70 Anos

Chego hoje a mais um tempo contado. Contado de redondo. 70 anos. Quase o tempo de uma civilização particular.

Depois de idade de não fazer diferença, aniversário se presta para minguar velocidade e reacionar o pisca-alerta. Em cada mexida ameaçadora do ponteiro imaginário, fingir se surpreender no acostamento enquanto o tráfego flui sob nosso espanto.

A saudade se encorpa de motivos que não manipulamos em nossa impotência acachapante, e a esperança se 

cerca de uma melancolia tépida. Ficamos assim no meio de um caminho entre o conquistado e o medo de não poder mais conquistar. As vitórias se deitam mais na memória que nos devires. Tudo o que fizemos se toma de um véu nebuloso de dúvida e ensinamento. Há perigo quando deixamos de ser vivenciais ao nos assumirmos exemplos. Ao pensarmos valer mais pelas memórias do que fizemos do que pelo que por impotência podemos fazer. Tornamo-nos objeto de remissões, coletânea de histórias vividas. Celebração e susto dão-se as mãos com seus anéis mais ou menos carcomidos.

Vou seguir. 

Aos 70, sinto-me indaptadamente jovem, em desalinho com restrições insublimáveis. Olho para a finitude como um pôr-do-sol de solstício, torcendo para que a luz se estenda por hora de não mais acabar a areia da ampulheta. Vida não se esgarça, se esvai. A estupefação não mais assusta, pois se derrama sobre um vale com flores miúdas e coloridas empasteladas como numa pintura impressionista. A depressão, que sempre esteve à espreita no vestíbulo, trouxe-a para a sala de estar, onde aprendi a com ela lidar, Seu véu ferruginoso já não me fustiga à socapa,olhamo-nos nos olhos. Já não tão longe, austera e inevitável, a montanha do ocaso, tal a dos contatos imediatos, me atrai com cada vez mais estridentes sussurros. Mas enquanto houver bambu…

Trago em meu alforje sete indecifráveis e maravilhosos filhos – uns mais próximos que outros, mas nunca menos amados por mim. Desejo que sejam capazes de me espantar no terreno do que espero, e me impedir de descer correnteza abaixo pelas armadilhas do tempo vivido em conta de não mais ser natural. Quatro deles orbitam, luas deslumbrantes, meu planeta ameaçadoramente intransitivo. Embora viva tormentosa sensação de incompletude por não poder a todos tocar – sou incapaz de me acostumar com isso -, os dias caminham no diapasão de vulneráveis batimentos cardíacos.

Aos meus filhos, pulsão de vida; aos meus pais e irmãos, o chão, o conforto da alma; à Tereza – amor e abrigo; ao Fluminense, que hospedou generoso parte de minhas melhores alegrias e de minhas dores complacentes; aos amigos que a bordo de suas inquietudes me inundaram de viveres extáticos, maravilhas de meus dias; meu agradecimento pelo carinho com que me aceitam nesse envelhecer simultaneamente ruidoso e pleno de sibilações. 

A todos, ao lado do amor que lhes entrego por tornarem parte de minha vida um vilarejo seguro nesse meu mundo instável; a todos, peço apenas que relevem meu auto-de-fé pelo inconformismo com a mesmice, com a negação pagã e espiritual da cretinice, sem o que tudo se desfolha.

Ao lado dos que amo e respeito, se sobreviver a esses riscos, darei conta, ainda que muitas vezes me recolha por impulso ao quarto acolhedor de meu silêncio, como quem falsamente seguro espera o inesperado.


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