21/7: A Data

No dia dos dias, a tríade una, santíssima, deita seu véu balsâmico sobre os bons de espírito. O tudo e o além do tudo se põem em festa. O Dia. 

Nascido do sonho de dezoito apóstolos que desconheciam estar fundando as bases de uma liturgia eterna, o Fluminense tornou-se a mais importante instituição esportiva brasileira do século 20. Não nasceu sozinho, com ele nascem o futebol profissional, o primeiro estádio, a Seleção Brasileira, fincam-se as fundações da história de nosso esporte mais popular. Já nasce ungido de eternidade. Sua influência se espalhou por todo o mundo, produzindo mitos e lendas que inundam a crônica do futebol planetário das mais lindas histórias.

Com mais de 120 anos, o menino Fluminense sonha como sonham os meninos. Vê o mundo como um território a conquistar. Uma imensa floresta, imaculada, com pássaros que voam sobre gaiolas destroçadas. Seu exército de apaixonados doa-se a manter em seus corações o viço de uma fé inabalável, provada nos mais terríveis invernos e tempestades. Por fé, carrega peso e leveza. Encontram-se e desencontram-se os que o amam, embora jamais deixem de estar disponíveis, abertos. Há uma orquestração tácita de espíritos generosos nessa dança de paixão e entrega. Seguidores de um Deus doméstico, descobriram a maior dentre todas as felicidades nessa crença indestrutível. Não temem como Prometeu ser amarrados a penhascos por revelar aos homens os segredos de seus deuses. Os deuses são apenas um, ainda que em três cores.

Seu hino carrega o determinismo de um texto religioso. Os primeiros versos, mandamentos: “Sou tricolor de coração/ sou do clube tantas vezes campeão”. Excomungados serão os que os profanarem. O moleque Fluminense vai muito além dos sonhos de seus fundadores, nada o limita, nada o prende a pudores que o aprisionem. Holístico, habita o planeta tépido dos castos, pulsa nas camas das prostitutas, e aponta para o céu quando se veem mortas as esperanças das palafitas. Pátria dos proscritos e lar dos escolhidos. Esfinge e óbvio. Tantas vezes volúpia, nunca paz inexpressiva. Mora cuidadoso na consciência dos bêbados e embriaga de delírios os abstêmios. Indivizível, por ser a Verdade. Um amor que não refuga diante de preconceitos e transforma o todo em um. Indecorosos e decorosos. Chuta o balde do escárnio e cutuca com vara curta a arrogância dos babacas. O Fluminense é um lugar. Que não cabe onde cabem os lugares, com suas geometrias toscas e banais. Um número que não se enquadra na excludência óbvia de pares e ímpares. Um grau visceralmente aumentativo. Não é de ninguém, por ser de todos.

O menino Fluminense renasce todos os dias, grávido de emoções afloradas. Em cada quarto de maternidade onde na porta há pendurado um símbolo tricolor que lembre estar ali vindo ao mundo mais um continuador. Nas mesas de bar onde corações e discursos inflamados ponteiam de lágrimas e gargalhadas a explosão de uma paixão que grita em decibéis tribais. Em cada lábio trêmulo e olhar rútilo que ressuscitem, por obra e graça de um amor que não cobra, o bom, velho e imortal Nelson Rodrigues. Na lembrança de um gol do Waldo, do Manfrini, do Assis, do Fred, do Rivelino; dos gols que não vimos, mas imaginamos. Das escalações mentais – sempre irretocáveis – que levamos pra cama à guisa de atalhar o sono.

O Fluminense vive porque vive em cada um de nós uma teimosa criança, um coração indomável, uma paixão avassaladora e eterna. O Fluminense moleque quer jogar bola em nossos sonhos. Lá, ele nos abraça e compreende. Nos aceita como somos. E nós o amamos plenamente. Ele nada nos pergunta. Nós não lhe duvidamos.

Felizes serão as crianças que nascerão tocadas pela fé única e arrebatadora e viverão com você, Fluminense, os próximos mil anos de infância.

Quanto a mim, estou pronto pro que vier. Toda gratidão que lhe entrego sempre foi e será menor que o conforto de ter você orbitando minha vida, sempre ao alcance das contrições e angústias, provedor de conforto, de alegrias indizíveis.

Parabéns, amigo. 

Obrigado.


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