A Minha Rua

Nos dias aflitivos da pandemia batiam-me com recorrência insistente as lembranças de minha rua de infância e adolescência. Eram tempos de ruas menos apressadas, chão de calma e vez por vez de contemplação. Lembro de ruas por serem aqueles dias propícios a se comover com a insurpreendente fragilidade humana se submetida a um lapso de humor da natureza. Mas sem que seja fragilidade qualquer, já que não impede de aprendermos o óbvio de que tudo que a natureza nos provém resulta de delicado equilíbrio. O estar bem de um exige o bem estar do outro, nos planos físico e social. Holisticamente. Naqueles dias, um vírus nos estapeava com sua franqueza excruciante transitando rapidamente da silenciosa perplexidade à tonitruância da tragédia. Amanhã pode ser que esqueçamos, embora para esquecer demande estar vivo.

Era rua de abastados, mas a molecada, embora espalhada pelos suntuosos prédios da rua, se concentrava nos dois blocos do Esperança e nos quatro da sede do Flamengo, ambos redutos da classe média típica do Rio dos anos 60. Pela rua, o espírito da molecada flanava vadio feito vento de quintal. Extensão geográfica de nossas casas, era rua de outros tempos, que nos abraçava sem riscos de sobressaltos. Pisar fora da portaria nos imergia numa Pasárgada particular, amigos de um rei intangível. Jogávamos bola o dia inteiro. Na rua, na chuva, e, embora sem fazenda nem casinha de sapê, com esse espírito. Era turma de contar de muito, pra perto de trinta meninos vagando pela curva da avenida que abraçava pela metade o Morro da Viúva. Muitos se tornaram amigos de uma vida, e ainda que de uma vida não tenham se tornado, foram amigos por parte da vida que crava marcas. A esses meninos, a taxonomia de poder da nossa rua impunha hierarquia, com seus símbolos de desejo marcando território feito catedrais e fóruns das velhas cidades.

No topo, Severino, piloto dedicado da carrocinha da Kibon. Severino, pra não negar serventia de coincidência, era paraibano. Tinha o rosto machucado pela lida, rugas inculcadas como a marcar calendário abreviado. Era dócil com os meninos. Sua carrocinha, a Disney açucarada dos nossos desejos. Os picolés: Chica-bon, de chocolate; Ton-bon, de limão, Ka-lu, de abacaxi, Já-já, de côco. As guloseimas muiticoloridas de sabores monocromáticos: Delicado e Jujuba. Os nem sempre encontrados chocolates Ki-coisa, Ki-bamba e Lingote. E os tijolos de sorvete? Era com o Severino a provisão. O tijolo Napolitano – ah, que saudade do cheiro de sua aba sendo descolada do corpo e inundando de saliva e gratidão nossas sobremesas de família, das famílias daquele tempo.

Descendo um degrau no organograma imaginário dos sonhos de criança, Nogueira, o padeiro. O Nogueira zanzava com incomum habilidade a bordo de seu triciclo-contêiner de maravilhas açucaradas. Cabia coisa de não se imaginar naquele triciclo. Estacionava o bólido na frente dos prédios, enchia um cesto grande com inefáveis pães franceses sem bromato e ia de apartamento a apartamento cumprindo seu rito de multiplicador bíblico. Alguns, por contrato prévio, recebiam, além dos pães franceses, leite e pães-doces espiralados imersos em açúcar pastoso. Nogueira subia e a molecada ficava ali, vendo aquele triciclo acorrentado a uma das árvores da aleia generosa de nossa rua. Tinha vez que a gente conseguia um dinheirinho e esperava o Nogueira voltar para tomar às mãos uma daquelas dádivas melosas e de sobra compensadoras.

Por fim, Salvador, o jornaleiro. Era lá que tínhamos acesso velado, pelos catecismos do Carlos Zéfiro, ao mundo para nós inescrutável do sexo. Agonia e êxtase. Corríamos pra casa para louvar Onã e baixar a cota hormonal galáctica dos adolescentes. No Salvador, eu também podia ler as manchetes do Jornal dos Sports, com seu cor de rosa a me atrair como a nave de Spielberg a Roy Neary, a revelar as notícias frescas do amor incondicional da minha vida, o meu Fluminense. Inéditas com intervalo de 24 horas. Uma eternidade.

Às presenças diárias da divina trindade se juntavam as presenças fugazes do Mary e do vendedor de amendoim. O imponente Mary, com seu vistoso turbante branco, perambulava pelo Rio com seu tabuleiro carregado com o melhor cuscuz da cidade. Sua chegada, sempre precedida por um estridente e encorpado “Méééééééééry, sou eu!”, com o “e” tônico espichado por tempo de fôlego de mergulhador. O anônimo e simpático vendedor de amendoim, presença bissexta, aparecia com seu inconfundível bordão: “Se a vida tá ruim, coma amendoim”. Trazia num latão cilíndrico um arranjo com cones de amendoim salgado e saquinhos de amendoim doce. Personagem habitual da arquiba do Maracanã. Ele, seu amendoim e seu bordão. Já o prédio da sede do Flamengo, o 170, guardava três jazidas preciosas. A mercearia do Biguá, a loja de conveniência daqueles tempos, com o “seu” Vítor sempre austero e atento à rapinagem de um ou outro. Fonte das pequenas compras familiares e dos refrigerantes gelados sorvidos por um único gole depois das peladas. Muito próximo do Biguá, a bomboniere do Papai Noel, nossa fantástica fábrica de chocolates. Tempos depois, o Mengo’s Inn, mistura de bar e boate, onde ocupávamos por horas uma mesa sob o álibi de apenas uma Coca-Cola, o que cabia nos nossos bolsos. Nos fins de semana, os meninos se punham em fila para “dançar junto”, rosto colado, com as poucas meninas que saíam de casa.

Tempos outros. Tempos em que porteiros eram a alma dos prédios. Sábios, pensadores, oráculos para assuntos proverbiais. Da maçaneta emperrada ao elevador parado, passando ritualisticamente pelo futebol, fofocas estumulantes e muxoxos sobre o clima. Terçar ideias com o porteiro além do protocolar cumprimento era parte da liturgia diária dos moradores. Havia muitos por lá. No meu prédio, o Esperança, ponteavam o diligente Francisco e o cabo-verdiano Avelino, com sua verve sulfúrica. Veio a proliferação dos condomínios assépticos, foi se impondo a morte do indivíduo, diluído em apartamentos-escaninhos e restrito a se integrar com o porteiro pelo vidro frio da guarita, abrigo dos pavores de cidades brutalmente desiguais. O porteiro conselheiro e amigo, repositório da história do prédio, dos gatilhos e atalhos de sua manutenção. Observador da rotina dos moradores e fonte do paradeiro dos que se mudaram, esse porteiro foi tragado pelo furor imobiliário, substituído por um grunhido de guarita. Hoje o que há são porteiros limitados a mecanicamente responder perguntas banais com seu código lacônico: “Deu ruim, sei não”.

Quando isolado em casa nos tempos assustadores da Covid, pensava em ruas, e pensava mais ainda na minha rua, nas gentes da minha rua. A rua que me moldou de todos os temores, alegrias, sestros e epifanias que jamais abandonarei por de mim fazer parte ou por ser eu mesmo.


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