A Natureza Nos Odeia

Não levo a sério qualquer discussão sobre a crise ambiental que desconsidere verdade irreproxável: a natureza nos detesta, a natureza gosta mesmo é de inseto.

Tudo o que a natureza nos dá, nos dá sob o signo do sacrifício. Tudo, do alimento ao lazer. Do arar a terra a ter que desenvolver uma indústria inteira baseada no uso do combustível fóssil para fabricar a sunga que usamos quando vamos à praia. Para ligar a tv, precisamos represar rios, inundar imensas áreas, fabricar cabos, estendê-los por milhares de quilômetros, e, no fim, ainda se submeter a uma tomada de três pinos. Insetos não têm Netflix, e vivem felizinhos feito criança em sítio.

A Natureza não nos dá nada de facinho, tem que ser no suor não raras vezes brotado da exploração entre semelhantes, o que nos faz piores que o mais sórdido inseto, se houver insetos sórdidos. Impossível pensar em castores represando rios para a construção de barragens assassinas, ou mesmo felinos tocando fogo nas matas para cevar no pasto o gado que os alimentará pelo hambúrguer das catedrais de comida apressada. A nós não basta o que a natureza nos dá, precisamos retorcê-la para se submeter a nossos caprichos.

Agora vejam eles, os insetos, que molezinha. Tudo à sua disposição. Penso mesmo que a natureza e os insetos mantêm um dissimulado conluio para nos expulsar daqui. Para nos enviar pras profundezas daquele inferno que eles acreditam, com nossos SBPs, agrotóxicos e bancada ruralista. A natureza nos boicota, mas se abre aos insetos como o Centrão ao Orçamento Secreto. Já o humano vive a ilusão de ser o amor bandido da natureza, de ser amado por seviciá-la. Não deu certo. A natureza é esperta, já está por aqui muito antes das tentações do Paraíso. A natureza ama os insetos e a bicharada que a renova por espalhação.

A verdade é clara como o véu das virgens prudentes de Mateus: a natureza nos odeia. Fôssemos varridos daqui, ela viveria em paz, e as baratas correriam tranquilas por séculos só se alimentando de nossos excessos. Sejamos mais realistas, a natureza não precisa de nós, ela precisa de insetos. E nós, que precisamos da natureza, esquecemos de quanto os insetos a mantêm viva, nos sustentando pela lida diária de se manterem vivos. Seguimos por aqui arrogantes e boçais, como se a Natureza fosse um Atacadão, com suas gôndolas generosas disponíveis ao coçar de nossas ambições.


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