia impensável.

Ele poderia simplesmente perguntar à Lurdinha o que se passava. Isso, no entanto, o enchia de pavor. Não estava pronto para enfrentar a verdade que temia confirmar-se. Não havia outra forma de varrer de seus pensamentos o pior: contratar um detetive. E foi o que o Álvaro fez. Temendo que algum amigo pensasse o pior de Lurdinha antes que a desconfiança fosse eliminada pelo relatório amenizador do detetive, Álvaro recorreu à internet. Ligou para uns quatro números até que se fixou num nome: Aníbal. “Garanto discrição, ex-policial, especialista em campana. Aníbal Cabeção”. O apelido que se prestava a sobrenome ao nome de guerra de Aníbal lhe passou uma confiança que nem ele nem eu que conto a história sabemos por quê. Álvaro marcou com Aníbal, por sugestão deste, um encontro no belvedere da Niemeyer, “assim que escurecesse”. Cabeção foi direto: “ Doutor, prepare-se para tudo. Pode ser nada, mas…pelo o que o senhor me contou, por experiência posso lhe adiantar que algo anda errado. Mas vamos ver”.

Duas semanas depois, Álvaro, consumido em expectativa, recebe o telefonema que esperava e temia:

– Doutor, no mesmo lugar, no mesmo horário, amanhã.

Álvaro ainda balbuciou: “Cabeção, não dá pra adiantar alguma coisa? Por

favor…eu…eu…”. Cabeção desligara o telefone.

Álvaro chegou ao local combinado duas horas antes. Foram as duas horas mais longas de sua vida.

– Doutor Álvaro, vou ser direto: acompanhei cada passo da sua senhora nestas duas semanas. Cada movimento foi por mim rastreado. O que eu temia se confirmou: ela está tendo um caso e…

– Como, senhor Aníbal?!

– Por favor, doutor, pode me chamar de Cabeção.

– Foda-se como eu lhe chamo. Desculpe, desculpe. Cabeção, há algum erro, você campanou a mulher errada. Duvido que a Lurdinha fizesse isso comigo.

– Doutor, eu entendo, mas aqui estão as fotos.

As imagens que jamais pensou ver revelaram-se a Álvaro já na primeira foto. Álvaro mergulhou em enredo de Krakatoa. Lançou-se ao inferno de seus maiores temores. Era, sem dúvida, Lurdinha. Beijava torridamente um homem que lhe envolvia como um casulo. A segunda foto o levaria ao desvão mais fundo desse mesmo inferno. O homem da foto era Cristovão, um dos amigos mais próximos do casal. Percebendo Álvaro aturdido, mareando em convés de mar seco, Cabeção ainda tentou confortá-lo, o que logo em seguida se mostrou desnecessário.

– Tudo bem, Cabeção. Talvez eu tenha hoje morrido um pouco. Mas estou em paz: o que eu temia chegou. Estou bem, vou superar esse trauma. Me passe as fotos. Quero todas, especialmente aquelas em que o Cristovão pode ser reconhecido.

– Não há problema, doutor, o material é todo seu. Mas eu preciso terminar o meu trabalho. O relatório está aqui, leia-o com calma, e o senhor verá exatamente onde, quando e como se dá a rotina desses encontros. Sempre no mesmo apart-hotel. Ele chega antes e sai depois. Às vezes, na hora do almoço; outras vezes, na saída do trabalho.

Já em casa, Álvaro leu cada linha daquele relatório exaustivo e esperou por Lurdinha, como de costume. Nada lhe falou. Comportou-se exatamente como sempre. Observou-a em seus novos modos. Viu-a mais uma vez absorta ouvir “Outra vez” pelo menos umas dez vezes. Pensou: “E aquela porra de música nem do Roberto Carlos é, é de uma tal de Isolda, aquela mal-comida”. Pensou, despensou, e foi em frente. Dormiu com seus planos, e dormiu o sono dos anjos, se anjos dormissem.

Dia depois, Álvaro procurou um velho amigo seu, Lopes, um coronel da reserva. Alegando viver apreensivo com a violência da cidade, pediu ao amigo que lhe facilitasse a compra de um revólver. Era para proteger a família. O coronel dispunha de uma pistola que não usava há tempos. Vendeu-a ao Álvaro. Recomendou-lhe que praticasse tiro, e que jamais usasse munição velha. E cuidado muito, pois arma é para quem tem controle emocional. Lopes não tinha dúvida de que era o caso de Álvaro. 

Dias passados, no horário em que se davam na maior parte das vezes os encontros, Álvaro se postou num lugar de onde podia ver a entrada do apart-hotel. Não demorou, Cristóvão desceu de um táxi, perscrutou a rua, reolhou, e entrou no apart-hotel. Logo em seguida, Álvaro reconheceu como sendo o da Lurdinha o carro que estacionava a uns trinta metros da portaria do hotel. Era ela. Lurdinha caminhou em direção ao apart meio que cobrindo o rosto com as palmas estendidas das mãos a pretexto de ajeitar o cabelo. A cena lhe doeu dor suportável. Estava certo do que deveria fazer. Uma hora e meia depois, Lurdinha saiu seguindo o mesmo rito de entrada. Tão logo o carro de Lurdinha dobrou a esquina que o livrava de ser percebido por ela ainda que pelo retrovisor, Álvaro subiu ao apartamento. Bateu na porta. Suavemente. Calmamente. Imaginando Lurdinha ter esquecido alguma coisa, Cristovão abriu a porta meloso de carinho. Tomou um susto:

– Álvaro! Meu Deus, o que você está fazendo aqui?

– Você sabe melhor do que eu, Cristovão. Vamos parar de conversinha.

Álvaro pousou a pasta executiva sobre a mesa e a abriu lentamente, de forma a que Cristovão pudesse ver a pistola que trazia. Cristovão empalideceu, e ajoelhado suplicou: 

– Não faça isso, Álvaro. Pelo amor de Deus, não cometa essa loucura, não acabe com a minha e a sua vida. Eu lhe imploro, me perdoa, Álvaro, me perdoa.

– Eu só usarei essa arma se você me der motivo. Ela está aqui para garantir o acordo.

– Que acordo, Álvaro? Meu Deus do céu!

Álvaro foi com as mãos em direção à arma, Cristóvão desesperou-se: 

– Não, não, eu não quero morrer, Álvaro. Não!

Álvaro pousou a mão na arma.

– Ai meu Deus, não, não, não!

Álvaro, calmamente, apenas afastou a arma para tirar da pasta um envelope.

– Cristóvão, preste atenção. Dentro deste envelope tem duas ordens de passagem e um voucher para um resort no sul da Bahia.

– Que que é isso, Álvaro? Eu não estou entendendo. Que p…

Cristóvão lembrou-se da arma e achou por bem não usar um palavrão em um momento tenso como aquele.

– Ouça com atenção, Cristóvão. Você e a Lurdinha vão passar quinze dias juntos nesse resort. Quinze dias, nem um dia a menos. Invente uma história qualquer pra Matilde, deixa a Lurdinha comigo. Ao fim desses quinze dias, eu lhe prometo: rasgo as fotos, deleto os arquivos, vendo a arma e saio de sua vida.

Estarrecido, Cristóvão ainda tentou argumentar:

– Álvaro, eu não posso viajar quinze dias. A Matilde não vai entender.

– Muito bem, Cristovão. Eu lhe disse que poderia usar a arma caso você não cumprisse o acordo, mas vou lhe dar uma chance: o que você acha que a Matilde vai pensar destas fotos?

Álvaro jogou sobre a mesa umas boas dezenas de fotos do Cristovão aos amassos com Lurdinha, entrando e saindo do apart-hotel, e dela se despedindo languidamente. Provas incontestáveis do caso dos dois, aquelas fotos horrorizaram Cristovão. O que parecia uma confortável e prazerosa aventura materializava-se ali como a porta de saída de um casamento feliz, no qual Cristovão se instalara como filho ao útero. A simples possibilidade de que Matilde tomasse conhecimento daquela situação o apavorou.

– Tá bem, tá bem, Álvaro. Eu vou.

Cristóvão assentira com o acordo imaginando Álvaro ter enlouquecido, que dia mais dia menos aquele assunto poderia morrer com a simples decisão de não encontrar-se mais com Lurdinha. Ilusão. Álvaro passou a ligar de duas em duas horas para Cristóvão e em tom cada vez mais ameaçador. Não lhe restou alternativa que não a de inventar um conto de carochinha para Matilde, um curso de extensão em gestão de pessoas. Coincidentemente, este foi o mesmo motivo que Lurdinha deu a Álvaro para que aquela estranha viagem semelhasse verdade. Não sem antes derramar-se em mentiras pegajosas: “Amor, você tem certeza mesmo que não quer ir comigo? É que vão apenas as meninas lá do trabalho selecionadas pelo RH, mas eu vou morrer de saudade”. Aquela encenação entediava Álvaro, convicto que estava do sucesso de seu plano.

E assim Cristóvão e Lurdinha foram para o resort no sul da Bahia. Apesar da tensão de Cristóvão, era visível que ambos estavam enamorados. Fosse qual fosse a razão estranha de Álvaro em forçar aquela viagem, a promessa de que aquele maluco sairia de sua vida de um certo modo tranquilizava Cristóvão.

Logo ao chegar, Lurdinha ligou para Álvaro:

– Mô, aqui é lindo. Cheguei bem. Já tô morrendo de saudade. Beijão. Eu te amo.

Os telefonemas se repetiram em tom e enredo por mais uma semana. No oitavo dia, ao reconhecer na tela do celular o número do resort, Álvaro imaginou tratar-se de mais uma daquelas ligações. Mas não era Lurdinha. Era Cristóvão:

– Álvaro, por favor, dá um desconto. Tem que ser mesmo quinze dias? Não pode ser dez dias? Eu fico aqui mais uns três dias e volto.

– Nem pensar, Cristóvão, nem pensar. Quinze dias. Lembre-se das fotos.

A partir do nono dia as súplicas de Cristóvão pela redução do prazo se intensificaram e ganharam contorno dramático. Cristóvão implorava em desespero pela redução do prazo, ainda que fosse por um dia. Álvaro foi implacável. Lurdinha telefonava diariamente, mas seu entusiasmo diminuía com o passar do tempo. Havia tristeza em sua voz e mais sinceridade nas confissões de carinho que fazia a Álvaro.

Passados os quinze dias, Álvaro esperou em casa por Lurdinha. Mal entrou, Lurdinha jogou-se ao encontro de Álvaro, aos prantos:

– Eu te amo, eu te amo, eu te amo. Eu nunca mais vou ficar tanto tempo longe de você. Você é o amor da minha vida. Eu te amo, eu te amo, eu te amo! Não posso nem pensar em viver sem você. Eu te amo tanto, tanto…

No dia seguinte, como prometido, Álvaro deletou os arquivos, e na presença do Cristóvão rasgou as fotos. Estava calmo. E calmo ficou Cristóvão. Não disseram nada além do rito protocolar do cumprimento da promessa. À noite, já em casa, Álvaro lia um livro em sua poltrona quando Lurdinha chegou por trás e sensualmente lhe beijou a nuca, balbuciando:

– Mô, tudo o que a gente precisa é de passar sozinhos uns quinze dias longe dessa loucura. Quinze dias. Só eu e você.

Lembrando-se do sábio conselho do Oliveira, a partir do qual urdiu seu plano, Álvaro devolveu:

– Dez dias, amor. Dez dias tá de bom tamanho.


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