A Cidade Que Expulsava Pessoas

Num cabia noite que com o escurão o medo deitasse sono. A falação dava conta de terra bulida, de raiz mastigada, de zanzança de baixo do chão sacodindo o telhado do inferno. A bicharada, sol desbrilhante, andou arredia por mais de esperar o que lhes arrediava nos tantos dos dias. Era cavalo a relinchar por sobrar da borda e cachorro latindo o que num latia nem por ariscagem de gambá. Aquele arrimo tinha dono, e dono num gosta quando o destino se achega de sua donagem. Era chão de cerrado, com água e seca com prevalença de permeio. Tinha a cidade a conta certa de gente, nem pro mais nem pro menos do necessário pro rodar banzeiro das querenças de cada um. Cidade de nascença contada, sem lugar pra mais ninguém que num fosse o desejo dos fundadores. Os donos se cartoriaram em pedacins de conveniência, em arrumação de um com outro, quié pro outro ser o mesmo, sem risco de o outro ser outro.

Num sabida estrada de chegança por raso, água ou caminho de vento, chegar por lá era sansa de vontade. Muita gente fuxicava rumo em véu de paina ou rastro de terreno pisado. Porque muita gente por lá queria aportar, por terra de desejo possível, sonho calentado na concha da mão tal filhote de passarinho. A terra era de todos por de todos ser o mundo, mas era de poucos por ser lugar de juntar fortuna e aparato de coisas. Tinha dono de tudo quanto é feição. Dono das terras, dono das leis mundanas e de Deus, dono dos feitios das moças, dono dos poços das artes, dono do comprar, emprestar e vender.  Os fundadores se enfurnavam em dois mundos. O das águas e o do projeto. Os donos da água espicharam suas casas até água lamber-lhes as bordas. Os senhores do projeto cravaram suas visões anestesiadas em desenhos retilíneos, paspatur das esquadrias que lhes lançavam em mundinho comportado, sem gente buliçosa a querer gentar onde gentar num podia. Tudo o que inusitado ameaçasse era banido pelos fundadores com a ira dos temporais. Espetando as águas, juntavam as fortificações pontes de canela fina e de curvado.

Os alguéns num moravam na cidadela dos fundadores, mas lhes satelitavam montoados em garranchos de vilas. Os alguéns serviam aos fundadores por conta de horas furtadas, de dias de dormir pouquinho no vaivém de suas serventias. Garrados nos pingentes de suas precisões, foram os alguéns proximando dos fundadores e lhes trazendo desconforto e precauções. Tomaram-lhes as terras de respiro por preempção de prerrogativas que imporiam aos fundadores por tempo de onde esta história começa. Garrotearam a tróia dos fundadores mas não lhe introduziram cavalo. Só medo. E medo abrevia o que deve ser espera, corta-lhe por lâmina lânguida, porém eficaz. A cidade asséptica viu sua redoma trincar pelo que antes lhe era improvável.

Os fundadores fizeram mais leis, e mais leis por feição de manter a conta certa de gente. As leis que aos fundadores teriam o condão de soldar as rachaduras da redoma lhes lançaram em inextricável dilema. O medo parindo leis que num os libertaram por os aprisionarem na trama enredada dessas mesmas leis. Os alguéns tomavam a cidade pelas horas do sol, e as deixavam no chegar da noite, num espumar de gente por estradas que de largas se acocharam. A cidade os expulsava e a quem num fosse alguém, num sendo fundador, por sua lógica funcional. À noite, os alguéns, pelas leis, deviam dormir, e num se ouvia na cidade dos fundadores um trinchar de pena.

Até que dia a zoeira de chão bulindo levou o medo pro regar da noite dos fundadores. A noite que era pelas leis aquietada deitou no lombo o temor que fez do sono a casa da angústia. Com os alguéns indormindo, os fundadores especulavam maldição ou sina, e fizeram mais leis. Num coube alento. Era cavalo a relinchar por sobrar da borda e cachorro latindo o que num latia nem por ariscagem de gambá. O chão da cidade se movia em cada vez mais alvoroço de franjas de onda. A terra regurgitou silhuetas que num lembravam fundadores ou alguéns, mas fractais de movimentos dóceis, espectros tecnológicos, dimensões impensáveis. As cores eram rápidas e o som agridoce. O chão nas manhãs sossegava, mas os fundadores num mais saíam de casa, ao passo que os alguéns iam pela casa dos fundadores entrando, tomando-lhes os cômodos. Os fractais pela conta de passar das noites iam revelando formas comezinhas e ficavam por mais tempo e tempo na vigília do sol. Tomaram a cidade, se acasalando com fundadores e alguéns. A cidade se abriu, mas era tarde. Os filhos de seus filhos a espectros retornaram. A cidade ruiu em seu inviver. Suas leis quedaram inócuas.

Se a ninguém mais se expulsou por não ter alguéns ou comezinhos os fundadores expulsar, num mais adiantava esse voltar.

Tudo era fardo e fungível.


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